A democracia, as forças armadas brasileiras e nossa gente!

       *Paulo Baía. Não estou nem perplexo nem assustado com o comportamento das Forças Armadas Brasileiras  – Marinha, Exército e Aeronáutica. Nossos militares são especialistas em não agir e pensar na direção da maioria esclarecida e de índole republicana/democrática da população brasileira. É uma contradição aparente, mas a responsabilidade por esse comportamento estressante é da…

       *Paulo Baía.

Não estou nem perplexo nem assustado com o comportamento das Forças Armadas Brasileiras  – Marinha, Exército e Aeronáutica.

Nossos militares são especialistas em não agir e pensar na direção da maioria esclarecida e de índole republicana/democrática da população brasileira.

É uma contradição aparente, mas a responsabilidade por esse comportamento estressante é da própria sociedade brasileira, de nossa república com tons e sobretons de persistências históricas escravistas, aristocráticas e monarquistas.

Nosso exército e aparato militar não é eleito e reeleito por nossa gente, mas é formado no recrutamento contínuo e bem estruturado de nossos jovens de todas as regiões e segmentos sociais, em especial das classes médias baixas e médias de nossas urbes.

Não são forças militares que caíram do céu ou foram nomeadas ao acaso do destino de uma herança heráldica nobre feudal.

Assim, creio eu, nossos militares, praças, oficialidade e generalato são sensíveis à perspectiva das escolhas eleitorais, eles próprios eleitores também.

Minha percepção é de que já nos constituímos em uma nova sociedade deste 1990, conectada em redes cibernéticas, hiper urbanizada, que se integra ao mundo 5G, às TIs e às IAs de maneira íntima e indefectível.

Uma sociedade mais conectada com seus próprios interesses contemporâneos e que ensaia um protagonismo inovador na cidadania brasileira.

Episódios como o da retaliação ao Poder Judiciário, ao Ministério Público, ao poder legislativo, à ciência, à cultura, às universidades, como o acontecido na madrugada do dia 31/10/2022 em nossas principais rodovias, só são possíveis com a inércia da população, da imprensa, das instituições da sociedade civil.

Nossa população, nossa imprensa e nossas instituições de Estado, Governo e comunitárias não foram omissas, inertes e/ou lenientes com o absolutismo nostálgico de um velho passado escravista/aristocrático, foram essencialmente republicanas e democráticas militantes.

Não creio nessa inércia em nenhum momento; pelo contrário, acredito não apenas na reprovação retórica do episódio de incentivo violento à promoção da ruptura democrática, a atos de promoção da corrupção das instituições e de improbidade administrativa de agentes públicos civis na União Federal, nos 26 estados federados e no Distrito Federal, tolerados por uma minoria facilmente identificada, casos isolados, de parlamentares da Câmara dos Deputados e do Senado Federal aprovando a insensatez na noite do dia 30/10/2022 , na madrugada e ao longo dos dia 31/10/22, 01/11/22 e 02/11/22.

Acredito não apenas na indignação da maioria da população, mas em sua ação ativa em manifestações e repúdios generalizados e universalizantes em todo o território nacional aos atos golpistas contra a democracia, atos de desinformação deliberada, de déficit cognitivo e mental.

O Brasil contemporâneo tem imensos problemas, inclusive no conjunto do poder judiciário e nos MPs, por serem ainda pouco republicanos e muito monárquicos em sua composição e recrutamento de quadros profissionais e técnicos.

Mas nossa mais aguda questão está na simbiose dos poderes executivo e legislativo da república com suas pequenas persistências feudais de clientelismo, corporativismo e patrimonialismo ainda não extirpados.

Como acredito na democracia, na nova sociedade brasileira pós 1988, acredito que a sociedade vem criando as condições de equacionar essas questões com manifestações institucionais impecáveis e pleitos eleitorais com lisura e invejável suporte tecnopolítico cibernético.

Creio na ebulição criativa de nossa gente, sempre e sempre, dentro dos parâmetros de um Estado Democrático de Direito que se aperfeiçoa a cada pleito eleitoral.

Estado Democrático de Direito vivo, ativo, ruidoso, plural, diversificado, para nossa felicidade e tranquilidade da comunidade internacional com suas cláusulas democráticas de convívio.

Vemos nosso povo reagir propositivamente por mais direitos gerais, individuais e coletivos, por qualidade de vida, sustentabilidade socioeconômica, antietarismo, antirracismo, antimachismo, ser protagonista nas ruas e nos diversos mecanismos de nossa cidadania por democracia sempre.

Aposto na democracia, na democracia como valor universal, inalienável, e no vigor da população em ação democrática militante.

Com todos os senões que tenho, manifesto meu irrestrito apoio ao Poder Judiciário, aos MPs, aos 27 governadores, aos 5570 prefeitos, aos comandantes militares pela impecável onda constitucional, legalista e de defesa do Estado Democrático de Direito brasileiro e da democracia como modo de vida civilizacional em nosso plural país.

É o que os dados e informações que tenho hoje me permitem falar por hoje, dia 30/11/2022 e início do mês de dezembro de 2022.

Além da minha ojeriza permanente às persistências históricas de práticas de um legislativo,  um executivo e um judiciário clientelista, corporativo e patrimonialista como o que tivemos nos séculos 19 e 20.

Mas os ares democráticos ampliados e includentes vão diluindo essas persistências históricas do longo escravismo e patrimonialismo que formatou nossas instituições políticas, universidades, forças militares

   *Sociólogo, cientista político e professor da UFRJ.

Mais recentes

Descubra mais sobre Agenda do Poder

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading