* Paulo Baía
A política do estado do Rio de Janeiro não se deixa reduzir a categorias simples. Ela resiste. Escapa. Desorganiza qualquer tentativa apressada de classificação. O que se observa no presente ciclo pré-eleitoral não é apenas uma sucessão de movimentos táticos, mas a manifestação de um campo político tensionado, instável, atravessado por forças visíveis e invisíveis que operam simultaneamente, muitas vezes em direções contraditórias. Trata-se de um sistema que não apenas abriga conflitos, mas que é, em si mesmo, estruturado pela permanência do conflito.
Há uma aceleração do tempo político. As pré-campanhas já não são mais prévias. Elas são campanhas em estado bruto, em operação contínua, em fluxo permanente. O tempo institucional foi comprimido pela urgência da presença, pela necessidade de ocupação simbólica e territorial. E nesse cenário, cinco nomes emergem com densidade analítica equivalente, ainda que por trajetórias distintas e racionalidades próprias: Eduardo Paes, Douglas Ruas, William Siri, Cyro Garcia e Anthony Garotinho.
Eduardo Paes opera com a inteligência territorial de quem compreende o Rio de Janeiro como um arquipélago político. Sua presença constante no interior não é apenas estratégia eleitoral. É método. É leitura sofisticada de um estado fragmentado, onde o poder se distribui em camadas, onde cada município constitui um microcosmo com lógicas próprias, redes de sociabilidade específicas e dinâmicas eleitorais muitas vezes dissociadas do centro metropolitano. Paes não percorre o interior. Ele o incorpora como variável estruturante da disputa. Ele antecipa o tempo e dilui a fronteira entre governo e campanha.
Douglas Ruas, por sua vez, representa a política como adaptação contínua. Sua atuação sugere uma compreensão pragmática de um sistema que não responde mais a esquemas tradicionais. Ele se move dentro das fissuras do sistema, ocupa zonas intermediárias, articula-se em redes que não são plenamente visíveis. Dialoga com uma lógica menos ideológica e mais operacional, onde a eficácia da presença pesa tanto quanto a coerência do discurso. Sua política é a política do trânsito, da circulação, da capacidade de estar em múltiplos espaços simultaneamente.
William Siri introduz outro tipo de racionalidade. Sua pré-campanha, ancorada no PSOL, revela densidade organizativa e coerência discursiva. Não se trata apenas de disputar votos, mas de produzir sentido político. Há uma aposta na militância como força estruturante, na pedagogia política como instrumento de formação e na narrativa como campo de disputa simbólica. Siri atua na construção de um enraizamento que não depende exclusivamente de recursos materiais, mas de vínculos sociais e identitários.
Cyro Garcia, pelo PSTU, radicaliza essa dimensão. Sua campanha não busca apenas inserção institucional. Ela tensiona o próprio sistema. Há, em sua atuação, uma recusa em se acomodar às regras dominantes do jogo político. A militância, aqui, não é apenas apoio. É estrutura orgânica. É linguagem. É prática cotidiana. Cyro não disputa apenas uma eleição. Ele disputa o significado da própria política.
Anthony Garotinho introduz uma outra camada analítica, marcada pela memória e pela persistência. Sua presença, pelo Republicanos, não é apenas a de um nome consolidado. É a de um ator que carrega consigo um capital político sedimentado ao longo de décadas, capaz de reativar redes, afetos e lealdades que atravessam o tempo. Garotinho é, ao mesmo tempo, passado e presente. Sua atuação reabre circuitos políticos que muitos julgavam encerrados, demonstrando que, no Rio de Janeiro, o tempo político não é linear. Ele é circular, por vezes espiralado, sempre imprevisível.
Esses cinco nomes, cada um a seu modo, revelam algo fundamental: a política fluminense não é homogênea. Ela é um campo de forças em disputa permanente, onde diferentes racionalidades coexistem, colidem, se sobrepõem e, em muitos casos, se anulam ou se transformam mutuamente.
Ao lado deles, outros pré-candidatos ampliam esse mosaico complexo. André Marinho, vinculado ao Partido Novo, tenta estruturar uma narrativa liberal em um território onde o pragmatismo frequentemente redefine os contornos ideológicos. Juliete Pantoja, pela Unidade Popular, inscreve sua candidatura no campo das lutas populares e da organização de base. Luan Monteiro, pelo Partido da Causa Operária, reafirma uma esquerda de confronto direto, de crítica sistêmica e de enfrentamento ideológico.
O que se impõe, portanto, é a constatação de uma profissionalização generalizada das pré-campanhas. Há método. Há planejamento. Há cálculo. Há técnica. Mas essa sofisticação não elimina, nem reduz, as assimetrias estruturais. Recursos, visibilidade, tempo de exposição, alianças institucionais e capilaridade territorial continuam distribuídos de forma marcadamente desigual. O campo político permanece hierarquizado, tensionado por desigualdades que não são apenas eleitorais, mas sociais.
E, ainda assim, nada disso garante previsibilidade.
O Rio de Janeiro carrega uma marca histórica que não pode ser ignorada: a capacidade de ruptura. As Eleições estaduais do Rio de Janeiro de 1982 não foram apenas uma eleição. Foram uma inflexão. Um deslocamento inesperado que revelou que variáveis simbólicas, afetivas e subterrâneas podem reconfigurar completamente o resultado. Esse padrão reaparece nas Eleições gerais no Brasil de 2018, quando o eleitorado, também no Rio, rompeu com padrões estabelecidos e redesenhou o mapa político com intensidade disruptiva.
Essa é a chave analítica central. A política fluminense é estruturada pela tensão entre estratégia e imprevisibilidade.
Há planejamento, mas há também desvio.
Há cálculo, mas há também afeto.
Há estrutura, mas há também acontecimento.
Há memória, mas há também ruptura.
O sentimento de confusão não é falha de interpretação. É dado estrutural. Ele emerge de um sistema onde o institucional e o informal se entrelaçam de maneira contínua, onde redes paralelas de poder operam com intensidade, onde a política oficial convive com circuitos subterrâneos que escapam à mensuração empírica clássica.
A política, no Rio de Janeiro, não é apenas disputada. Ela é decifrada em tempo real, em um esforço permanente de interpretação.
E talvez seja exatamente isso que define o momento atual. Não se trata apenas de identificar quem está mais organizado, quem percorre mais territórios ou quem dispõe de mais recursos. Trata-se de compreender que o processo eleitoral fluminense se desenrola em um terreno instável, onde o inesperado não é exceção. É estrutura. É método. É condição.
Nesse cenário, Eduardo Paes, Douglas Ruas, William Siri, Cyro Garcia e Anthony Garotinho não são apenas pré-candidatos. São expressões distintas de formas de fazer política em um estado que nunca se deixa capturar por completo, que se reinventa a cada ciclo, que desafia permanentemente seus próprios limites.
O próximo ciclo eleitoral será, como tantos outros, decidido não apenas nas urnas, mas nas zonas de indeterminação onde a política se desorganiza, se recompõe e, paradoxalmente, se fortalece.
* Sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ






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