A mitificação das pesquisas eleitorais

Artigo de Hudson Carvalho na Agenda do Poder revela equívocos recorrentes na interpretação de pesquisas eleitorais

HUDSON CARVALHO*

“Só as pesquisas estavam erradas.”, lamentou Thomas E. Dewey, ao perder a eleição presidencial estadunidense para Harry S. Truman, em 1948, na qual despontava como favorito. Na véspera do pleito, o Chicago Daily Tribune publicara a manchete: “Dewey derrota Truman”.

“Eu poderia provar Deus estatisticamente.”, frase atribuída a George Gallup, para insinuar, ironicamente, o poder das pesquisas.

“Os números nunca mentem, mas os homens mentem com os números.”, provérbio chinês.

Atualmente, interesso-me pouco por política. O ordinário nível, em todos os sentidos, da quase totalidade dos agentes públicos influencia a minha indiferença. Esse panorama desolador não é prerrogativa tupiniquim; alastra-se igualmente pelo planeta. Alinham-se outras razões, como a necedade dominante nas redes sociais – a Ágora contemporânea – e a primazia das narrativas caricatas – dirigidas aos parvos – em detrimento das discussões consequentes. Ademais, descrente de deuses e de gente – sobretudo, de mim mesmo -, no meu pequeníssimo altar de admirações, não cabem mitos, guerreiros do povo brasileiro, “idiotas da aldeia” (apud Umberto Eco), santidades jurídicas nem “anões” morais e intelectuais.

Em geral, volto-me para o ambiente comicial, somente a partir da proclamação oficial das candidaturas, na dobra da metade do ano. As fases preliminares, especulativas, não me tocam. São voláteis, inconsistentes. Na corrida presidencial passada, por exemplo, a essa altura, conjecturava-se sobre as aspirações e as chances de João Doria, Eduardo Leite, Ronaldo Caiado, Rodrigo Pacheco, Sergio Moro, Luiz Henrique Mandetta e de coadjuvantes que sequer tiveram os retratos exibidos nas urnas eletrônicas. Agora, é o momento dos partidos, dos políticos, dos especialistas, dos jornalistas, dos militantes, dos diletantes e das cartomantes. De indivíduos que apreciam ou vivem do latifúndio da política. Por enquanto, o grosso da população encontra-se alheia, abraçada às asperezas cotidianas.

Causa perplexidade, todavia, como, no Brasil, as disputas pelo voto foram sequestradas pelas pesquisas de opinião, que adquiriram o status das máximas do Oráculo de Delfos. Para muitos – mídias inclusas -, os processos passaram a se resumir à enxurrada de enquetes, projetando axiomas líquidos. Nada mais importa. Como as profecias da sacerdotisa Pítia, no entanto, os ecos das pesquisas permitem interpretações ambíguas, enigmáticas e, às vezes, opostas as aparências. Em 546 a.C., consultado sobre uma operação de guerra, o oráculo disse ao rei Creso, da Lídia (parte da Turquia atual): “Se Creso atravessar o rio Hális, destruirá um grande império”. Animado pelo augúrio, Creso atacou os persas, liderados por Ciro II, o Grande, e se deu mal. Paradoxalmente, a predição se cumpriu. O “grande império” aniquilado foi a Lídia, que deixou de existir. Essa alegoria serve para ressaltar que não basta “olhar” as pesquisas; urge traduzi-las apropriadamente.

Os conectados agitam-se com as ejaculações precoces dos institutos. Não obstante, poucos sabem classificar o grau de fertilidade dos números, inclusive nos círculos jornalísticos que aguaritam, indiferentemente, algarismos sadios e infecundos, justamente pelo frisson provocado na audiência. Tanto faz o instituto ostentar confiabilidade abonada ou não, haverá sempre à disposição noticiosos que avalizarão a numeralha, sem questionar a consistência das aferições. E o eleitor leigo fixa-se apenas nos números cintilantes, e não nas metodologias e na fiabilidade das entidades.

Nos pleitos municipais de 2020, O Globo publicou reportagem apontando 3499 trabalhos autofinanciados pelos institutos. O obscuro Ipop (veja a capciosidade do nome) Cidade e Negócios bancou 350 amostras em 192 municípios brasileiros. E um único estatístico chancelou 937 consultas. Não é difícil especular sobre a intencionalidade dessa produção suspeita. Os sufrágios bianuais tornaram-se propícios para a eclosão de institutos e de pesquisas de ocasião. Além disso, alguns marqueteiros passaram a produzir as suas próprias quantitativas, qualitativas e alquimias, em vez de contratar institutos habilitados.

