A bipolaridade consolidada: Lula, Flávio Bolsonaro e país sem uma terceira margem

Pesquisa Genial/Quaest revela vantagem de Lula, consolidação de Flávio Bolsonaro no segundo lugar e ausência, até agora, de uma terceira candidatura competitiva nas eleições de 2026

1- A fotografia de julho e o movimento profundo da sociedade

A pesquisa Genial/Quaest divulgada em julho de 2026 apresenta, na superfície, um retrato eleitoral aparentemente simples.

Luiz Inácio Lula da Silva lidera o primeiro turno com 40% das intenções de voto. Flávio Bolsonaro aparece em segundo lugar, com 28%. Os demais candidatos permanecem muito distantes, todos abaixo de 5%. Em uma eventual segunda volta entre os dois principais concorrentes, Lula alcança 45%, enquanto Flávio registra 37%.

Mas uma pesquisa eleitoral nunca é apenas uma sequência de percentuais.

Cada número contém uma história social, uma memória política, um medo, uma esperança e uma forma de pertencimento.

Os dados não medem somente a escolha individual diante de uma lista de nomes. Eles revelam como a sociedade brasileira organiza suas identidades, seus ressentimentos, suas fidelidades e suas expectativas.

A pesquisa confirma a existência de uma bipolaridade consolidada.

Lula e Flávio Bolsonaro não aparecem apenas como os dois candidatos mais bem posicionados. Eles se apresentam como os representantes de dois grandes campos sociais e simbólicos que continuam estruturando a vida política brasileira.

Lula personifica uma tradição popular, trabalhista, desenvolvimentista, democrática e vinculada à memória das políticas públicas de inclusão.

Flávio Bolsonaro aparece como herdeiro do campo conservador, antipetista, religioso, punitivista e fortemente associado ao legado político e afetivo de Jair Bolsonaro.

A eleição de 2026, pelo menos neste momento, não é uma disputa equilibrada entre várias alternativas. É uma competição organizada em torno de dois polos.

Entre eles existe um amplo território social de dúvidas, cansaços e rejeições. Porém, esse território ainda não encontrou uma candidatura capaz de representá-lo politicamente.

A sociedade pode desejar uma terceira margem.

A estatística demonstra que existe espaço numérico para alguma movimentação. A política concreta, entretanto, mostra que essa terceira margem ainda não possui nome, identidade, narrativa, estrutura nem força eleitoral.

2 – Metodologia, margem de erro e registro no Tribunal Superior Eleitoral

A Genial/Quaest realizou 2.004 entrevistas presenciais com eleitores brasileiros entre os dias 10 e 13 de julho de 2026.

A margem de erro estimada é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, considerando um nível de confiança de 95%.

A pesquisa foi registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-07181/2026, conforme exige a legislação eleitoral brasileira.

O registro no TSE é relevante porque permite a identificação da empresa responsável, do contratante, do período de realização, da metodologia empregada, do plano amostral e dos procedimentos de coleta.

Isso não significa que uma pesquisa represente uma previsão infalível do resultado eleitoral.

Pesquisa é fotografia, não profecia.

Ela registra opiniões manifestadas em determinado intervalo de tempo. Essas opiniões podem mudar diante de acontecimentos econômicos, políticos, jurídicos, diplomáticos, pessoais ou emocionais.

Ainda assim, pesquisas seriamente conduzidas revelam tendências, limites e estruturas.

Elas ajudam a compreender quem possui uma base consolidada, quem enfrenta rejeição elevada, quais candidaturas apresentam potencial de crescimento e quais nomes ainda não conseguiram ultrapassar o espaço da intenção abstrata.

A pesquisa de julho foi realizada aproximadamente doze semanas antes do primeiro turno de 4 de outubro de 2026.

Há tempo para mudanças. Não há, contudo, tempo ilimitado.

A proximidade da eleição torna cada movimento mais intenso, mais comprimido e mais decisivo.

3- O cenário principal do primeiro turno

No cenário estimulado mais amplo, Lula aparece com 40%. Flávio Bolsonaro alcança 28%. Ronaldo Caiado registra 4%. Renan Santos aparece com 3%. Romeu Zema tem 2%. Cabo Daciolo, Augusto Cury, Joaquim Barbosa e Samara Martins registram 1% cada. Edmilson Costa, Heró Bezerra e Hertz Dias não pontuam.

Os indecisos somam 11%.

Os eleitores que afirmam votar em branco, anular ou não comparecer representam 8%.

O dado central é a vantagem de doze pontos percentuais de Lula sobre Flávio Bolsonaro.

Considerando a margem de erro de dois pontos, Lula poderia variar entre 38% e 42%, enquanto Flávio poderia oscilar entre 26% e 30%.

Mesmo numa combinação extrema, favorável ao candidato do Partido Liberal, Lula continuaria numericamente à frente.

Não existe empate técnico no primeiro turno.

Existe uma liderança clara de Lula.

Essa vantagem, porém, não permite afirmar que o presidente esteja próximo de vencer sem segunda volta.

Os 40% constituem uma posição sólida, mas ainda distante da maioria absoluta dos votos válidos.

A existência de candidatos menores, indecisos, votos brancos, votos nulos e abstenção declarada torna o segundo turno o cenário mais provável.

A outra informação decisiva é a distância gigantesca entre Flávio Bolsonaro e todos os demais concorrentes.

Ronaldo Caiado, o terceiro colocado, registra apenas 4%. A diferença entre Flávio e Caiado é de 24 pontos percentuais.

Esse abismo revela o fechamento do sistema competitivo.

Os outros candidatos existem formalmente, aparecem nas pesquisas, participam do debate público e podem influenciar o processo.

Porém, neste momento, nenhum deles é percebido pelo eleitorado como candidato real ao segundo turno.

A bipolaridade não decorre apenas da força dos dois primeiros.

Ela também resulta da fragilidade política e simbólica dos demais.

4- Lula e a permanência de uma liderança histórica

Lula avança de 39% em junho para 40% em julho no primeiro turno.

No confronto direto com Flávio Bolsonaro, passa de 44% para 45%.

Isoladamente, essas variações encontram-se dentro da margem de erro. Observadas em sequência, porém, sugerem recuperação e estabilidade ascendente.

Em abril, no segundo turno contra Flávio, Lula tinha 40%, enquanto o adversário alcançava 42%.

Em julho, a relação passa a 45% para Lula e 37% para Flávio.

Em três meses, Lula cresce cinco pontos, enquanto Flávio recua cinco.

A mudança não deve ser interpretada como uma virada definitiva.

Ela demonstra, entretanto, uma alteração relevante na correlação de forças.

A aprovação do governo chega a 48%, enquanto a desaprovação fica em 47%.

Pela primeira vez nessa sequência recente de pesquisas, a aprovação aparece numericamente acima da desaprovação.

A avaliação positiva do governo alcança 36%, o mesmo percentual da avaliação negativa.

Outros 26% classificam a administração como regular.

Aprovação de governo e intenção de voto não são fenômenos idênticos.

Um eleitor pode aprovar uma política pública e votar em outro candidato.

Também pode desaprovar aspectos do governo e, ainda assim, escolher Lula por rejeitar Flávio Bolsonaro.

Contudo, a aproximação entre a avaliação governamental e o desempenho eleitoral indica que Lula conseguiu reconstruir uma relação entre administração, presença pública e expectativa de continuidade.

Lula possui vantagens estruturais evidentes.

Ocupa a Presidência da República. Participa diariamente da agenda nacional. Inaugura obras, anuncia programas, negocia com governadores e prefeitos, recebe autoridades estrangeiras e se posiciona sobre os grandes temas do país.

O governo é também uma máquina de produção simbólica.

Uma obra não é apenas uma obra. Pode ser apresentada como presença do Estado.

Um programa social não é somente uma política administrativa. Pode ser convertido em demonstração de compromisso com os mais pobres.

Uma divergência diplomática pode transformar-se em narrativa de defesa da soberania nacional.

Mas a força de Lula não é apenas institucional.

Ela possui uma dimensão biográfica e antropológica.

Para parcelas importantes das classes populares, Lula permanece ligado à imagem de alguém que conhece a pobreza não por estatística, mas por experiência.

Sua história pessoal funciona como linguagem de reconhecimento.

Muitos eleitores não o veem somente como presidente. Veem nele a memória de um tempo em que os pobres sentiram que o Estado pronunciava seus nomes.

Essa identificação produz fidelidade.

Produz também gratidão, memória e pertencimento.

Entretanto, Lula enfrenta um limite severo.

Metade dos entrevistados, 50%, afirma conhecê-lo e não votar nele. Outros 47% dizem que o conhecem e poderiam votar.

Sua rejeição continua muito elevada.

Lula possui um piso eleitoral sólido, mas se aproxima de um teto que não é fácil ultrapassar.

Para crescer significativamente, precisa reduzir resistências, convencer eleitores moderados e impedir que a rejeição ao seu nome seja transformada numa maioria eleitoral contra ele.

5- Flávio Bolsonaro e a transmissão do capital familiar

Flávio Bolsonaro registra 28% no primeiro turno e 37% no segundo.

Apesar de ter oscilado negativamente em relação ao levantamento anterior, continua isolado na segunda posição.

Seu desempenho confirma a transmissão de parte considerável do capital político de Jair Bolsonaro.

Essa transferência não ocorre apenas por proximidade ideológica ou partidária. Ela possui uma dimensão familiar, afetiva e dinástica.

O sobrenome Bolsonaro transformou-se em uma marca política.

Para milhões de eleitores, ele representa uma comunidade moral, uma identidade conservadora e uma forma de enfrentamento ao Partido dos Trabalhadores, ao progressismo cultural e às instituições percebidas como hostis ao campo da direita.

O eleitor bolsonarista não se vincula necessariamente ao Partido Liberal enquanto organização institucional.

Sua fidelidade é mais pessoal do que partidária.

É uma relação com a família, com o mito fundador do movimento, com seus símbolos, inimigos, palavras de ordem e referências religiosas.

Flávio Bolsonaro herda essa estrutura de sentimentos.

Herda votos, redes de apoio, lideranças, parlamentares, influenciadores e uma militância digital intensamente mobilizada.

Mas ele também herda rejeições.

A pesquisa mostra que 57% dos entrevistados conhecem Flávio Bolsonaro e afirmam que não votariam nele.

Outros 38% dizem que poderiam votar. Cerca de 5% ainda não o conhecem suficientemente.

A rejeição de Flávio é superior à de Lula.

Esse é o principal obstáculo para sua vitória.

Flávio possui um piso eleitoral elevado.

Esse piso é sustentado pelo bolsonarismo, pelo conservadorismo moral e pelo antipetismo.

Seu teto, contudo, parece comprimido pela rejeição ao sobrenome, pelas lembranças do governo de Jair Bolsonaro e pela resistência de setores moderados.

Seu desafio é complexo.

Precisa conservar os eleitores mais radicalmente identificados com o pai e, simultaneamente, conquistar empresários, mulheres, trabalhadores populares, eleitores religiosos moderados e segmentos de centro-direita que rejeitam Lula, mas não se sentem plenamente confortáveis com a família Bolsonaro.

Ele precisa ser herdeiro sem parecer uma sombra.

Precisa demonstrar continuidade sem transmitir repetição.

Precisa buscar moderação sem perder autenticidade diante de sua base.

Essa é uma operação política delicada.

Qualquer movimento em direção ao centro pode ser interpretado como traição pelos setores mais ideológicos.

Qualquer retorno à retórica mais radical pode afastar eleitores necessários para vencer o segundo turno.

6 – A pesquisa espontânea e a profundidade das escolhas

Na pesquisa espontânea, quando os entrevistadores não apresentam uma lista de candidatos, Lula é citado por 26%. Flávio Bolsonaro aparece com 14%. Jair Bolsonaro, embora inelegível, ainda é mencionado por 1%. Outros nomes somam 5%. Nada menos que 54% não sabem responder espontaneamente em quem pretendem votar.

Em junho, Lula registrava 23%, Flávio tinha 17% e os indecisos eram 56%.

Lula cresce três pontos na intenção espontânea.

Flávio recua três.

A diferença entre ambos passa a doze pontos.

A pesquisa espontânea mede uma dimensão diferente da estimulada.

Ela revela quais candidatos já estão presentes na memória ativa do eleitor.

Mostra os nomes que surgem sem auxílio, sem lista e sem indução externa.

Nesse terreno, Lula possui vantagem importante.

Seu nome está mais profundamente inscrito no imaginário eleitoral.

O dado mais expressivo, contudo, é o percentual de 54% de eleitores que não apresentam espontaneamente nenhuma candidatura.

Mais da metade da sociedade ainda não transformou a preferência eleitoral em resposta imediata.

Não há contradição entre esse número e o percentual de eleitores que, quando estimulados, dizem já ter uma escolha.

Muitas pessoas reconhecem uma preferência diante da lista de candidatos, mas ainda não a incorporaram como decisão íntima, estável e politicamente central.

Esse intervalo entre a escolha estimulada e a escolha espontânea é o território da campanha.

