Uma viagem de luxo aos Alpes franceses, estimada em quase R$ 2 milhões, tornou-se um dos principais elementos analisados pela Polícia Federal (PF) na investigação que apura a relação entre o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e o banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. As informações foram reveladas em reportagem publicada nesta terça-feira (2) pela revista Piauí, que teve acesso a documentos e relatórios produzidos durante as apurações.
Segundo a publicação, Ciro Nogueira e sua esposa, Flávia Rosalen, passaram treze dias em Courchevel, um dos destinos de inverno mais exclusivos da Europa, entre 12 e 25 de janeiro de 2025. De acordo com os investigadores, as despesas da viagem teriam sido custeadas por Daniel Vorcaro e alcançado o valor de R$ 1.849.201.
O episódio passou a integrar o conjunto de fatos examinados pela Polícia Federal na investigação que busca compreender a natureza da relação entre o senador e o empresário.
Destino de milionários entrou no radar da PF
Localizada nos Alpes franceses, Courchevel é conhecida por reunir parte da elite econômica internacional durante a temporada de inverno. A estação de esqui abriga hotéis de luxo, restaurantes estrelados e serviços voltados a um público de altíssimo poder aquisitivo.
Segundo a reportagem, o casal viajou inicialmente para Paris, partindo do Aeroporto Internacional de Guarulhos, e posteriormente seguiu para Courchevel, onde permaneceu hospedado em um hotel de alto padrão.
A Piauí relata ainda que Daniel Vorcaro também participou da viagem, acompanhado por Martha Graeff, sua então noiva.
Entre os elementos recolhidos pelos investigadores está uma fotografia encontrada no celular do banqueiro, na qual ele aparece abraçado ao senador em meio à paisagem coberta de neve da estação de esqui.
Para a Polícia Federal, a viagem representa mais um dos indícios de uma relação que teria ido além de uma simples amizade pessoal.
Supremo citou possível benefício mútuo
A reportagem destaca que a relação entre o senador e o banqueiro foi mencionada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, ao autorizar uma nova fase das investigações relacionadas ao caso Master.
Segundo a revista, ao analisar os elementos reunidos pela Polícia Federal, o ministro registrou a existência de um possível “arranjo funcional e instrumental orientado por benefício mútuo, extrapolando relações de mera amizade”.
A avaliação foi feita no contexto da autorização de novas diligências relacionadas ao caso.
As investigações analisam uma série de episódios envolvendo pagamentos, viagens, imóveis, movimentações financeiras, emendas parlamentares e possíveis atos políticos que teriam beneficiado interesses ligados ao Banco Master.
De acordo com a Piauí, a Polícia Federal reuniu mais de sessenta páginas de relatórios contendo registros de mensagens, fotografias, deslocamentos, documentos financeiros e cronologias detalhadas dos fatos apurados.
Coaf identificou movimentações consideradas atípicas
A relação entre Ciro Nogueira e Daniel Vorcaro já vinha sendo acompanhada pelas autoridades antes mesmo da viagem à França.
A reportagem cita um relatório produzido pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) que apontou depósitos realizados pela BRGD, empresa ligada à família Vorcaro, em favor da CNLF Empreendimentos Imobiliários, empresa associada à família do senador.
Segundo o documento, os repasses realizados entre agosto de 2023 e agosto de 2024 teriam alcançado R$ 902 mil.
Os valores foram classificados pelo órgão de inteligência financeira como movimentações atípicas, o que levou o caso a ser incorporado ao conjunto de elementos examinados pela Polícia Federal.
Negócio envolvendo empresa também chamou atenção
Outro episódio mencionado pela revista envolve uma operação societária realizada em 2024.
Segundo a reportagem, Ciro Nogueira e Daniel Vorcaro tornaram-se parceiros em uma transação envolvendo a Green Investimentos.
A empresa ligada ao senador teria adquirido uma participação de 30% na companhia pelo valor de R$ 1 milhão.
O negócio chamou atenção dos investigadores porque, segundo os documentos analisados, a fatia adquirida possuía avaliação de mercado superior ao montante pago na negociação.