Nem tudo conjuga trapaça e mercantilismo. Há institutos sérios, orientados pelos dados demográficos do IBGE. O problema não diz respeito, exclusivamente, a eles, e, sim, a exagerada reverência a resultados provisórios. Três pontos para lá ou para cá animam ou deprimem políticos, condenam ou estimulam pretensões, encorajam os analistas a reverem as suas convicções e fazem as plateias amadoras uivarem. Tudo automaticamente. Em muitas ocasiões, sem nada visível que justifique a oscilação constante. Pior: a catarata de pesquisas inibe, nos transcursos eleitorais, a introdução dos temas pertinentes. Só se discute as sondagens correntes. A imprensa, tão ciosa de sua aptidão para o ceticismo, aqui relaxa e abaixa a guarda, deixando-se utilizar sem resistência. Agora, não se limita em divulgar as pesquisas – algumas de promotores mambembes -, mas também em anunciar a chegada do Messias. Começamos a ler com frequência: “No dia tal, o instituto K apresentará a sua nova amostra, e ela é preocupante para o pretendente Y”. Pronto. Ninguém dorme. Isso a mais de seis meses das eleições propriamente ditas.

Sabe-se que as pesquisas refletem o momento e não predizem o futuro. “Pesquisas são como boletins meteorológicos. Dizem como as coisas estão, não para onde vão”, observou o ex-presidente Bill Clinton. Metáfora avizinhada já havia sido consagrada pelo ex-governador mineiro Magalhães Pinto na década de 60: “Política é como nuvem. Você olha e ela está de um jeito. Olha de novo e ela já mudou”. E não se deve comparar pesquisas de entidades diferentes. Para a assistência ignara – e até versada -, pouco importa. Se um postulante aparece com tantos por cento em um instituto e, na próxima semana, surge com 5% a menos em amostra de corporação distinta, tende a prevalecer a última versão, a despeito do histórico e da credibilidade das instituições. O veredito banal é de que o coitado despencou, e está morto. Dias depois, se o “morto” sobe seis pontos, ele ressuscita e se avivam as esperanças. E essa estéril gangorra assenhora-se da marcha eleitoral.

Impõe-se a questão da natureza das amostras. Comumente, elas configuram-se presenciais (domiciliares e pontos de fluxos), telefônicas e on-line (com respondentes cadastrados previamente e sem mediação humana). Nos EUA e em larga fatia da Europa, prevalece o método on-line (tablet, celular e afins); mais barato e rápido. Aliás, nesses lugares, as pesquisas não são vistas como fetiches, tal aqui. No Brasil, prepondera o modelo presencial; caro e demorado. Alguns institutos adotam mais de um sistema. Todos suportam senões. O presencial permite melhor controle sobre o público-alvo, todavia, exclui os abastados, que não abrem as suas portas para “estranhos” nem param na rua para falar com os pesquisadores. O telefônico, em declínio mundialmente, é inadequado para inquirições longas, e o molesto telemarketing faz com que as pessoas ignorem aparelhos não identificados. E o on-line privilegia a militância de prontidão nas redes sociais e permite o falseamento de seu cadastro. Exemplificando; admite que eu me matricule no site como sendo mulher, moradora da Tijuca, católica e com 25 anos, incluindo-me em desconforme categoria de perfil demográfico. O on-line incita o pesquisado politizado, o escoteiro (Sempre alerta!) sem “Sessão da Tarde”, e exige maior ponderação estatística. Por isso, o número de indefinição (nulo, branco, não sabe etc.) é menor. Todos os institutos detêm instrumentos de moderação para mitigar as lacunas, contudo eles carecem de perfeição.

Em ano de eleições, a Justiça Eleitoral exige registro das pesquisas para efeito de divulgação. Mesmo sem picaretagens explícitas, existem diversos truques que podem influenciar as amostras. O mais usual é o da ordem dos aspirantes nas listas, beneficiando levemente o primeiro. O outro é omitir nome de pré-candidato expressivo ou incluí-lo em simulações tardias, quando o pesquisado já tiver se manifestado por outras opções anteriormente. E há muitas possibilidades de introduzir premissas condicionantes. Desenhando: “Os economistas afiançam que o país está indo bem economicamente. Você aprova ou desaprova a política econômica do governo?”. “Diante da greve crise na segurança pública, você votaria em um candidato do governo”. Você votaria em sicrano, cognominado de Xerife por combater a bandidagem?”. “Fulana é apoiada por A. Você votaria nela?”. Sem falar nos assuntos incompreensíveis para a imensa parcela da população: “Você aprova ou desaprova a política fiscal do governo?”.