É nesse espaço que atuam os debates, as propagandas, as redes sociais, as igrejas, os sindicatos, os grupos familiares, as conversas de trabalho, os influenciadores, os líderes comunitários e os acontecimentos inesperados.

A estrutura geral da disputa está consolidada.

A intensidade das escolhas, porém, ainda pode ser modificada.

7 -Lula contra Flávio Bolsonaro no segundo turno

No confronto direto, Lula registra 45%, enquanto Flávio Bolsonaro alcança 37%.

Os votos brancos, nulos ou a declaração de não comparecimento somam 14%.

Os indecisos representam 4%.

A vantagem de Lula é de oito pontos percentuais.

Em junho, era de seis pontos, com 44% para Lula e 38% para Flávio.

A diferença está fora da margem de erro.

Mesmo considerando uma oscilação desfavorável a Lula e favorável a Flávio, o presidente continuaria numericamente à frente.

A fotografia de julho, portanto, aponta Lula como favorito no segundo turno.

Isso não significa vitória assegurada.

Os 18% que ainda não escolhem nenhum dos dois constituem um contingente decisivo.

São eleitores que podem estar cansados da polarização, rejeitar os dois candidatos, desconfiar das instituições, desejar renovação ou simplesmente não ter despertado interesse suficiente pela eleição.

Esse grupo não é homogêneo.

Parte poderá manter o voto branco, nulo ou a abstenção.

Outra parte será empurrada para uma escolha pela própria lógica do segundo turno.

A disputa tenderá a ser organizada menos pela admiração e mais pelo medo.

Muitos votarão em Lula para impedir a volta do bolsonarismo ao governo.

Outros votarão em Flávio para retirar Lula e o PT do poder.

Será, em grande medida, um voto defensivo.

A antropologia política demonstra que o voto não é uma operação puramente racional.

Não se escolhe apenas comparando programas, planilhas, metas e indicadores.

Vota-se com a memória familiar, com a experiência religiosa, com a posição social, com o bairro, com a comunidade, com a história de vida e com as imagens do bem e do mal construídas ao longo do tempo.

Em um segundo turno entre Lula e Flávio, a campanha provavelmente será apresentada como um confronto moral.

Lula tentará associar Flávio à continuidade do radicalismo, do autoritarismo e da instabilidade política.

Flávio buscará apresentar Lula como símbolo de um sistema envelhecido, corrupto, ineficiente e dominado pelo Partido dos Trabalhadores.

A questão central será qual risco o eleitor considera maior.

8 -:Lula contra Romeu Zema

Num eventual segundo turno entre Lula e Romeu Zema, o presidente aparece com 45%, enquanto o governador mineiro alcança 35%.

Brancos, nulos e eleitores que não pretendem votar somam 16%.

Os indecisos representam 4%.

Lula venceria Zema por dez pontos, uma vantagem maior do que a registrada contra Flávio Bolsonaro.

Isso revela que Zema não consegue herdar automaticamente o eleitorado bolsonarista.

Embora possua uma rejeição potencialmente menor entre determinados segmentos, falta-lhe a força emocional, identitária e territorial do sobrenome Bolsonaro.

Zema apresenta uma narrativa de gestão empresarial, austeridade, liberalismo econômico e redução do Estado.

Essa linguagem encontra receptividade entre empresários, profissionais liberais e parcelas das classes médias urbanas.

Entretanto, ela enfrenta dificuldades entre eleitores que dependem diretamente de serviços públicos, aposentadorias, políticas sociais, saúde, educação e transferências de renda.

O discurso da eficiência administrativa pode ser valorizado, mas não produz necessariamente uma comunidade afetiva.

Ele convence pela razão gerencial, não mobiliza com a mesma intensidade da memória popular de Lula ou da identidade moral bolsonarista.

Zema também enfrenta um problema de nacionalização.

Governar Minas Gerais concede experiência e visibilidade, mas não garante presença política suficiente em todas as regiões do país.

Uma candidatura presidencial necessita de capilaridade municipal, alianças estaduais, presença partidária, apoio parlamentar, lideranças locais e reconhecimento nacional.

Zema ainda não transformou sua experiência administrativa em uma narrativa capaz de atravessar as fronteiras mineiras com força eleitoral.

9 – Lula contra Ronaldo Caiado

No cenário entre Lula e Ronaldo Caiado, o presidente registra 45%, enquanto o governador de Goiás alcança 36%.

Brancos, nulos e eleitores que afirmam não votar representam 15%.

Os indecisos somam 4%.

