Um simples olhar sobre o mapa da malha ferroviária do Rio expõe um retrato da insegurança enfrentada diariamente por quem depende dos trens. As composições que transportam cerca de 300 mil passageiros por dia em cinco ramais e três extensões passam ao lado de 179 comunidades sob controle do Comando Vermelho, do Terceiro Comando Puro, da Amigos dos Amigos e de grupos milicianos. A proximidade com áreas conflagradas se traduz em uma rotina de interrupções, atrasos e viagens canceladas.
Apenas nos dez primeiros meses de 2025, problemas ligados à segurança pública, como trocas de tiros, furtos de cabos, roubos e atos de vandalismo, resultaram em 682 cancelamentos ou paralisações de viagens. Na prática, isso significa que, em média, duas ocorrências desse tipo afetaram a circulação dos trens a cada dia.
Trilhos que cruzam áreas dominadas
As comunidades próximas às linhas férreas estão mais concentradas na Zona Norte, onde se localizam 104 delas. Há ainda favelas ao longo dos trilhos no Centro do Rio, na Zona Oeste e na Baixada Fluminense. Com 104 estações distribuídas em 270 quilômetros de trilhos, os ramais ligam a capital a outros 11 municípios.
Entre janeiro e novembro deste ano, foram registradas 16 trocas de tiros que impactaram diretamente a circulação, o equivalente a um episódio a cada 20 dias. Em muitos casos, a violência interrompeu completamente o serviço em determinados trechos, obrigando passageiros a buscar alternativas improvisadas para chegar ao trabalho ou voltar para casa.
Interrupções que duram horas
O tempo de paralisação variou de poucos minutos a longos períodos. Houve casos em que os trens ficaram fora de operação por mais de 18 horas. A maior interrupção ocorreu no ramal de Belford Roxo, quando um tiroteio atingiu a rede elétrica aérea logo nas primeiras horas da manhã. Quatro estações precisaram ser fechadas, e a circulação só foi totalmente restabelecida no dia seguinte.
Os usuários do ramal Gramacho Saracuruna foram os mais afetados. Nove trocas de tiros foram registradas em 11 meses no trecho entre a Central do Brasil e Saracuruna. A maioria ocorreu nas proximidades de estações que integram o chamado Complexo de Israel, na Zona Norte, área marcada por disputas armadas e operações policiais frequentes.
Rotina de medo para quem depende do trem
Para quem utiliza o sistema diariamente, as interrupções já fazem parte da rotina. Passageiros recorrem às redes sociais para avisar sobre disparos e paralisações inesperadas ao longo da linha. A incerteza obriga muitos trabalhadores a sair mais cedo de casa, tentando criar uma margem de segurança para não chegar atrasados.
Outros ramais também sofreram impactos. No ramal Belford Roxo, seis interrupções por tiroteios foram registradas, principalmente em áreas próximas a grandes complexos de comunidades na Zona Norte.
No ramal Deodoro, uma troca de tiros perto de uma estação interrompeu o serviço por mais de duas horas. Apesar da forte presença de milícias na Zona Oeste, não houve registro de paralisações provocadas por disparos nessa região ao longo do ano.
Novo operador no horizonte
Em meio a esse cenário, o sistema ferroviário se aproxima de uma mudança estrutural. Um leilão judicial previsto para janeiro deve definir o novo operador que substituirá a atual concessionária. O modelo de contrato em discussão prevê uma permissão com duração inicial de cinco anos, renovável por igual período, e altera a forma de remuneração, que passará a ser calculada por quilômetro rodado.
A proposta busca dar ao governo maior controle sobre tarifas e reduzir disputas contratuais ligadas à queda de demanda. A expectativa é que a nova operadora assuma o serviço a partir de abril do próximo ano, após sucessivas prorrogações do contrato atual.
Enquanto isso, a Polícia Militar afirma que realiza patrulhamento dinâmico ao longo de toda a malha ferroviária, com equipes distribuídas por estações, plataformas e trens, além de reforço nos horários de pico.
Já a concessionária informa que o furto de cabos segue como um dos principais entraves à operação e diz adotar medidas para dificultar a revenda do material, como a aplicação de um revestimento que facilita a identificação dos equipamentos recuperados.






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