Violência obstétrica matou mais de 100 mulheres no estado em 2023

Dados da Secretaria de Estado de Saúde foram apresentados nesta segunda-feira durante seminário que debateu o tema na Alerj. A pasta garante que está implantando medidas para reduzir os óbitos

Mãe de seis filhos, Louise, de 43 anos, teve seu último parto realizado num hospital de Magé, no ano passado, por uma estudante de Medicina. Tudo isso porque o médico responsável pelo setor se recusou a realizar a cirurgia, alegando que ela já estava acostumada com a dor das contrações. Por sorte, a dona de casa não morreu, mas engrossou as estatísticas da violência obstétrica no Estado do Rio que, em 2023, matou 123 mulheres nos hospitais públicos estaduais.  

Os episódios são grotescos e envolvem, por exemplo, procedimentos sem anestesia, ofensas, falta de orientação e negligência. O assunto foi tema de um seminário da Comissão de Defesa dos Direitos das Mulheres, da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), realizado nesta segunda-feira (25/03), em parceria com a Comissão Especial da Câmara dos Deputados sobre Violência Obstétrica e Morte Materna. “Até então, eu não conhecia os meus direitos, já estava acostumada com este tratamento”, contou Louise, emocionada.

O coordenador da área de Saúde das Mulheres da Superintendência de Atenção Primária à Saúde, da secretaria estadual de Saúde (SES), Antônio Rodrigues Braga Neto, reconheceu a existência do problema, e destacou algumas medidas já implantadas para reduzir esse dano, como ações de conscientização regulares com as equipes. Segundo ele, 75% dos casos ocorrem na Região Metropolitana do estado, em especial na capital e na Baixada Fluminense.  

“As principais causas são hemorragia, hipertensão e infecção”, comentou, destacando que, por outro lado, o Rio de Janeiro será o primeiro estado do Brasil a criar um protocolo de suplementação de cálcio para gestantes, pois a deficiência deste nutriente está entre as causas da hipertensão na gravidez. “As mulheres têm um consumo em média de 400 mg por dia de cálcio, quando o recomendado é de 1,5 grama”, disse.

Sala Lilás

Muitas dessas denúncias chegaram até a Sala Lilás da Alerj, espaço destinado ao acolhimento e à orientação para quem já sofreu alguma violência. Mas para agravar a situação, Ariane Magalhães, do coletivo Mães de Itaboraí, e a enfermeira Rosana Corrêa, que trabalha em presídios fluminenses, argumentaram que ainda há um componente racial nos episódios.

“Eu recebo relatos de mães que já ouviram no hospital que a carne da mulher preta é igual a couro de vaca”, relatou Ariane. “A violência obstétrica se intensifica nas prisões”, completou Rosana. Apesar de reconhecer avanços no estado, que é o único a possuir uma unidade materno-infantil no sistema penal, ela apontou que ainda há casos de violação de direitos. Entre eles, mulheres que são obrigadas a realizar o parto algemadas, o que é proibido por lei desde 2016.

“Nós já temos diversos instrumentos, como o relatório final da CPI do Hospital da Mulher de Cabo Frio, que recomenda a instalação de uma ouvidoria no estado destinada a receber denúncias de violência obstétrica e das comissões de óbitos nos hospitais. A gente necessita agora que as leis e as recomendações sejam respeitadas”, disse a deputada Renata Souza (Psol), presidente da Comissão da Alerj.

Ela informou que solicitará o acompanhamento semanal dos dados sobre mortes maternas e violência obstétrica das secretarias de Saúde e de Administração Penitenciária (SEAP) e do Departamento-Geral de Ações Socioeducativas (Degase). Renata também afirmou que vai encaminhar à comissão da Câmara dos Deputados, presidida pela deputada federal Taliria Petrone (Psol-RJ), o acompanhamento desse tema em específico, por se tratar de uma legislação federal.

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