Caiado apresenta desempenho ligeiramente superior ao de Zema, mas ainda perde para Lula por nove pontos.

Sua candidatura combina conservadorismo, proximidade com o agronegócio, discurso de segurança pública, experiência administrativa e longa trajetória política.

Entre os candidatos alternativos da direita, é o mais bem colocado no primeiro turno, com 4%.

Mas seus 4% demonstram a diferença entre possuir respeitabilidade institucional e construir competitividade eleitoral.

Caiado é conhecido no mundo político.

Possui relações, experiência, estrutura regional e trânsito entre governadores, parlamentares e lideranças partidárias.

Contudo, ainda não construiu uma identidade nacional capaz de mobilizar afetos em larga escala.

Lula possui o mito da ascensão popular.

Bolsonaro representa a rebelião conservadora contra o sistema.

Caiado aparece como um político experiente e um administrador respeitado, mas sem um mito nacional capaz de envolver multidões.

A política presidencial exige mais que competência.

Exige uma história simples e poderosa sobre quem é o candidato, de onde vem, quem defende e contra quem luta.

Caiado poderia crescer numa hipótese de ruptura grave da candidatura de Flávio Bolsonaro, especialmente se recebesse apoio coordenado da centro-direita.

Sem essa ruptura, tende a continuar comprimido entre o lulismo e o bolsonarismo.

10 -:Lula contra Renan Santos

No confronto entre Lula e Renan Santos, o presidente registra 45%, enquanto o candidato do Partido Missão alcança 33%.

Brancos, nulos e não comparecimento somam 18%.

Os indecisos representam 4%.

Renan apresenta o pior desempenho entre os principais adversários testados contra Lula.

Ainda assim, há um aspecto politicamente relevante.

Ele cresce de 31% para 33% no segundo turno, embora permaneça com apenas 3% no primeiro.

A diferença entre os 3% iniciais e os 33% de um segundo turno demonstra que sua votação seria, sobretudo, uma votação contra Lula.

Não seria necessariamente uma adesão à sua liderança, ao seu partido ou ao seu programa.

Renan tenta ocupar o espaço de uma direita mais jovem, digital, economicamente liberal e crítica tanto ao PT quanto ao bolsonarismo tradicional.

Essa posição poderia representar uma promessa de renovação.

O problema está na estrutura.

Seu partido possui pouca capilaridade municipal, presença institucional reduzida, escasso tempo de televisão e um número limitado de lideranças conhecidas nacionalmente.

Sua possibilidade de crescimento dependeria de uma combinação extraordinária: desempenho excepcional em debates, forte viralização digital, crise simultânea de Lula e Flávio, adesão de eleitores jovens e transformação do desejo de novidade em voto útil.

É uma possibilidade teórica.

Não é, no momento, uma probabilidade política relevante.

11- Existe espaço para uma terceira candidatura?

A resposta exige cuidado.

Existe espaço social e estatístico.

Não existe, hoje, um terceiro candidato politicamente competitivo.

Os 11% de indecisos no primeiro turno, os 8% que declaram voto branco, nulo ou abstenção, os 35% que admitem poder mudar de voto e os 54% que não citam espontaneamente nenhum candidato demonstram a presença de um eleitorado fluido.

Há cansaço com a polarização.

Há desejo de renovação.

Há setores que rejeitam simultaneamente o lulismo e o bolsonarismo.

Há eleitores que poderiam ouvir um discurso alternativo.

Portanto, a terceira via existe como demanda difusa.

Ela não existe como oferta política consolidada.

Caiado tem 4%. Renan Santos registra 3%. Zema aparece com 2%.

Para alcançar Flávio Bolsonaro, um desses candidatos precisaria crescer mais de vinte pontos em aproximadamente doze semanas.

Não é matematicamente impossível.

É politicamente muito improvável.

Uma alteração dessa magnitude exigiria uma ruptura extraordinária.

Poderia ocorrer em caso de retirada ou inviabilização da candidatura de Flávio Bolsonaro, apoio explícito de Jair Bolsonaro a outro nome, unificação de praticamente todos os partidos de centro-direita, crise política de grandes proporções ou surgimento de uma candidatura com enorme reconhecimento nacional.

Também exigiria que os demais concorrentes abandonassem suas pretensões e concentrassem recursos, palanques, estruturas partidárias e tempo de propaganda em uma única candidatura.

Nada disso está ocorrendo.

A terceira candidatura existe como hipótese social, porque uma parcela relevante do eleitorado não se sente plenamente representada pelos dois polos.

