Viúva de Sérgio Vieira de Mello faz desabafo emocionado nas redes e acusa ONU de abandoná-la à própria sorte

Carolina Larriera, viúva do embaixador brasileiro Sérgio Vieira de Mello, morto num atentado terrorista em 2003 na sede da ONU no Iraque, expôs em sua conta no Twitter o drama que tem sofrido ao longo desses quase 20 anos para ver reconhecidos pela ONU seus direitos de viúva de Sérgio e como, ela própria, funcionária…

Carolina Larriera, viúva do embaixador brasileiro Sérgio Vieira de Mello, morto num atentado terrorista em 2003 na sede da ONU no Iraque, expôs em sua conta no Twitter o drama que tem sofrido ao longo desses quase 20 anos para ver reconhecidos pela ONU seus direitos de viúva de Sérgio e como, ela própria, funcionária do organismo internacional.

Carolina conta em “thread” no Twitter todos os acontecimentos desde o dia do atentado, que fez 19 anos ontem, 19 de agosto de 2003, e sua luta para que a ONU reconheça seus direitos de viúva e ex-empregada.

Seus posts estão reproduzidos a seguir, na ordem definida por ela, e com todas as marcações de pessoas e instituições que julgou necessárias fazer.

Reproduzimos também algumas das fotos que publicou na rede em seu longo relato de suas lembranças.

Com a publicação desse desabafo, em que “marca” a ONU em várias ocasiões, Carolina dá a impressão que espera que o organismo dê resposta às questões que levanta. O espaço da Agenda do Poder está aberto para manifestações da ONU.

Leia a seguir, na íntegra, os posts de Carolina, lembrando que o texto foi feito para se adequar ao Twitter:

“19 anos atrás, um carro-bomba com 1-tn TNT mudou a minha vida. Na #ONU onde trabalhava no #Iraque, foi morto meu marido #SergioVieiradeMello e 21 amigos. Até hoje, nenhum tribunal tem nos oferecido respostas: Por quê? Porque a #ONU é imune a processos judiciais.

Ironicamente,#Sergio era Chefe máximo da #ONU em #DireitosHumanos. Os sobreviventes do atentado gostariam de saber por que a imunidade não foi suspensa para oferecer justiça. Não estamos sozinhos: muitos são os que sofreram abuso p/ imunidade de organizações internacionais

Apos a repercussão do filme #Sergio da #Netflix, quis compartilhar um pouco sobre quem realmente era #SergioVieiradeMello, mas acima de tudo, narrar o que realmente aconteceu após o ataque de #Bagdá em 2003. Éramos uma família quando a bomba explodiu

Sergio era do #RiodeJaneiro. Ele amava seu país e sua cidade colorida, quente e úmida, cheia de contrastes. Seus pais viajaram o mundo representando o Brasil como diplomatas e por causa da ditadura, aos 21, ele começou sua carreira diplomática na #ONU do zero

Eu, natural da Argentina, que nos anos ‘90 anos e aos 18 anos, dei um salto de fé para fazer meus estudos nos EUA, começei a trabalhar em finanças em Nova York, mas encontrei uma vocação mais alta em #NacoesUnidas para fazer uma contribuição p melhorar a vida dos mais vulneráveis.

O filme mostra o Sergio como um diplomata da ONU polivalente, com imensa sensibilidade ao sofrimento dos + desprovidos. Sergio e eu nos encontramos em 1999 em uma missão da #MissaodeManutencaodaPaz: território destruído, mas resistente, que ajudamos a tornar independente:#TimorLeste

Desde cedo estávamos unidos por um vínculo profundo: nos identificamos, falando a mesma língua, antecipando os pensamentos um do outro. Sonhamos em voltar ao Brasil para viver em frente ao seu mar. Conhecemos famílias e visitamos nossos países de origem: santuários necessários.

