A república em três tons: a desarmonia dos poderes e a fragilidade da democracia brasileira.

“O Judiciário brasileiro, sobretudo sua instância máxima, transformou-se em protagonista de um teatro institucional que o ultrapassa”, escreve Paulo Baía.

* Paulo Baía

No centro nervoso da República pulsa um ideal ferido. A harmonia entre os poderes não é apenas cláusula escrita nos fundamentos constitucionais. É a própria respiração do Estado de Direito. Quando Executivo, Legislativo e Judiciário se movem fora do compasso, a música que deveria ser sinfonia democrática se transforma em ruído confuso e perigoso. Ao invés de equilíbrio, há atrito. Em vez de cooperação, colisão. Uma arquitetura que deveria sustentar o edifício da democracia brasileira está trincada, ameaçando seu próprio alicerce.

O Judiciário brasileiro, sobretudo sua instância máxima, transformou-se em protagonista de um teatro institucional que o ultrapassa. Acionado com frequência quase diária por partidos políticos, parlamentares e grupos organizados, a toga tornou-se instrumento de combate, escudo de interesses, espada de veto. Diante de uma política fragmentada e muitas vezes incapaz de resolver seus próprios impasses, os tribunais foram convertidos em oráculos de última instância para toda sorte de conflito. Assim, ao invés de zelar pela Constituição, o Supremo passou a interferir diretamente no conteúdo da política, interpretando, legislando, decidindo, orientando o curso da vida pública como se sua função fosse reger o país.

Enquanto isso, o Executivo se arrasta sem rumo fixo. Navega entre duas tormentas. De um lado, sofre o assédio constante de um Legislativo desfigurado por práticas individualistas, negociações atomizadas, lógicas paroquiais que dissolvem qualquer projeto coletivo. De outro lado, sente o peso do Judiciário hipertrofiado que limita, revoga, impõe condições, exige obediência. O resultado é um governo sem fôlego, um poder sem potência, um comando aprisionado por decisões externas que o impedem de formular, planejar, executar.

O Parlamento, que deveria ser a casa do povo e da representação plural, esqueceu-se de pensar o Brasil como nação. Falta-lhe horizonte. Falta-lhe grandeza. Em lugar do debate público, proliferam interesses de ocasião. Em lugar do projeto de país, a obsessão por fundos, cargos, emendas, verbas. Pouco se legisla com visão. Pouco se pensa em termos de Estado. Muito se negocia, sem direção nem escrúpulo. E, quando incapaz de resolver questões cruciais, transfere o peso da responsabilidade ao Judiciário, lavando as mãos diante de temas espinhosos e assim alimentando ainda mais o monstro institucional que ajuda a criar.

Essa desordem não é apenas um embate entre instituições. É o sintoma grave de uma democracia exausta, tensionada, acuada por seus próprios mecanismos. O que deveria ser um sistema de freios e contrapesos se transformou num campo de disputa crônica por poder e protagonismo. A consequência é direta. Instabilidade. Insegurança. Desconfiança. E o povo, este verdadeiro soberano da ordem democrática, observa tudo com olhos cansados. Assiste à judicialização do cotidiano, à paralisia do Executivo, à fragmentação do Parlamento como quem assiste à lenta erosão da própria esperança.

Recuperar a harmonia entre os poderes é mais do que uma necessidade administrativa. É um gesto de sobrevivência civilizatória. A Constituição é clara. Cada poder tem sua função. Cada poder tem seu limite. E é dentro desse limite que se constrói a grandeza do sistema. Quando o Judiciário ultrapassa sua missão, quando o Legislativo renuncia à sua, quando o Executivo é coagido e inibido, o pacto republicano perde sentido. O povo se distancia. A política se desidrata. O Estado se enfraquece.

É hora de resgatar o sentido original da República. Os poderes precisam reaprender a coexistir. Precisam reaprender a escutar. Precisam compreender que o verdadeiro poder não é o de impor, mas o de dialogar. Nenhuma instituição é maior do que a democracia. Nenhum poder é legítimo quando não reconhece a medida da sua função. O Judiciário precisa recuperar a sobriedade. O Legislativo deve reencontrar o espírito público. O Executivo precisa reconquistar a autoridade que a Constituição lhe confere.

Sem harmonia, não há República. Sem respeito entre os poderes, não há democracia que se sustente. O Brasil precisa de instituições que se entendam como partes de um todo e não como inimigas em disputa permanente. O tempo exige grandeza. O país exige responsabilidade. E o povo exige dignidade.

É por isso que, mais do que reformas ou pactos, o que se faz urgente é o retorno à essência. O reencontro com o princípio. O resgate da harmonia como compromisso comum. Pois é nela, e apenas nela, que mora a possibilidade de um futuro justo, livre e democrático.

* Sociólogo, cientista político e professor da UFRJ.

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