Existe como hipótese estatística, porque há votos indefinidos e rejeições elevadas.

Mas não existe como realidade política organizada.

O espaço está aberto.

A cadeira, entretanto, permanece vazia.

12- Por que a alternativa não consegue emergir

A dificuldade de uma candidatura alternativa não resulta apenas da falta de talento dos candidatos.

Ela possui raízes estruturais.

Desde 2018, a política brasileira passou a ser organizada por identidades negativas.

Muitos eleitores não escolhem prioritariamente aquele que admiram.

Escolhem contra quem rejeitam.

O antipetismo e o antibolsonarismo são forças poderosas.

Eles orientam votos, organizam conversas, estruturam redes sociais e moldam interpretações da realidade.

A política transformou-se num campo de pertencimento moral.

O adversário já não é apenas alguém com outra proposta.

Ele é apresentado como ameaça à família, à democracia, à religião, aos pobres, à liberdade ou à própria existência do país.

Nesse ambiente, o centro político tradicional enfrenta enorme dificuldade.

Os partidos de centro possuem prefeitos, governadores, deputados, senadores, recursos públicos, tempo de propaganda e estrutura territorial.

Mas não possuem uma identidade emocional comparável ao lulismo ou ao bolsonarismo.

Seu discurso costuma ser administrativo, racional e conciliador.

Lula e Bolsonaro oferecem histórias carregadas de conflito, memória e pertencimento.

Eleições presidenciais não são vencidas apenas com programas tecnicamente corretos.

Elas exigem narrativas capazes de explicar o país.

Exigem personagens, símbolos, adversários e promessas de futuro.

A fragmentação também enfraquece o campo alternativo.

Caiado, Zema e Renan Santos disputam parcelas semelhantes do eleitorado.

Enquanto permanecerem separados, nenhum deles será capaz de produzir a concentração necessária para provocar o voto útil.

O centro deseja representar a moderação, mas frequentemente parece incapaz de gerar paixão.

Num sistema movido por afetos intensos, a moderação pode ser interpretada como ausência de identidade.

13- A estabilidade de Lula: vantagem e perigo

A estabilidade de Lula representa uma força evidente.

Ele lidera o primeiro turno com 40%, possui doze pontos de vantagem sobre Flávio e vence todos os cenários de segundo turno.

Sua base é leal.

Sua presença pública é permanente.

Sua candidatura possui estrutura partidária, alianças, memória social e capacidade de comunicação.

Mas estabilidade não significa segurança absoluta.

O primeiro risco é a acomodação.

Uma campanha que se considera vencedora antes da votação pode perder capacidade de escuta, mobilização e inovação.

Pode confundir a presença no governo com presença efetiva na sociedade.

O segundo risco é o teto eleitoral.

Com rejeição de 50%, Lula enfrenta dificuldade para avançar muito além de sua faixa atual.

Seu desafio não é somente conquistar novos votos.

É impedir que a rejeição ao seu nome reúna eleitores diversos em torno de Flávio Bolsonaro.

O terceiro risco é econômico.

A eleição será atravessada pelo preço dos alimentos, pelo custo do aluguel, pelo endividamento, pelo emprego e pela renda.

O eleitor não vive dentro de uma planilha macroeconômica.

Vive no mercado, na farmácia, no transporte, na conta de luz e no orçamento doméstico.

Uma melhora estatística sem percepção cotidiana pode produzir pouco efeito eleitoral.

O quarto risco é a exposição governamental.

Tudo o que acontece no país incide sobre o presidente.

Crises administrativas, denúncias, problemas em serviços públicos, conflitos diplomáticos ou erros de comunicação podem atingir diretamente sua candidatura.

O quinto risco está relacionado à ideia de renovação.

Mesmo reconhecendo a importância histórica de Lula, uma parcela do eleitorado pode perguntar se um novo mandato representa continuidade excessiva, envelhecimento da liderança ou dificuldade de preparar sucessores.

Lula é o favorito.

Não está blindado.

14 – A estabilidade de Flávio Bolsonaro: segurança e confinamento

A estabilidade de Flávio Bolsonaro em torno de 28% garante, neste momento, sua presença no segundo turno.

Nenhum outro candidato se aproxima de sua posição.

Seu eleitorado possui forte identidade.

A base bolsonarista é intensa, digitalmente ativa e capaz de produzir mobilização.

Mas a estabilidade pode ser também um confinamento.

