* Paulo Baía
No dia 13 de maio, o tempo não segue em linha reta.
O tempo dobra esquinas invisíveis, atravessa corredores de séculos, sopra sobre os telhados das periferias, sobre as serras, sobre os morros, sobre os terreiros iluminados por velas trêmulas e sobre as pequenas igrejas populares onde mulheres cansadas continuam rezando pelos vivos e pelos mortos.
O 13 de maio não repousa apenas nos livros escolares, nas assinaturas imperiais ou nas fotografias amareladas da história oficial.
O 13 de maio vive no corpo do Brasil.
Vive na pele, na memória, na música, no cheiro das cozinhas, nos quintais onde o café ainda é passado lentamente, nas procissões que atravessam cidades pequenas iluminadas por fogos tímidos e cânticos emocionados.
Vive na alma coletiva de milhões de brasileiros que herdaram a dor do escravismo e também herdaram a capacidade extraordinária de continuar existindo apesar de tudo.
Esta data não pertence à ideia confortável de uma liberdade concedida pelas elites.
Não pertence ao paternalismo das narrativas oficiais que tentaram transformar violência histórica em gesto benevolente.
O 13 de maio pertence aos que resistiram quando o mundo lhes negava humanidade.
Pertence aos homens pretos marcados pelo açoite.
Pertence às mulheres pretas que carregaram filhos nos braços enquanto carregavam também o peso brutal da sobrevivência cotidiana.
Pertence aos indígenas perseguidos, expulsos, mortos e silenciados desde o nascimento colonial do Brasil.
Pertence aos mestiços, aos pardos, aos pobres, aos invisíveis, aos humilhados, aos esquecidos das grandes avenidas da história oficial.
O país moldado pela escravidão
O Brasil nasceu cercado por sangue, açúcar, ferro, chicote e silêncio.
Durante três ou quatro séculos, milhões de africanos foram arrancados de suas terras, atravessaram oceanos em navios transformados em cemitérios flutuantes e chegaram ao continente americano reduzidos à condição de mercadoria humana.
A escravidão brasileira não foi apenas um sistema econômico.
Foi uma engenharia cotidiana de humilhação.
Foi uma máquina social construída para disciplinar corpos, esmagar subjetividades e transformar pessoas em instrumentos descartáveis de produção de riqueza.
Mas a brutalidade nunca venceu completamente.
Mesmo sob o terror permanente, homens e mulheres escravizados produziram humanidade onde o sistema desejava produzir apenas obediência.
Produziram afeto em meio à violência.
Produziram espiritualidade em meio ao medo.
Produziram beleza dentro da destruição.
Produziram música enquanto o chicote ainda cortava o ar.
Produziram comida, rezas, festas, linguagens, ritmos e formas coletivas de cuidado que atravessaram gerações e chegaram vivas até o Brasil contemporâneo.
A herança viva nas periferias
A herança de milhões de escravizados é hoje uma população imensa de brasileiros mestiços, pardos, pretos, indígenas e neoindígenas.
Uma herança entranhada nas estruturas mais íntimas da vida brasileira.
Está nos modos de falar.
Nos temperos das cozinhas populares.
Nos modos de abraçar.
Nas maneiras de sofrer e também de celebrar.
Está nas festas de interior, nas favelas, nos subúrbios, nos bairros operários, nas praias lotadas de trabalhadores exaustos tentando respirar algum descanso depois de semanas duras.
Esta herança atravessa as igrejas católicas populares do Brasil.
Está nas procissões de santos e santas carregados por mãos humildes que caminham lentamente pelas ruas ornamentadas com bandeirinhas coloridas e tapetes improvisados.
Está nas quermesses iluminadas por lâmpadas simples, onde o cheiro de milho cozido, bolo, canjica e caldo quente se mistura às rezas baixas das senhoras antigas.
Está nas alvoradas que acordam cidades pequenas ainda cobertas pela neblina da madrugada.
Está nos sinos que dobram lentamente chamando os pobres para a missa, para a promessa, para a esperança possível.
As rezadeiras e os saberes invisíveis
Está nas rezadeiras que conhecem ervas, dores, febres, sustos e tristezas antigas.
Mulheres que carregam nos olhos uma sabedoria construída fora dos livros acadêmicos.
Mulheres que aprenderam com mães e avós que o cuidado também é uma forma de resistência histórica.
Elas rezam baixinho diante das doenças, das perdas, das crianças assustadas, dos corpos cansados pelo trabalho pesado.
Elas benzem com folhas, com palavras antigas, com fé popular e com uma delicadeza que atravessa gerações invisíveis da formação brasileira.
Esta herança também vive nos hinos religiosos das igrejas evangélicas populares, frequentadas em sua maioria por homens e mulheres pardos e pretos das periferias urbanas, dos interiores esquecidos e das regiões marcadas pela pobreza estrutural.
Nos cultos simples das pequenas igrejas espalhadas pelas ruas estreitas das comunidades, os cânticos sobem como se fossem pontes emocionais entre o sofrimento cotidiano e a esperança.
Há lágrimas sinceras na voz das mulheres que cantam.
Há exaustão e fé nos homens que levantam as mãos depois de jornadas brutais de trabalho.
Há crianças dormindo nos bancos enquanto mães continuam orando por proteção, emprego, saúde e dignidade.
A espiritualidade popular brasileira
Os hinos evangélicos populares são também arquivos emocionais da sobrevivência brasileira.
Falam de dor, de travessia, de livramento, de milagre, de queda e de reconstrução.
Em muitos bairros pobres do Brasil, a música religiosa tornou-se abrigo psicológico contra o medo, contra o abandono e contra a violência cotidiana.
São vozes coletivas tentando reorganizar o caos do mundo através da fé.
São comunidades tentando reconstruir pertencimento em territórios onde o Estado frequentemente chega apenas através da repressão policial ou da ausência completa.
O catolicismo popular brasileiro, por sua vez, continua carregando marcas africanas, indígenas e mestiças em suas festas, romarias, novenas, promessas, ladainhas e celebrações.
Os santos populares caminham lado a lado com as dores do povo.
Nossa Senhora Aparecida atravessa estradas carregada por trabalhadores humildes.
São Jorge recebe velas, flores e pedidos desesperados diante das batalhas diárias da sobrevivência.
Cosme e Damião continuam distribuindo doces e memória afetiva pelas ruas.
São Benedito permanece sendo celebrado por populações pretas que encontraram nele não apenas devoção religiosa, mas também dignidade simbólica em um país moldado pelo racismo estrutural.
As procissões possuem algo de rio humano atravessando o tempo.
Velhos caminham lentamente segurando velas pequenas.
Crianças vestidas de anjo seguem ao lado das mães.
Homens silenciosos carregam andores pesados enquanto bandas simples executam dobrados emocionados.
Há algo de civilização popular nestes cortejos religiosos.
Há uma tentativa coletiva de organizar a dor através do sagrado.
Há uma estética da esperança construída pelos pobres.
Terreiros, memória e pertencimento
Ao mesmo tempo, os terreiros das múltiplas umbandas e as casas de candomblé continuam protegendo cosmologias ancestrais violentamente perseguidas pelo racismo religioso brasileiro.
Nos pontos cantados, nos tambores, nos rituais de acolhimento e nas festas dos orixás permanece viva uma filosofia comunitária construída na travessia atlântica da dor e da resistência.
Os pretos velhos da umbanda continuam ensinando paciência, escuta e humildade.
Os terreiros continuam funcionando como espaços de pertencimento emocional, espiritual e comunitário para populações historicamente marginalizadas.
O Brasil carrega dentro de si muitos altares simultaneamente.
Em inúmeras famílias populares convivem o catolicismo das avós, os cultos evangélicos das mães, os terreiros frequentados discretamente pelos parentes e as memórias indígenas espalhadas em pequenos gestos cotidianos.
O povo brasileiro aprendeu a sobreviver misturando símbolos, afetos, crenças e esperanças.
Aprendeu a construir espiritualidade nas brechas da violência histórica.
A cozinha como memória de resistência
A herança de milhões de escravizados também está nos pratos de comida.
Está no feijão grosso servido nos almoços de domingo.
No cheiro do alho fritando cedo nas cozinhas das periferias.
Está na feijoada compartilhada entre muitos.
No angu repartido em mesas simples.
Nos peixes preparados lentamente nas cidades litorâneas.
Nos temperos passados de geração em geração sem jamais terem sido escritos.
Está nas festas comunitárias onde panelas enormes alimentam multidões.
Está nos finais de semana em que famílias pobres transformam comida simples em experiência de alegria coletiva.
Até nos dias mais apressados das grandes cidades brasileiras permanece viva esta memória culinária da sobrevivência.
O trabalhador que come rapidamente antes de voltar ao ônibus lotado carrega consigo uma herança histórica imensa.
Cada receita popular possui marcas da diáspora africana, dos saberes indígenas, das adaptações improvisadas diante da pobreza e das criatividades produzidas pela necessidade.
As feridas que continuam abertas
Mas esta herança não pode ser romantizada de maneira ingênua.
Ela se assenta também nas violências do escravismo, no machismo persistente, no racismo estrutural, na desigualdade brutal que organizou o Brasil desde a colonização até 2026.
O país aboliu juridicamente a escravidão, mas preservou mecanismos permanentes de exclusão social.
O fim formal da escravidão não trouxe terra, moradia, educação, saúde ou cidadania plena para os libertos.
O abandono foi transformado em política silenciosa de Estado.
O século XX carregou essa violência para dentro das cidades industriais, das favelas crescentes, das periferias esquecidas e das relações de trabalho marcadas pela exploração cotidiana.
O século XXI, mesmo atravessado por avanços democráticos importantes, ainda mantém milhões de pardos, pretos, mestiços e indígenas presos às margens econômicas e simbólicas da sociedade brasileira.
O racismo continua decidindo quem morre mais cedo, quem recebe menos salário, quem sofre mais violência policial, quem enfrenta maiores dificuldades para estudar, trabalhar e viver com dignidade.
O machismo continua esmagando mulheres pobres, especialmente mulheres pretas, submetidas às jornadas exaustivas do cuidado invisível, do trabalho precário e da solidão social.
A felicidade guerreira
E, no entanto, apesar da brutalidade histórica, algo extraordinário floresceu.
Floresceu a solidariedade entre os pobres.
Floresceram redes de cuidado comunitário.
Floresceram afetos construídos em meio à carência material.
Floresceram talentos musicais, religiosos, culinários, esportivos, intelectuais e artísticos.
Floresceram formas coletivas de alegria que desafiam a lógica fria das elites econômicas.
Milhões de pardos.
Milhões de pretos.
Milhões de mestiços.
Milhões de indígenas.
Milhões de brasileiros transformaram sobrevivência em criatividade social.
Transformaram ausência em invenção.
Transformaram exclusão em linguagem cultural.
A frase de Gilberto Gil permanece atravessando o Brasil como uma espécie de revelação poética e sociológica: “a felicidade do negro é uma felicidade guerreira”.
Esta felicidade guerreira não nasce da ausência de sofrimento.
Nasce da capacidade humana de produzir luz mesmo cercado pela escuridão histórica.
Nasce da insistência coletiva de continuar cantando, dançando, rezando, cozinhando, amando e criando beleza apesar da violência permanente.
Existe uma inteligência histórica nas periferias brasileiras que as elites frequentemente não conseguem compreender.
Existe filosofia nas rodas de samba.
Existe sociologia nas cozinhas populares.
Existe antropologia viva nos terreiros.
Existe pedagogia nas avós que ensinam dignidade através dos gestos mais simples do cotidiano.
Existe poesia social nos cultos, nas procissões, nos cânticos, nos almoços comunitários, nos abraços silenciosos que impedem milhares de pessoas de afundarem completamente no desespero.
O 13 de maio pertence a todos os que foram violados pelo escravismo e pelas exclusões sistemáticas do final do século XIX, do século XX em sua inteireza e deste século XXI desigual e contraditório.
Pertence aos descendentes dos açoitados, aos trabalhadores invisíveis, aos moradores das periferias, aos que aprenderam a sobreviver em um país que frequentemente lhes negou reconhecimento pleno.
Mas pertence também à esperança.
Não uma esperança ingênua.
Não uma esperança passiva.
Uma esperança insurgente.
Uma esperança que conhece a dor da história brasileira e ainda assim escolhe semear humanidade.
Neste dia, o Brasil parece respirar junto com seus ancestrais.
Os tambores ecoam como corações antigos.
As velas tremulam nas igrejas e nos terreiros.
As procissões avançam lentamente pelas ruas.
Os hinos evangélicos atravessam as madrugadas das periferias.
As cozinhas populares espalham cheiro de memória.
Os pobres continuam repartindo comida entre si.
As rezadeiras seguem benzendo crianças assustadas.
Os velhos continuam contando histórias.
As mulheres continuam sustentando o mundo com mãos fatigadas e ternas.
E o país inteiro, mesmo sem perceber completamente, continua sendo sustentado pela felicidade guerreira de um povo que jamais aceitou desaparecer.
* Sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ






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