O episódio passou a integrar a cronologia dos fatos examinados pela Polícia Federal e também foi citado na análise feita pelo ministro André Mendonça.
Investigação examina supostos pagamentos recorrentes
Entre os pontos considerados mais sensíveis da investigação estão mensagens que indicariam discussões sobre repasses periódicos ao senador.
Segundo a reportagem da Piauí, conversas obtidas pela Polícia Federal fariam referência a pagamentos mensais inicialmente estimados em R$ 300 mil e posteriormente elevados para R$ 500 mil.
As circunstâncias desses valores, a origem dos recursos e a eventual destinação ainda são objeto de apuração pelas autoridades.
Até o momento, não há conclusão oficial sobre a natureza dos pagamentos mencionados nos documentos analisados.
Uso de imóveis e despesas pessoais também são investigados
A revista relata ainda que a Polícia Federal investiga benefícios relacionados ao uso de imóveis pertencentes a Daniel Vorcaro.
Mensagens reproduzidas na reportagem mostram conversas nas quais Ciro Nogueira teria tratado da possibilidade de permanecer temporariamente em um apartamento do banqueiro em São Paulo enquanto aguardava a conclusão de obras em outro imóvel.
O episódio é tratado pelos investigadores como parte de um conjunto mais amplo de vantagens que teriam sido oferecidas ao parlamentar.
Outro ponto citado envolve despesas em restaurantes.
Segundo a reportagem, mensagens atribuídas a um operador responsável pela logística de Vorcaro nos Estados Unidos indicariam orientação para que contas de restaurantes frequentados por Ciro Nogueira e Flávia Rosalen continuassem sendo pagas durante uma viagem ao exterior.
Para os investigadores, o caso pode ajudar a esclarecer a extensão dos benefícios supostamente custeados pelo banqueiro.
Emenda favorável ao Banco Master está entre os focos
No campo político, a investigação também analisa a atuação do senador em propostas legislativas de interesse do Banco Master.
A principal delas é a chamada “Emenda Master”, apresentada em agosto de 2024.
A proposta elevava de R$ 250 mil para R$ 1 milhão o limite de cobertura oferecido a investidores em caso de quebra de instituições financeiras.
Segundo a reportagem, a medida beneficiaria diretamente o modelo de negócios adotado pelo Banco Master, baseado na oferta de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com remunerações consideradas elevadas pelo mercado.
A Piauí afirma que a redação da proposta teria sido elaborada pela própria assessoria do banco e submetida previamente à análise de Daniel Vorcaro antes de ser encaminhada ao senador.
Interlocutores ligados à instituição financeira teriam avaliado que a mudança poderia ampliar significativamente os negócios do banco.
Ciro nega irregularidades
A reportagem lembra que Ciro Nogueira já se manifestou publicamente sobre as suspeitas envolvendo sua relação com Daniel Vorcaro.
Segundo a revista, o senador negou ter praticado qualquer irregularidade e afirmou que não tratou de assuntos relacionados ao Banco Master nem realizou gestões para ocultar eventuais problemas da instituição.
Em outra manifestação citada pela publicação, Ciro declarou esperar que a Polícia Federal e o Ministério Público esclarecessem as circunstâncias relacionadas às mensagens divulgadas.
A Piauí também relembra uma entrevista concedida pelo senador a um telejornal de Teresina em março deste ano, quando comentou sua relação com o empresariado brasileiro.
“Sem falsa modéstia, você sabe que eu me tornei um dos homens mais influentes da política nacional. Eu conheço todos os grandes empresários do nosso país. Todos”, afirmou.
Na mesma entrevista, segundo a revista, o parlamentar classificou como natural a proximidade entre lideranças políticas e empresários, destacando que frequentemente recebe convites para eventos, reuniões, palestras e jantares em razão de sua atuação pública.
A declaração ocorreu poucos dias após vir a público uma mensagem na qual Daniel Vorcaro se referia ao senador como “um dos meus grandes amigos de vida”.






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