Flávio consolidou o núcleo bolsonarista, mas ainda não demonstrou capacidade de crescer para além dele.

No segundo turno, recua de 42% em abril para 37% em julho, enquanto Lula avança de 40% para 45%.

Esse movimento sugere que Flávio encontra dificuldades justamente no território decisivo.

Ele pode representar com eficiência o eleitorado fiel ao pai, mas ainda não convenceu os setores necessários para formar maioria.

Seu maior risco é tornar-se candidato de um campo intenso e fechado, capaz de chegar ao segundo turno, mas incapaz de vencer.

Para superar Lula, precisará ampliar sua votação entre mulheres, trabalhadores populares, eleitores independentes, conservadores moderados e segmentos que rejeitam o PT, mas temem a instabilidade associada ao bolsonarismo.

O sobrenome Bolsonaro é, ao mesmo tempo, escudo e prisão.

Ele garante reconhecimento, estrutura e fidelidade.

Também transfere rejeição, desconfiança e lembranças negativas.

Flávio precisa demonstrar que possui projeto próprio, capacidade administrativa e responsabilidade institucional.

Se não conseguir, permanecerá como herdeiro de uma base eleitoral poderosa, mas insuficiente para alcançar a Presidência.

15- Os riscos para o dia 4 de outubro de 2026

O primeiro turno das eleições de 2026 está marcado para 4 de outubro.

Um eventual segundo turno ocorrerá em 25 de outubro.

Com os números atuais, o risco de Lula ficar fora do segundo turno é muito pequeno.

Sua liderança é sólida e sua distância em relação aos demais candidatos é expressiva.

O risco de Flávio Bolsonaro perder a segunda posição também parece reduzido.

Ele possui 24 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado.

Assim, a principal incerteza não está na identidade provável dos dois finalistas.

Está no tamanho da diferença entre eles.

Para Lula, o risco do dia 4 de outubro é chegar ao primeiro turno com crescimento interrompido, aumento da rejeição ou redução significativa da vantagem.

Uma diferença pequena poderia produzir uma narrativa de ascensão de Flávio e alterar a atmosfera psicológica do segundo turno.

Para Flávio, o risco é chegar à segunda volta muito atrás, com desempenho abaixo das expectativas e dificuldade para construir a ideia de virada.

Existe também um risco comum aos dois candidatos.

É o risco da ilusão de imobilidade.

As campanhas podem interpretar a estabilidade das pesquisas como sinal de que os eleitores estão definitivamente fixados.

Mas 35% afirmam que ainda poderiam mudar de voto.

Mais da metade não cita espontaneamente nenhum candidato.

Isso significa que a arquitetura da eleição está montada, mas a temperatura interna da sociedade ainda pode mudar.

Lula e Flávio provavelmente estarão no segundo turno.

A intensidade do apoio a cada um, o tamanho da abstenção, a participação dos eleitores moderados e a direção dos indecisos continuam em aberto.

16- A dimensão antropológica da bipolaridade

A polarização brasileira não é apenas ideológica ou partidária.

Ela se transformou em modo de vida.

Para muitos eleitores lulistas, votar em Lula significa defender políticas sociais, direitos trabalhistas, presença do Estado, democracia, soberania nacional e reconhecimento dos pobres.

Para muitos bolsonaristas, votar em Flávio significa proteger a família, a religião, a autoridade, a ordem, a propriedade, o empreendedorismo e a resistência ao Partido dos Trabalhadores.

Essas imagens não correspondem necessariamente à totalidade dos programas ou das práticas dos candidatos.

Funcionam como mitologias políticas.

A mitologia política simplifica a realidade, organiza o mundo e oferece ao eleitor uma narrativa compreensível.

Ela indica quem são os aliados, quem são os inimigos e qual perigo deve ser evitado.

Nas famílias, nas igrejas, nas redes sociais, nos ambientes profissionais e nas comunidades, essas identidades são repetidas, confirmadas e protegidas.

A política entra na intimidade.

Ocupa as mesas de almoço, os grupos de mensagens, os cultos religiosos, as conversas de trabalho e os conflitos familiares.

O voto torna-se uma declaração de pertencimento.

Essa intensidade dificulta a emergência de uma terceira candidatura.

Quem promete apenas eficiência administrativa parece frio diante de narrativas carregadas de história e emoção.

Quem tenta conciliar pode ser considerado indefinido.

Quem não apresenta um inimigo identificável pode parecer sem coragem.

Lula e Flávio já possuem comunidades simbólicas organizadas.

Os demais candidatos tentam construir em poucas semanas aquilo que os dois polos formaram ao longo de muitos anos.

17- O que ainda pode alterar a eleição

Cinco variáveis possuem maior capacidade de modificar a disputa até outubro.

A primeira é a economia cotidiana.

Melhora perceptível da renda, redução do preço dos alimentos, crescimento do emprego e aumento da confiança favorecem Lula.

Piora no custo de vida, endividamento e insegurança material fortalecem a oposição.

A segunda é o comportamento dos eleitores independentes.

Esse grupo não possui fidelidade rígida.

Pode decidir o voto com base nos acontecimentos mais recentes, nos debates, na imagem dos candidatos e na comparação entre riscos.

A terceira é a capacidade de Flávio Bolsonaro moderar sua imagem.

Caso consiga apresentar-se como conservador responsável, poderá reduzir resistências.

Caso permaneça confinado à retórica tradicional do bolsonarismo, enfrentará dificuldade para ultrapassar seu teto.

A quarta variável é a campanha oficial.

Debates, propaganda eleitoral, alianças estaduais, palanques regionais e tempo de televisão poderão alterar níveis de conhecimento e percepção.

A quinta é a ocorrência de fatos extraordinários.

Denúncias, crises institucionais, decisões judiciais, acontecimentos internacionais, episódios de violência política ou erros graves de campanha podem produzir deslocamentos rápidos.

As eleições são feitas de estruturas duradouras e acontecimentos inesperados.

A estrutura hoje favorece Lula.

O acontecimento ainda pode alterar a velocidade e a direção da disputa.

18 – A bipolaridade como destino provisório

A pesquisa Genial/Quaest de julho de 2026 mostra Lula como favorito e Flávio Bolsonaro como o único adversário atualmente capaz de disputar a Presidência em condições reais.

Lula lidera o primeiro turno por doze pontos e o segundo por oito.

Sua posição é consistente, mas não definitiva.

Flávio consolidou a herança eleitoral de Jair Bolsonaro, mas enfrenta rejeição de 57% e dificuldade para ampliar sua base.

Lula recupera aprovação e intenção de voto, mas permanece rejeitado por metade do eleitorado.

Não existe, neste momento, uma terceira candidatura competitiva.

Existe um espaço social.

Existe um espaço estatístico.

Existe cansaço, rejeição e desejo de renovação.

Mas nenhuma liderança alternativa conseguiu transformar esse material disperso em candidatura nacional.

Caiado possui experiência, mas não construiu um mito mobilizador.

Zema possui discurso administrativo, mas não nacionalizou sua liderança.

Renan Santos apresenta novidade, mas não dispõe de estrutura suficiente.

A terceira via está presente como desejo sem personagem, demanda sem representação e possibilidade sem instrumento.

A estabilidade dos dois principais candidatos reduz a incerteza sobre quem deverá chegar ao segundo turno.

Ao mesmo tempo, produz riscos de acomodação e leitura equivocada.

Lula não pode confundir liderança com vitória antecipada.

Flávio não pode confundir fidelidade de base com maioria nacional.

O cenário mais provável para 4 de outubro é a classificação de Lula e Flávio Bolsonaro, com Lula em primeiro lugar.

A grande incógnita será o tamanho da diferença e a capacidade de cada um de transformar rejeição ao adversário em maioria política.

A eleição de 2026 caminha, assim, entre duas margens já conhecidas.

De um lado, Lula, com sua biografia popular, sua memória social, sua experiência de governo e sua capacidade de representar a presença protetora do Estado.

Do outro, Flávio Bolsonaro, com a herança familiar, a força do conservadorismo, a identidade antipetista e a tentativa de prolongar o bolsonarismo para além de Jair Bolsonaro.

Entre os dois existe um país cansado, inquieto e contraditório.

Um país que talvez deseje outra linguagem política, mas ainda não encontrou quem consiga pronunciá-la com força nacional.

A bipolaridade não é necessariamente o destino definitivo do Brasil.

É, porém, a forma concreta assumida pela eleição de 2026 neste momento.

A sociedade ainda pode imaginar uma terceira margem.

A estatística ainda permite enxergá-la.

A política, contudo, permanece dominada por Lula e Flávio Bolsonaro.

São eles que, hoje, organizam o medo e a esperança, a memória e o ressentimento, a continuidade e a reação.

São eles que caminham, com enorme vantagem sobre todos os demais, para o encontro decisivo das urnas.

* Paulo Baía é sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ

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