Em paralelo, emergem as leituras dos resultados. Normalmente, cada CPF vê apenas aquilo em que quer acreditar. Perspectivas ajustam-se às simpatias dos comentaristas ou se turvam por ignorância sobre a matéria. Recentemente, um instituto aferiu que a maioria da população acha que um incumbente “não merece” ser reeleito. Informação significativa. O porta-voz do instituto, inclusive, salientou que esse era o aspecto relevante do estudo, insinuando posição delicada para o regente. Depende. De fato, as avaliações de governo têm peso quase determinantes. Porém, nem sempre. Elas não superam, nas prioridades dos eleitores, o contraste entre postulantes. Um governante não bem avaliado, se enfrentar oponente com rejeição superior, pode até se safar.

Geralmente, as simulações de segundo turno carecem de nexo, se prematuras. Elas fazem sentido, quando o estágio de conhecimento sobre o elenco se assemelha, o que tende a ocorrer na reta final da campanha. Ilustrando; peguemos o certame para governador do Estado do Rio de 2018. Nessa fase do campeonato, Wilson Witzel, que se elegeu governador, não venceria nenhum ensaio de segundo turno contra qualquer pré-candidato. Pela simples razão de ele ser um completo alienígena à época. O eleitor não vota em quem não conhece. E, em dimensão nacional, para o bem e para o mal, os brasileiros precários de informação reconhecem somente dois nomes: Lula e Bolsonaro.

O critério de rejeição segue lógica aparentada. Frequentemente, constatamos que os mais refugados são, invariavelmente, os mais conhecidos. Se a repulsa for alavancada em demasia, acende-se o alerta. Como regra, porém, não se repudia a quem não se conhece, a não ser no bojo de uma objeção coletiva. Menosprezar certas circunstâncias permite leituras enganosas das pesquisas. Para análises temporãs, ponderar que o desconhecido fulano tem bem menos rejeição do que o conhecido beltrano é uma estultice. Medir simulações de segundo turno e de exclusão só é eficiente para postulantes com patamares de conhecimento correspondentes.

Uma manipulação, notoriamente, descarada é a da margem de erro. A imprensa a utiliza sem prudência. Seja qual for, a margem de erro só se manifesta na exatidão dos 50%. Ou seja, se a margem de erro for de 3% e um aspirante tiver, hipoteticamente, 50% de intenção de votos ou de reprovação, o índice dele flutuará de 47% a 53%. Quanto mais os números se aproximam dos extremos – 0% e 100% -, a margem de erro diminui consideravelmente. Costuma-se ver, na mídia, que um candidato com 4% se encontra “tecnicamente empatado” com quem tem 10%. Isso é absurdo sem tamanho, pois o segundo reúne 150% a mais de intenção de votos do que o primeiro. Esse erro crasso está cristalizado nos meios de comunicação, e é cômodo para os institutos, que se protegem das oscilações inerentes às jornadas eleitorais. Não encontramos essa deformidade estatística no universo midiático internacional.

As redes sociais produzem, freneticamente, um volume de informação muito superior ao intermediado pelos canais de comunicação clássicos, liquefazendo propósitos, turbinando o antagonismo selvagem e embaralhando as escolhas entre a intenção preliminar e o ato de votar. As pesquisas igualmente são vítimas dessas circunstâncias. E o não voto (nulo, branco e abstenção), crescente no país, contribui para dificultar as coisas. As legiões radicalizadas orientam-se pela lógica do Fla-Flu, desprezando quaisquer influxos racionais. E promovem uma guerra suja que atinge também os não extremados. No confronto de cóleras, os polarizados não tentam converter os neutros aos seus valores, mas, sim, em inocular rejeição no inimigo.

Seja pela dinâmica febril das campanhas emporcalhadas (fake news etc.), seja pelo aumento eloquente do não voto (nulo, branco e, principalmente, abstenção), torna-se cada vez mais difícil as pesquisas convergirem com os resultados eleitorais. Dependendo do contexto, podem prever o vencedor e até o placé, contudo sem exatidão nas percentagens. As pesquisas, entretanto, incorporaram-se aos cenários eleitorais. E devem ser consumidas com moderação. Pelo gigantismo que assumiram, elas, efetivamente, influenciam e direcionam votos. Por isso, deveriam ser proibidas na última semana das campanhas.

Como impaciente “idiota da objetividade”, saltei a intermediação das pesquisas e consultei, diretamente, Pítia, inspiradora do nosso substantivo “pitonisa” e com mais autoridade do que Cassandra na mitologia grega. Em linguagem cifrada, o oráculo, solenemente, se pronunciou: “A querela presidencial será duríssima, balizada pela negação. E os desdobramentos do Caso Master, a sangria reputacional do STF e a baixaria disseminada poderão ensejar o surgimento de uma terceira força”. Passei a presumir uma avalanche de não votos.

HUDSON CARVALHO é jornalista e consultor político

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