Lideranças políticas da Assembleia Legislativa do Rio avaliam que a maioria dos deputados deve votar pela revogação da prisão do presidente da Casa, Rodrigo Bacellar (União), detido por ordem do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. A tendência foi apontada ao jornal O Globo por caciques de três partidos, embora haja divergências sobre a possibilidade de Bacellar retomar o exercício do mandato caso seja solto. A decisão judicial fala apenas em afastamento da presidência da Alerj, e não da função parlamentar, mas o cenário se mantém nebuloso.
Na ausência do presidente, a sessão de ontem foi conduzida pelo vice da Mesa Diretora, Guilherme Delaroli (PL), que barrou manifestações sobre a prisão. A Alerj deve ser formalmente notificada da decisão do STF até o fim do dia, o que abre prazo de 48 horas para que Bacellar envie sua defesa à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). O parecer da comissão deve ser apresentado no dia seguinte, antes da votação em plenário.
Sessão aberta definirá se prisão será mantida ou revogada
A palavra final caberá ao plenário, em votação aberta. Caso os deputados decidam manter a prisão, Bacellar ficará afastado do mandato. Mesmo se a prisão for derrubada, lideranças avaliam que novas medidas cautelares podem ser impostas pelo Supremo, o que mantém incertezas sobre o retorno de Bacellar às atividades legislativas.
O regimento interno da Casa estabelece que, havendo vaga em qualquer posto da Mesa Diretora, nova eleição deve ocorrer em até cinco sessões. Para o líder do PSB, Carlos Minc, a regra se aplica ao caso: “a Alerj tem que chamar uma nova eleição de presidente se a prisão for mantida”, afirma.
Minc avalia ainda que uma eventual soltura do presidente da Casa “pode passar uma imagem negativa” às vésperas da retomada do julgamento do caso Ceperj pelo Tribunal Superior Eleitoral, em 2026. A relatora já votou pela cassação dos mandatos de Bacellar e do governador Cláudio Castro (PL) por abuso de poder econômico.
“É esperado que a maioria da Assembleia revogue a prisão, mas creio que isso possa ter uma influência contrária aos acusados no julgamento do Ceperj”, diz o deputado.
Precedente Picciani pode favorecer Delaroli
Caciques de outros dois partidos avaliam que, se a prisão for revogada, existe brecha para que Delaroli permaneça à frente da Casa como “presidente em exercício”, ao menos até o fim do mandato atual. Embora o regimento não preveja que o vice assuma definitivamente, a Alerj já adotou esse entendimento no passado.
Em 2017, após a Operação Cadeia Velha, que prendeu o então presidente Jorge Picciani, o Tribunal Regional Federal determinou apenas seu “afastamento do exercício da função”. Os deputados revogaram a prisão, mas a medida foi restabelecida dias depois pelo tribunal. À época, o posto foi herdado pelo então vice-presidente, Wagner Montes, sem nova eleição.
Montes permaneceu no cargo até o fim de 2018, após licenças médicas, sendo substituído pelo segundo vice, André Ceciliano (PT), que acabou comandando a Alerj até aquela legislatura e se reelegeu para a presidência nos anos seguintes.
PL tenta emplacar novo nome para o comando da Casa
Mesmo com o precedente, uma das lideranças ouvidas avalia que Delaroli “não tem perfil” para se manter à frente da Assembleia, por ser considerado integrante do baixo clero. Por isso, o PL já articula apoio ao nome de Douglas Ruas, atual secretário estadual de Cidades e deputado licenciado, cotado para a sucessão de Bacellar desde antes da crise.
Ruas é ligado ao deputado federal Altineu Côrtes, presidente estadual do PL, figura influente em São Gonçalo e Itaboraí — cidades governadas, respectivamente, pelo pai de Ruas e pelo irmão de Delaroli.
Crise abre discussão sobre futuro de Cláudio Castro
Para outro dirigente ouvido reservadamente, a prisão de Bacellar pode destravar um impasse envolvendo o governador Cláudio Castro. Pretenso candidato ao Senado em 2026, Castro precisaria renunciar até abril para que a Alerj eleja um governador-tampão até o fim do mandato. A permanência de Bacellar na presidência era vista como entrave para o plano.
Com a possibilidade de a Alerj eleger um aliado do governador, aumentam as chances de Castro conseguir pavimentar sua candidatura em um ambiente mais favorável. O nome preferido do Palácio Guanabara, segundo interlocutores, é o secretário da Casa Civil, Nicola Miccione — figura próxima de Castro e que mantém diálogo com o prefeito do Rio, Eduardo Paes (PSD), provável candidato ao governo do estado.
Ruas, o favorito do PL para assumir a Alerj após Bacellar, também mantém boa relação com Paes, o que reforça a avaliação de que o tabuleiro político fluminense pode ser redesenhado a partir da crise.






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