Mãe Carmen de Oxaguian, uma das mais importantes lideranças do candomblé no Brasil, morreu na madrugada desta sexta-feira (data), em Salvador, aos 98 anos. Ialorixá do Ilé Ìyá Omi Àṣẹ Ìyámase, conhecido como Terreiro do Gantois, ela estava internada no Hospital Português, onde recebia cuidados médicos.
Nascida em 1926, Mãe Carmen completaria 99 anos na próxima segunda-feira, dia 29. Segundo informações da TV Bahia, a religiosa havia sido hospitalizada há cerca de duas semanas após apresentar um quadro de forte gripe, que evoluiu para complicações de saúde.
Liderança no Gantois e ligação com o candomblé
Desde 2002, Mãe Carmen estava à frente do Terreiro do Gantois, uma das casas de candomblé mais antigas e respeitadas do país, fundada em 1849. Ela foi a quinta ialorixá da instituição, que tem papel central na história das religiões de matriz africana no Brasil. A morte da líder foi comunicada oficialmente pelo perfil do terreiro nas redes sociais, na manhã desta sexta-feira.
Filha mais nova de Maria Escolástica da Conceição Nazaré, a célebre Mãe Menininha do Gantois, Mãe Carmen teve uma relação profunda e precoce com a religião. Iniciada no candomblé aos 7 anos, construiu uma trajetória marcada pela fidelidade às tradições e pela defesa do legado ancestral africano.
Atuação social, cultural e reconhecimento público
Além da liderança religiosa, Mãe Carmen exerceu forte atuação social e cultural na comunidade do Gantois. Ao longo das décadas, promoveu ações socioeducativas e iniciativas voltadas à preservação da memória do candomblé, ampliando o acesso ao conhecimento sobre a religião e suas práticas.
Sob sua orientação, o terreiro incentivou atividades culturais como cursos de ritmos e toques sagrados, dança, bordados tradicionais e outras expressões que integram o patrimônio cultural afro-brasileiro. Essas ações reforçaram o papel do Gantois como espaço de resistência cultural e formação comunitária.
Homenagens, prêmios e legado simbólico
A trajetória de Mãe Carmen foi reconhecida por importantes instituições. Em maio de 2010, ela recebeu da Unesco a Medalha dos 5 Continentes, também conhecida como Medalha da Diversidade Cultural, em reconhecimento à sua atuação na preservação das tradições religiosas e no estímulo ao diálogo inter-religioso.
Mais recentemente, em maio de 2023, foi agraciada com a Comenda Maria Quitéria, honraria concedida a mulheres que se destacam por serviços relevantes prestados a Salvador ou à Bahia. A relevância de sua liderança também inspirou manifestações artísticas: em 2011, o sambista Nelson Rufino lançou a música “A Força do Gantois”, em homenagem à ialorixá e ao simbolismo do terreiro.
Com a morte de Mãe Carmen de Oxaguian, o candomblé brasileiro perde uma de suas figuras mais longevas e representativas, deixando um legado de fé, cultura e resistência que atravessa gerações.






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