70 paraguaios já foram libertados de trabalho análogo à escravidão em fábricas clandestinas ligadas a Adilsinho desde 2022

Quadrilha comandada pelo bicheiro aliciava vítimas com promessas falsas e as mantinha em cárcere privado

Desde 2022, 70 trabalhadores paraguaios foram resgatados em condições análogas à escravidão em quatro fábricas clandestinas de cigarro no estado do Rio de Janeiro. As operações, conduzidas pela Polícia Federal, Polícia Civil e Ministério Público do Trabalho, revelaram o funcionamento de um esquema criminoso liderado por Adilson Oliveira Coutinho Filho, conhecido como Adilsinho.

Segundo apuração divulgada pelo g1, a investigação levou à operação Libertatis 2, deflagrada em março deste ano, e revelou uma mudança de estratégia no mercado ilícito de cigarros. Diferentemente do modelo tradicional de contrabando, que trazia a mercadoria pronta do Paraguai, a quadrilha de Adilsinho optou por instalar unidades de produção no Brasil, espalhadas por diferentes estados, utilizando mão de obra estrangeira em situação irregular e sem qualquer fiscalização sanitária ou trabalhista.

As fábricas funcionavam sem autorização da Anvisa ou da Vigilância Sanitária estadual. A operação ilegal envolvia também o aliciamento de trabalhadores no Paraguai, onde eram recrutados com falsas promessas de emprego.

Recrutamento e tráfico de pessoas

O responsável por essa etapa do esquema, segundo as investigações, é Francisco Ojeda Gomez, o Nico. Descrito em depoimentos como um homem alto e branco, morador de Ciudad del Este, Nico é apontado como o elo entre a quadrilha brasileira e a mão de obra paraguaia. Ele é investigado por tráfico de pessoas.

Desde 2022, Nico atuava principalmente nas cidades de Ciudad del Este e Hernandarias, na fronteira com o Brasil. Utilizando abordagens pessoais ou mensagens por aplicativos, ele atraía paraguaios em situação de vulnerabilidade, especialmente aqueles que perderam o emprego durante a pandemia da Covid-19 e não tinham vínculos familiares. Muitos dos aliciados já tinham experiência na indústria do tabaco, como funcionários das tabacaleiras Del Este S/A (Tabesa) e Hernandarias S/A.

A Polícia Federal já comprovou a atuação de Nico no recrutamento de operários que foram encontrados nas fábricas de Duque de Caxias, enquanto ainda apura seu envolvimento nas unidades de Paty do Alferes e Vigário Geral.

Promessas falsas e condições degradantes

Para convencer as vítimas, Nico prometia vagas como pedreiro em São Paulo, com salários entre R$ 3 mil e R$ 5 mil mensais, supostamente pagos às famílias ou quitados ao fim do contrato. No entanto, ao cruzarem a fronteira de forma irregular, os paraguaios eram levados de van até a capital paulista. Próximo ao destino, os celulares eram recolhidos e os trabalhadores tinham os olhos vendados ou eram encapuzados.

Um dos resgatados relatou ao Ministério Público do Trabalho que recebeu dinheiro ainda no trajeto, mas logo percebeu que não estava indo para um canteiro de obras:

“O entrevistado deduziu que estava em São Paulo quando ouviu o motorista da van conversar no telefone com terceiros; que em São Paulo houve troca de van e também foram retirados seus telefones, bem como foi colocado um capuz na sua cabeça, impossibilitando sua visão; que a pessoa que fez a troca da van estava armada, mas não encapuzada; que a pessoa que estava armada e fazendo a troca dos trabalhadores de van mandou todos baixarem a cabeça, por isso não consegue descrever suas características físicas; que essa pessoa falava português”, diz a denúncia.

Outros 18 paraguaios deram relatos semelhantes. Eles afirmaram trabalhar 12 horas por dia, sem folgas, em ambientes sem janelas e sob vigilância de seguranças armados e encapuzados. Nenhum dos trabalhadores sabia que atuaria em fábricas ilegais de cigarro.

Fábricas desmanteladas no Rio

As quatro unidades clandestinas desativadas pelas autoridades no Rio de Janeiro desde o início das investigações são:

  • 2022 – Fábrica na Avenida Mayapan, Duque de Caxias: 23 paraguaios resgatados
  • 2023 – Fábrica na Estrada de São Lourenço, também em Caxias: 19 paraguaios
  • 2024 – Fábrica na Fazenda Pilão, Paty do Alferes: 6 paraguaios
  • 2025 – Fábrica em Vigário Geral: 22 paraguaios

Libertatis 2 e a estrutura da quadrilha

A operação Libertatis 2 foi deflagrada em 27 de março de 2025, resultando na prisão de 12 pessoas. Foram expedidos 21 mandados de prisão preventiva, 26 mandados de busca e apreensão e 12 medidas cautelares no Rio de Janeiro e no Espírito Santo. Nico e Adilsinho seguem foragidos.

A investigação é coordenada pela Polícia Federal em conjunto com o Ministério Público Federal, o Comitê de Inteligência Financeira e Recuperação de Ativos (CIFRA) – ligado à Secretaria de Polícia Civil do RJ – e a Secretaria Nacional de Segurança Pública, com apoio da Receita Federal.

Para o MPF, o esquema criminoso revela uma estrutura complexa e articulada:

“Na medida em que o trânsito dos trabalhadores e do maquinário para e pelo Brasil requer alto grau de planejamento operacional e investimento financeiro, para permitir a adequada destinação desses recursos humanos e materiais, além, é claro, de sua gerência e manutenção nas fábricas clandestinas de cigarros. Isso tudo ainda exige, por tabela, uma teia de movimentação oficiosa de dinheiro, que possui tanto origem como destino ilícitos”.

O que dizem os citados

A defesa de Francisco Ojeda Gomez, o Nico, não foi localizada.

Já o advogado de Adilsinho declarou que seu cliente nega as acusações e está foragido para garantir o direito de defesa:

“Em relação aos fatos imputados a Adilson Oliveira Coutinho Filho, reitera o investigado a sua inocência, estando por essa razão foragido, para diante da ampla defesa e o contraditório esclarecer os fatos no Poder Judiciário. Reitera que na hipótese de cumprimento dos mandados judiciais pendentes, jamais se oporá ao seu cumprimento, para responder as acusações pendentes de esclarecimento”, diz a nota.

A Polícia Federal e o Ministério Público seguem com as investigações para desarticular por completo a cadeia logística e financeira que sustenta a máfia do cigarro no Brasil.

Mais recentes

Descubra mais sobre Agenda do Poder

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading