A percepção de que a violência contra a mulher está crescendo no Brasil se tornou praticamente consensual entre a população. Ao mesmo tempo, a confiança feminina nas instituições encarregadas de proteger vítimas e responsabilizar agressores permanece em níveis baixos. É o que revela uma pesquisa Datafolha encomendada pelo Movimento Mulher 360, que aponta um cenário de preocupação generalizada com o avanço da violência de gênero e de descrença em relação à capacidade do Estado de enfrentar o problema.
O levantamento ouviu 2.004 pessoas com 16 anos ou mais, residentes em capitais e regiões metropolitanas de todas as regiões do país, entre os dias 6 e 11 de abril. Segundo os dados, 89% dos entrevistados acreditam que os casos de violência contra a mulher aumentaram no último ano.
O resultado evidencia a percepção de agravamento de um problema que segue mobilizando autoridades, organizações da sociedade civil e especialistas, especialmente diante do aumento das denúncias e da persistência de diferentes formas de agressão contra mulheres.
Descrença nas instituições
Os números da pesquisa mostram que a maioria das mulheres não deposita elevada confiança nas instituições encarregadas de acolher vítimas e combater a violência de gênero.
Quando o tema é a atuação da Justiça, apenas 17% das mulheres afirmam confiar muito na instituição. Em contrapartida, 63% dizem confiar pouco e outras 19% declaram não confiar.
A avaliação da polícia segue tendência semelhante. Apenas 19% das entrevistadas afirmam ter muita confiança na atuação policial em casos de violência contra a mulher. Já 63% dizem confiar pouco e 17% afirmam não confiar na instituição.
Os resultados indicam que, embora existam mecanismos legais de proteção às vítimas, como a Lei Maria da Penha e medidas protetivas de urgência, ainda persiste uma percepção de que a resposta institucional está aquém das necessidades enfrentadas pelas mulheres.
A pesquisa também identificou elevados níveis de desconfiança em relação às redes sociais, mas destacou principalmente a baixa credibilidade atribuída aos órgãos formais de proteção.
Homens e mulheres veem instituições de forma diferente
O levantamento apontou diferenças significativas entre homens e mulheres na avaliação da atuação das instituições.
Enquanto apenas 19% das mulheres afirmam confiar muito na polícia para lidar com casos de violência de gênero, entre os homens esse percentual sobe para 31%.
A mesma diferença aparece na avaliação da Justiça. Entre os homens entrevistados, 23% declararam confiar muito na atuação do Judiciário. Entre as mulheres, o índice cai para 17%.
A margem de erro da pesquisa é de dois pontos percentuais para o conjunto da amostra e de três pontos percentuais nos recortes por sexo.
Muitas vítimas não procuram ajuda
Outro dado que chama atenção é a dificuldade enfrentada pelas vítimas para buscar apoio após episódios de violência.
De acordo com a pesquisa, 37% das mulheres que relataram ter sofrido agressões graves no último ano afirmaram não ter tomado nenhuma providência após a ocorrência.
O resultado revela que o enfrentamento à violência de gênero não depende apenas da existência de mecanismos de denúncia, mas também da confiança de que haverá acolhimento, proteção e resposta efetiva por parte das autoridades.
Para a diretora-executiva do Movimento Mulher 360, Margareth Goldenberg, a decisão de denunciar uma agressão envolve uma série de fatores que vão muito além da própria violência sofrida.
“A decisão de denunciar uma violência costuma ser extremamente complexa. Ela envolve medo, dependência emocional, dependência financeira, preocupação com os filhos, vergonha e, muitas vezes, receio de represálias. Mas, quando a mulher também não acredita que será acolhida, protegida ou que terá uma resposta efetiva das instituições, a barreira para buscar ajuda se torna ainda maior”, afirmou Margareth Goldenberg.
A avaliação reforça a preocupação de especialistas sobre a necessidade de fortalecer os canais de acolhimento e ampliar a confiança das vítimas nas estruturas de proteção.
Culpabilização das vítimas ainda persiste
A pesquisa também identificou a permanência de percepções que transferem parte da responsabilidade pela violência para as próprias vítimas.
Segundo o levantamento, 61% dos entrevistados concordam com a afirmação de que muitos casos de violência contra a mulher seriam consequência de escolhas equivocadas feitas ao selecionar um parceiro.
O dado mostra que seis em cada dez brasileiros ainda associam a violência sofrida por mulheres a decisões pessoais das vítimas, percepção que especialistas apontam como um dos fatores que podem dificultar denúncias e reforçar o estigma social em torno da violência doméstica.
Perigo maior dentro de casa
O ambiente doméstico aparece como o principal espaço de vulnerabilidade para as mulheres na percepção da população.
De acordo com a pesquisa, 71% dos entrevistados acreditam que as mulheres correm mais riscos dentro de casa do que em ambientes externos.
O resultado reforça uma característica recorrente dos casos de violência de gênero: a proximidade entre vítima e agressor. Em muitos episódios, as agressões ocorrem dentro de relações afetivas ou familiares marcadas por dependência financeira, dependência emocional, controle e medo de represálias.
Sinais de abuso ainda passam despercebidos
Embora a população demonstre amplo consenso ao identificar formas mais explícitas de violência, o levantamento revela dificuldades para reconhecer comportamentos controladores que frequentemente antecedem agressões mais graves.
Segundo a pesquisa, 45% dos entrevistados afirmam que impedir uma mulher de sair sozinha para uma comemoração não configura necessariamente violência ou que a classificação depende das circunstâncias da relação.
Em relação ao controle das amizades da companheira, 41% responderam da mesma forma. Já 42% afirmaram que controlar o salário da esposa não é necessariamente um ato de violência ou que a avaliação depende do contexto.
Os dados indicam que formas de violência psicológica, patrimonial e de controle ainda encontram resistência para serem reconhecidas como agressão por parcela significativa da população.
Por outro lado, há praticamente unanimidade quando se trata de episódios mais evidentes. A pesquisa aponta que 94% dos entrevistados consideram violência humilhar uma mulher em público. Já 95% afirmam que forçar uma relação sexual dentro do casamento também configura violência contra a mulher.
Desafios permanecem
Os resultados do levantamento revelam um paradoxo. Embora exista ampla percepção de que a violência contra a mulher está aumentando no Brasil, persistem obstáculos sociais, culturais e institucionais que dificultam o enfrentamento do problema.
A baixa confiança nas instituições, a permanência de discursos que culpabilizam vítimas, a dificuldade de reconhecer sinais iniciais de abuso e o elevado número de mulheres que deixam de procurar ajuda após sofrer agressões graves demonstram que o desafio vai além da repressão criminal.
O fortalecimento das redes de acolhimento, a ampliação da conscientização social e o aumento da credibilidade das instituições responsáveis pela proteção das mulheres são fatores fundamentais para reduzir a subnotificação e ampliar a proteção às vítimas de violência de gênero no país.






Deixe um comentário