Um relatório da Polícia Federal (PF) anexado à investigação que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF) aponta que o banqueiro Daniel Vorcaro mantinha uma ampla estratégia para fortalecer artificialmente a imagem pública do Banco Master e de sua própria atuação empresarial, informa a colunista Malu Gaspar, do jornal O Globo. Segundo os investigadores, o esquema incluía a manipulação de avaliações do aplicativo da instituição financeira, a disseminação de comentários positivos em redes sociais e o impulsionamento de conteúdos favoráveis para reduzir a visibilidade de notícias negativas.
As informações constam de documentos incorporados ao inquérito relatado pelo ministro André Mendonça. O material chegou a ser tornado público por decisão do magistrado, mas posteriormente voltou a tramitar sob sigilo.
O relatório integra um conjunto mais amplo de investigações que atribuem a Vorcaro outras condutas, como a obtenção de acesso a investigações sigilosas, a encomenda de dossiês contra adversários, tentativas de intimidação de pessoas consideradas inconvenientes aos seus interesses e a distribuição de benefícios, como apartamentos e viagens em jatinhos, a lideranças políticas de diferentes correntes.
Manipulação de avaliações do aplicativo
Entre os episódios destacados pela Polícia Federal está uma troca de mensagens entre Daniel Vorcaro e Luiz Phillipi Mourão, conhecido como “Sicário”, envolvendo as avaliações do aplicativo do Banco Master nas principais lojas digitais.
As conversas ocorreram antes de o Banco Central decretar a liquidação extrajudicial da instituição, em novembro do ano passado.
Em uma mensagem enviada em 20 de dezembro de 2023, Mourão demonstra preocupação com a baixa avaliação do aplicativo.
“Está (sic) muito baixo as avaliações eu pedi para subi-las”, escreveu.
Na conversa, ele encaminha capturas de tela mostrando que o aplicativo possuía nota 3,1 na App Store, plataforma da Apple, e apenas 2,2 estrelas no Google Play.
Pouco menos de três semanas depois, em 9 de janeiro de 2024, o mesmo interlocutor voltou a atualizar Vorcaro sobre a operação.
“Está subindo…”, escreveu.
Segundo os registros, a avaliação na App Store havia passado de 3,1 para 4,1 estrelas. Nesse intervalo foram registradas 81 novas avaliações do aplicativo, embora a investigação não consiga determinar quantas delas teriam sido produzidas de forma artificial.
Para a Polícia Federal, as mensagens revelam uma atuação organizada para influenciar a percepção pública sobre a instituição financeira.
Segundo o relatório, “tais ações evidenciam uma estratégia coordenada de fabricação de reputação digital, que não reflete a experiência real dos usuários, mas sim um esforço deliberado para influenciar a opinião pública e melhorar artificialmente a imagem empresarial do banqueiro”.
Comentários positivos em reportagens
A investigação também aponta que a estratégia não se limitava às plataformas de aplicativos.
Em outra conversa, datada de 6 de abril de 2024, Luiz Phillipi Mourão informa que iniciaria uma campanha para impulsionar comentários favoráveis em uma publicação da revista IstoÉ.
Segundo a PF, ações semelhantes também foram direcionadas a conteúdos publicados pelo Brazil Journal, veículo que divulgou uma reportagem destacando a atuação de Daniel Vorcaro e os planos do Banco Master para financiar empresas.
Na entrevista reproduzida pela publicação, o banqueiro afirmou:
“Fazer o que todo mundo está fazendo geralmente não leva o empreendimento a um bom resultado”.
A declaração foi dada cerca de um ano e meio antes da liquidação extrajudicial do Banco Master.
Orientação era parecer natural
As mensagens obtidas pela Polícia Federal mostram que os comentários eram planejados para aparentar espontaneidade.
Em determinado momento, Mourão informa que os comentários positivos começariam a ser publicados e apresenta exemplos de mensagens que seriam divulgadas por perfis apresentados como leitores comuns.
Entre elas estavam:
“Acensão (sic) astronômica desse empresário”
“Cada palavra desse cara vale ouro”
“Parabéns ao empresário”
Na sequência, Mourão pergunta:
“Uns 100 [comentários] em cada?”
A resposta de Vorcaro indica preocupação para que a ação não chamasse atenção.
“Não precisa isso tudo. E não precisa forçar demais no positivo. Fazer mais natural. Sem elogio demais”.
Levantamento realizado durante a investigação identificou que grande parte dessas manifestações foi publicada por perfis atualmente desativados ou por contas com pouca atividade, número reduzido de fotografias e baixo engajamento, circunstâncias consideradas pela apuração como indícios de uma possível atuação coordenada.
Estratégia para esconder notícias negativas
Outro trecho das conversas mostra que o grupo monitorava constantemente o posicionamento de notícias nos mecanismos de busca.
Em mensagem enviada em 24 de janeiro de 2024, Mourão informa ao banqueiro os resultados obtidos com a estratégia digital.
“31 matérias positivas nos últimos dias, sendo 7 deles já ranqueadas na primeira página e sendo referência para o Google”.
Na sequência, acrescenta:
“Estamos subindo matérias positivas no Google, com isso desbancamos matérias negativas. Estamos subindo as reviews e avaliações do banco no Google Meu Negócio, Apple App Store, Google Play Store”.
Para a Polícia Federal, as mensagens indicam que a atuação buscava influenciar diretamente os resultados de pesquisas na internet e reduzir o alcance de conteúdos desfavoráveis ao Banco Master e ao seu controlador.
‘Dá na cara’
Outro diálogo citado pela investigação ocorreu após uma publicação do Brazil Journal informar que o Banco Master havia adquirido o banco digital Will Bank, instituição que também viria a sofrer liquidação extrajudicial determinada pelo Banco Central meses depois.
Depois de ser informado por Mourão de que os comentários favoráveis estavam sendo publicados, Vorcaro demonstrou preocupação com o excesso de elogios.
“Pede para os comentários não serem só muito bons não. Que dá na cara demais kkkk”, escreve Vorcaro.
Para os investigadores, a conversa reforça a hipótese de que havia preocupação em conferir aparência de autenticidade às manifestações publicadas nas redes sociais.
Investigação segue no STF
O relatório da Polícia Federal integra o inquérito em tramitação no Supremo Tribunal Federal, sob relatoria do ministro André Mendonça.
Além da manipulação de reputação digital, as investigações analisam outros fatos atribuídos a Daniel Vorcaro, como a produção de dossiês, tentativas de obtenção de informações sigilosas e ações para proteger a imagem do Banco Master perante o mercado e a opinião pública.
Os documentos apontam que a construção de uma imagem positiva fazia parte de uma estratégia mais ampla de gestão da reputação do conglomerado financeiro, utilizando comentários, avaliações e conteúdos favoráveis para influenciar a percepção pública sobre o banco.





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