Vorcaro tinha agente da PF infiltrado no aeroporto do Galeão, aponta investigação

Investigação aponta que policial federal lotado no Aeroporto Internacional do Rio acessava sistemas internos da PF para abastecer organização conhecida como “A Turma”

Um agente da Polícia Federal que atuava no Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio de Janeiro, é apontado pela própria PF como integrante de um esquema clandestino de vazamento de informações sigilosas para o grupo ligado ao banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.

A investigação da 6ª fase da Operação Compliance Zero revela que o policial acessava sistemas internos da corporação para consultar viagens internacionais, monitorar pessoas e levantar detalhes de investigações reservadas de interesse da organização criminosa conhecida como “A Turma”.

Segundo a investigação, o agente Anderson Wander da Silva Lima, lotado no Aeroporto Internacional do Rio, atuava como informante dentro da Polícia Federal para o policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva, apontado como integrante do grupo “A Turma”. Ambos foram alvo da operação.

De acordo com a PF, Anderson utilizava acessos internos da corporação para realizar consultas sigilosas e repassar informações reservadas a Marilson, que encaminhava os dados para Daniel Vorcaro, Felipe Mourão e outros integrantes da organização.

As mensagens apreendidas pelos investigadores mostram que o esquema funcionava de forma contínua desde agosto de 2023. Em um dos episódios citados pela investigação, Marilson enviou ao agente a foto do passaporte de uma mulher e pediu que ele verificasse se ela havia deixado o Brasil e qual teria sido o destino da viagem. Anderson então acessou os sistemas internos da PF e enviou capturas de tela com os registros migratórios da pessoa.

A Polícia Federal afirma que as consultas ilegais não eram casos isolados. Segundo os investigadores, Anderson era acionado com frequência para levantar informações sobre localização de pessoas, investigações sigilosas, movimentações internacionais e dados de interesse direto da família Vorcaro.

Em fevereiro de 2024, por exemplo, Marilson teria pedido ao agente que verificasse com urgência se um inquérito envolvia crimes financeiros relacionados a Daniel Vorcaro. Para atender à solicitação, Anderson consultou colegas da corporação e enviou imagens das respostas recebidas. Dias depois, realizou nova busca envolvendo Henrique Vorcaro, pai do empresário.

Os diálogos interceptados também indicam, segundo a PF, que havia expectativa de recompensa financeira pelos serviços prestados. Em uma das conversas, Anderson afirmou que “moral se paga com moral” e pediu “fortalecimento”, expressão interpretada pelos investigadores como solicitação de pagamento ou benefício.

Pouco depois, Marilson pediu a chave Pix do agente para enviar um “presente” à filha dele, aprovada no vestibular. Em resposta, Anderson agradeceu e afirmou que a jovem “adorou o presente”.

Em outra conversa, registrada em setembro de 2023, Anderson disse que precisava de “alguma coisinha boa” e demonstrou interesse em continuar realizando “trabalhinhos”. Marilson respondeu dizendo que teria “um negócio muito interessante” para o qual precisaria do apoio do agente.

A investigação também aponta que Anderson utilizava sua posição funcional e o contato com outros policiais da ativa para obter informações reservadas. Em um dos trechos destacados pela PF, ele teria criticado um colega que se recusou a realizar uma consulta ilegal, chamando o servidor de “babaquinha demais”.

Outro ponto considerado grave pelos investigadores ocorreu em outubro de 2024. Segundo a PF, Marilson pediu ao agente que verificasse informações sobre um DJ citado em mensagens relacionadas a uma suposta rede criminosa na internet. Para a corporação, o episódio indica que o acesso aos sistemas oficiais também poderia estar sendo utilizado para ações de monitoramento, perseguição e pressão contra pessoas consideradas desafetas do grupo.

Mesmo após o avanço da Operação Compliance Zero, os contatos entre Anderson e Marilson continuaram, segundo a PF. A investigação aponta que, em dezembro de 2025, o aposentado voltou a pedir a chave Pix do agente para enviar uma “oferenda”, pagamento que, segundo os investigadores, seria compatível com bônus distribuídos ao núcleo conhecido como “A Turma”.

Em documento encaminhado ao Supremo Tribunal Federal, a Polícia Federal afirma que Anderson atuava como uma espécie de “fonte estatal clandestina” dentro da corporação, utilizando sua função pública para abastecer interesses privados do grupo ligado a Daniel Vorcaro.

Para os investigadores, o caso revela um esquema estruturado de uso indevido de sistemas internos da Polícia Federal, com acesso contínuo a dados sigilosos, monitoramento de alvos e possível troca de informações por vantagens financeiras.

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