Mas no 11-Sep, o mundo mudou. Após a #InvasãodoIraque, #KofiAnnan mudou-o para uma missão + perigosa: a transição liderada pelos EUA para lá: Sergio a enfrentou estoicamente. Eu o acompanhei não apenas como sua esposa, mas como Economista com 7 anos de experiência na ONU.

Em #19deagosto de 2003, ocorreu o pior ataque à história da ONU. Nunca antes a ONU havia sido alvo: 200 feridos, 22 mortos. Sergio ficou preso: tentei libertá-lo. Mas sem equipamento ele morreu após 4 horas. Uma parte de mim também permaneceria sob os escombros daquele prédio.

Até hoje não consigo me lembrar daquele dia e suas desprezíveis consequências sem tremer e sentir calafrios por todo o corpo. Em um piscar de olhos, vergonha pelo ataque revelou o rosto mais feio da #UN#UnitedNations#ONU

@num3rol0gy

Baixo pretexto que não éramos “casados” e dentro de uma política de invisibilidade, a #ONU me privou dos meus direitos como funcionário e família. O intrigante é que mesmo depois que nossa união civil foi reconhecida pela lei, eles a mantiveram. Por quê? O que eles estão protegendo?

Ainda em estado de choque com o atentado,de repente me vi inexplicavelmente removida das listas de sobreviventes. Além do estresse pós-traumático da explosão e da morte de Sergio e meus amigos, tive que lidar com o abandono desumano e absoluto da #ONU que nos enviou todos para lá.

Porque acima estava Geopolítica: durante #GuerraIraque, verdadeira rivalidade era entre #Bush e Chirac.Originalmente do lado dos EUA, Annan rapidamente mudou de lado, depois que pelo atentado foi exigida a sua renúncia: tentativa de ultimo min para entrar no lado certo da história

A sobrevivência de Annan significava mudar de lado para a posição de Chirac. O preço? O caixão de Sergio foi inexplicavelmente enviado para a França enquanto eu e sua mãe fomos “canceladas” nessas trocas e “maneuvering” político.

@NYTimeshttps://nytimes.com/2003/12/18/opinion/moment-of-truth.html

Claramente, um filme de Hollywood não ia lidar com essas questões. Mas esses anos foram difíceis: voltei para o Brasil (pátria d Sergio que me reconhece como sua viúva) e Argentina, e comecei a tentar recomeçar a minha vida. Gilda, mãe de Sergio, cuidou de mim em sua casa no Rio.

Amigos como @NobelPrize @JoseRamosHorta1 e irmãos leais como aqueles de #TimorLeste cujo país eu ajudei a construir, Gilda e outros me ajudaram a voltar à vida. Encontrei um novo emprego, uma nova casa e fundei o @centrosergiovieirademello no #Brasil: não foi fácil, mas perseverei.

Nunca pensei que a burocracia da #ONU, que sempre proclama aderir aos mais altos padrões que nosso mundo deve aspirar, defendendo os direitos dos mais vulneráveis, desertaria e “cancelaria” seus próprios.

Pode-se pensar que, como jovem viúva e vítima do terror, encontraria http://simpatia. Ao contrário,a #ONU me negou ajuda quando eu mais precisei, me encaminhando em um emaranhado burocrático onde ambos são juiz e parte interessada.

Um caminho ingrato aguarda aqueles que se atrevem a litigar por seus direitos perante a ONU. Mas o meu caso não é isolado. Miles de outros sofrem abuso de organizações que não tem accountability frente ao poder judiciário (responsabilidade penal) pela sua imunidade diplomática

Da mesma forma, continuo lutando: por mim e pelos sobreviventes. #Sergio foi a pessoa mais importante da história da #ONU; deixou um legado de compromisso com aqueles que sofrem nos conflitos que assolam o mundo

Ele me disse uma vez “Vamos com confiança – O resto chega por conta própria” Então aqui estou eu: precisava escrever essas poucas linhas para lembrá-lo, mas também transmitir uma mensagem nesses tempos desafiadores #pósCOVID e compartilhar a força para continuar.

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