A disputa entre Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno começa com um adversário comum que não aparece na urna: a abstenção. Nada menos que 33,4 milhões de brasileiros deixaram de votar no primeiro turno, o equivalente a 21,08% do eleitorado, maior índice registrado numa eleição geral desde 1998. Outros 4,77% dos votos depositados foram nulos (3,7 milhões) e brancos (2,3 milhões).
O tamanho desse contingente ganha ainda mais importância diante da distância entre os dois candidatos. Flávio terminou o primeiro turno na liderança, com 56.098.457 votos, ou 47,04% dos válidos, contra 53.846.396, ou 45,15%, de Lula. São cerca de 2,25 milhões de votos de diferença, enquanto mais de 33 milhões de eleitores simplesmente não compareceram. Somados à nulos e brancos, o total alcança 39,4 milhões.
Na prática, a eleição de 25 de outubro será disputada em duas frentes. Lula e Flávio precisam conquistar os eleitores dos candidatos eliminados, mas terão também de impedir que seus próprios apoiadores fiquem em casa e tentar convencer parte dos ausentes do primeiro turno a comparecer.
Abstenção acende alerta maior no campo de Lula
Embora não seja possível afirmar que todo aumento da abstenção favoreça automaticamente um dos candidatos, o perfil histórico dos eleitores que mais deixam de votar acende um sinal de alerta especialmente para a campanha de Lula.
Análises sobre eleições anteriores mostram maior incidência de abstenção entre eleitores de baixa escolaridade, jovens e idosos. Especialistas ouvidos antes da eleição apontaram que a maior ausência entre segmentos de menor escolaridade e renda poderia prejudicar Lula, justamente pela maior presença do petista nesses estratos do eleitorado. O mesmo acontece com os idosos, em sua maioria simpáticos a Lula. Acima de 70 anos o voto é facultativo.
O desafio do PT, portanto, não está apenas em conquistar votos novos. Passa também por aumentar o comparecimento em regiões nas quais Lula possui vantagem, especialmente no Nordeste. O presidente saiu da região com cerca de 11 milhões de votos de vantagem sobre Flávio, enquanto o candidato do PL teve desempenho superior no Sudeste, Sul, Centro-Oeste e parte do Norte.
Para Lula, cada eleitor simpático ao presidente que ficou em casa no primeiro turno representa uma oportunidade de crescimento sem a necessidade de retirar diretamente um voto de Flávio.
Flávio precisa preservar vantagem e mobilizar eleitorado
O problema também existe para Flávio. O senador entra no segundo turno depois de terminar a primeira etapa com aproximadamente 2,2 milhões de votos de vantagem, mas num cenário em que essa diferença representa uma parcela pequena do eleitorado nacional.
Sua campanha precisará preservar a mobilização observada no primeiro turno e buscar os votos dados aos candidatos eliminados. Aproximadamente 9,2 milhões de eleitores escolheram outros presidenciáveis, contingente suficiente para alterar o equilíbrio da disputa, mas cuja transferência não ocorre automaticamente.
O mapa eleitoral oferece pistas das prioridades. Flávio venceu em 14 estados e no Distrito Federal, enquanto Lula ficou à frente em 12. Minas Gerais, onde Flávio obteve 48,2% contra 43,3% de Lula, e os grandes colégios eleitorais do Sudeste tendem a receber atenção especial das duas campanhas.
Branco e nulo não ajudam diretamente nenhum candidato
Há ainda uma diferença importante entre abstenção e votos brancos e nulos. Do ponto de vista da apuração, porém, todos ficam fora da conta que define o vencedor.
No segundo turno, será eleito quem obtiver a maioria dos votos válidos. Votos em branco e nulos não são considerados válidos e, portanto, não são atribuídos ao candidato que estiver na frente nem são usados para formar uma espécie de percentual contrário aos concorrentes. A Justiça Eleitoral considera apenas os votos nominais dados aos dois candidatos.
Isso significa que uma eventual alta de brancos e nulos reduz o universo sobre o qual os percentuais de Lula e Flávio são calculados, mas não entrega votos diretamente a nenhum deles.
Mobilização pode valer tanto quanto conquista de votos
O primeiro turno mostrou o tamanho do eleitorado que ainda está fora da disputa direta entre os dois finalistas. Somadas as abstenções aos votos brancos e nulos, quase 40 milhões de eleitores não escolheram Lula nem Flávio.
Por isso, a reta final tende a transformar o comparecimento em uma variável tão importante quanto a migração dos votos dos candidatos derrotados. Para Lula, reduzir a abstenção entre segmentos e regiões onde tem maior apoio pode representar uma fonte relevante de votos adicionais. Para Flávio, manter mobilizado o eleitorado que lhe deu a liderança e ampliar sua votação entre os dos candidatos de direita derrotdos são desafios igualmente decisivos.







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