* Paulo Baía
Há dias em que a realidade brasileira implode qualquer fantasia de progresso civilizatório. Dias em que as estruturas simbólicas que sustentam o mito da democracia racial desmoronam, revelando os alicerces profundamente marcados pelo racismo estrutural. Na manhã de 16 de maio de 2025, a ministra substituta do Tribunal Superior Eleitoral, Vera Lúcia Santana Araújo, caminhava na direção de um dos espaços que deveriam simbolizar a racionalidade democrática: o seminário “Ética na Gestão”, promovido pela Comissão de Ética Pública da Presidência da República. A cena que se desenrolaria, contudo, seria uma etnografia brutal do Brasil real. A ministra foi barrada na entrada. Barrada não por sua ausência de méritos, não por falta de convites, não por qualquer razão objetiva. Foi barrada porque carrega, em sua pele, a marca simbólica que historicamente este país escolheu como fronteira social: a negritude.
O racismo no Brasil opera como tecnologia social sofisticada, silenciosa, escorregadia. Veste-se de formalidades, disfarça-se em normas, simula equívocos administrativos. O protocolo, que deveria ser instrumento da ordem democrática, vira máscara para práticas seculares de exclusão. A ministra não constava na lista, disseram. Seus documentos, ignorados. Sua autoridade institucional, reduzida à mais absoluta irrelevância diante da hierarquia racial invisível, mas onipresente. É nesse exato ponto que a sociologia e a literatura se entrelaçam: não há teoria que explique o Brasil sem convocar a narrativa sensível, o relato que captura o absurdo do cotidiano e o traduz em denúncia simbólica.
O episódio funciona como um espelho partido que reflete as contradições fundantes da sociedade brasileira. Uma sociedade que produziu, ao longo dos séculos, uma engenharia perversa capaz de naturalizar o inaceitável. Desde os alicerces coloniais, passando pela falsa abolição e pela república da exclusão, o Brasil se especializou em construir dispositivos sociais que asseguram que a cor da pele continue sendo um marcador de acesso ou de bloqueio, de visibilidade ou de apagamento, de pertencimento ou de rejeição. A antropologia social não tem dúvidas: o racismo não é desvio, não é patologia, não é aberração. É norma. É fundação. É estrutura.
Quando a ministra Vera Lúcia foi barrada, o que se revelou não foi um erro isolado, mas a reprodução cotidiana de uma lógica que organiza as relações sociais brasileiras. O Brasil é uma democracia tutelada por uma hierarquia racial. Não importa o cargo, a função, o diploma, os títulos ou as honrarias. A negritude, neste território, continua sendo interpretada como corpo estrangeiro, como corpo suspeito, como corpo passível de controle, de contenção, de recusa. A sociologia aponta: há um apartheid não declarado, um sistema de segregação difuso, que opera não nas leis, mas nos hábitos, nos gestos, nas sutilezas do convívio social.
As respostas institucionais vieram rápidas, previsíveis, ritualísticas. Notas de repúdio, abertura de investigações, manifestações de solidariedade. O mesmo roteiro de sempre. Mas nenhum desses gestos protocolares é capaz de apagar a contundente evidência sociológica: a democracia brasileira é profundamente seletiva. Ela se dobra aos códigos raciais antes mesmo de se submeter às leis. Ela admite corpos negros nas cerimônias, nas fotos institucionais, nos discursos sobre diversidade — mas os repele na materialidade concreta dos espaços de poder. O racismo, aqui, não é uma falha do sistema; ele é o próprio sistema.
O que se passou naquela portaria não é um evento isolado. É um acontecimento que condensa séculos de práticas sociais racistas, transformando o cotidiano em território de disputa simbólica e material. O espelho partido da democracia reflete, em cada estilhaço, uma sociedade que insiste em performar modernidade enquanto mantém vivos os códigos coloniais que estruturam suas relações. A existência da ministra naquele espaço já era, por si só, um ato de resistência. Sua recusa, um lembrete brutal de que, no Brasil, o racismo é uma gramática que precede qualquer outra linguagem social.
Se há algum sentido em narrar esse episódio, ele não está apenas em registrar mais uma violência racista, mas em torná-la prova empírica de que nenhuma nação pode se pretender democrática enquanto mantiver, como eixo oculto de sua organização social, uma ordem racial. A história não perdoa quem naturaliza o inaceitável. A sociologia, quando combinada com a potência da literatura, cumpre seu papel: desvelar, denunciar e inscrever no tecido social que o Brasil, enquanto não romper com essa lógica, continuará sendo uma democracia precária, mutilada e, sobretudo, hipócrita.
* Sociólogo, cientista político e professor da UFRJ.





