Em meio ao cenário de devastação provocado pelos terremotos que atingiram a Venezuela na semana passada, uma operação de resgate mobilizou centenas de socorristas nesta quinta-feira (2) na tentativa de retirar com vida um homem que permaneceu preso por oito dias sob os escombros de um edifício em Catia La Mar, no estado de La Guaira.
O venezuelano Hernán Gil, de 43 anos, trabalhava como vigilante quando os terremotos de magnitude 7,2 e 7,5 derrubaram a construção onde estava. Desde então, ele permaneceu soterrado na guarita do prédio, tornando-se um dos poucos casos de sobrevivência registrados tantos dias após o desastre.
Enquanto as buscas por sobreviventes se tornam cada vez mais raras, o resgate de Gil passou a simbolizar um fio de esperança para familiares das milhares de pessoas que continuam desaparecidas.
Segundo o balanço oficial mais recente, os terremotos deixaram pelo menos 2.295 mortos. Organizações internacionais, porém, alertam que o número de desaparecidos pode chegar a quase 50 mil.
Operação delicada mobiliza equipes internacionais
As primeiras horas da manhã desta quinta-feira eram cercadas pela expectativa de que Hernán Gil finalmente fosse retirado dos escombros.
No entanto, a operação precisou ser temporariamente interrompida para ampliar o espaço destinado à retirada do vigilante.
Um socorrista que participa da missão explicou à AFP que a etapa final exigia extremo cuidado.
“O túnel já foi concluído, de forma que não há risco de que algo caia sobre ele. O que falta é abrir o espaço para retirá-lo, que é um tampão de metal que faz parte da guarita”, disse o socorrista.
A estrutura montada para o resgate inclui um túnel de aproximadamente três metros, construído para permitir a retirada segura da vítima.
Durante os últimos três dias, equipes especializadas dos Estados Unidos, Chile, Portugal, México, Costa Rica, El Salvador e da própria Venezuela trabalharam simultaneamente em duas frentes de escavação.
Para evitar novos desabamentos, os profissionais reforçaram a estrutura comprometida utilizando vigas de madeira e barras de ferro.
Assim que fosse retirado, Hernán Gil seria imediatamente encaminhado aos cuidados de uma equipe médica posicionada nas proximidades.
🇻🇪 RESGATE NA VENEZUELA | Operação mobiliza equipes internacionais na região mais atingida pelos abalos, enquanto número de mortos cresce e crise humanitária se agrava na Venezuela
— Agenda do Poder (@agendadopoder) July 2, 2026
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Sobrevivente permanece consciente
Mesmo após oito dias soterrado, os socorristas afirmam que o vigilante manteve estabilidade emocional durante toda a operação.
“Ele está muito bem psicologicamente”, disse à AFP durante a madrugada um dos socorristas, que descreveu Gil como um homem de fé. “Ele diz que se lembra do aniversário da filha, está tranquilo”.
Para garantir sua sobrevivência, as equipes instalaram um sistema improvisado para fornecer oxigênio e hidratação.
Gil recebe líquidos por meio de uma sonda, enquanto um tubo instalado entre os escombros garante a circulação de ar.
Segundo Cristian Vera, chefe da equipe chilena de resgate, a retirada exigiu planejamento detalhado diante das condições do local.
“Esta é uma estrutura de acesso bastante complicada”, disse à AFP.
Imagens divulgadas pelo Corpo de Bombeiros do Chile mostram Hernán Gil dentro da guarita parcialmente destruída, utilizando uma máscara de proteção respiratória e movimentando a cabeça em direção à câmera. O olho direito aparece bastante avermelhado.
A esposa do vigilante, Gusbimar González, acompanha a operação desde o início e classificou a sobrevivência do marido como extraordinária.
“Isto é realmente um milagre”, disse à AFP. “Ele estava trabalhando na guarita e o tremor fez com que a guarita se deslocasse, ele ficou entre as paredes”.
Esperança diminui entre os escombros
Enquanto o caso de Hernán Gil desperta expectativa, os especialistas reconhecem que a possibilidade de encontrar novos sobreviventes é cada vez menor.
A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, decretou sete dias de luto nacional em homenagem às vítimas da tragédia.
Nas áreas mais atingidas de La Guaira, dezenas de edifícios já receberam a marcação com a letra “D”, utilizada internacionalmente para indicar construções onde as equipes concluíram as buscas e identificaram vítimas fatais.
“Não se perde tempo em um lugar onde não se espera encontrar pessoas com vida”, explicou à AFP Javier Rodes, coordenador de uma equipe espanhola de resgate.
Segundo ele, a maior parte das edificações destruídas na região já passou por inspeção.
Apesar disso, alguns episódios continuam alimentando a esperança dos familiares, como o resgate de uma criança de três anos encontrada com vida na última terça-feira por equipes da Jordânia.
Nas redes sociais, continuam circulando milhares de fotografias de crianças, idosos e famílias inteiras desaparecidas, acompanhadas de telefones para contato na tentativa de obter qualquer informação sobre seu paradeiro.
Crise humanitária se agrava
Paralelamente às buscas, cresce a preocupação com a situação das pessoas que perderam suas casas.
Moradores desabrigados ocupam estacionamentos, ginásios esportivos e acampamentos improvisados, enquanto organizações internacionais alertam para a insuficiência de alimentos, água e abrigo.
“Aqui não estava chegando nada. Ontem à noite, começaram a nos trazer água”, contou à AFP Fátima Berroterán, de 56 anos, moradora de um condomínio severamente atingido em La Guaira.
O governo venezuelano informa que quase 13 mil pessoas ficaram desabrigadas após os terremotos.
A Organização das Nações Unidas, porém, trabalha com uma estimativa muito superior e avalia que até sete milhões de pessoas possam necessitar de abrigo ou assistência humanitária.
Imagens de satélite analisadas pela Nasa indicam que cerca de 58 mil edifícios provavelmente sofreram danos ou foram completamente destruídos.
ONU alerta para risco de epidemias
Além da falta de moradia, organismos internacionais manifestam preocupação com o agravamento da crise sanitária.
A Organização Mundial da Saúde alertou para “a pressão extrema” sobre os serviços de saúde e para o risco de disseminação de doenças infecciosas e virais nas áreas atingidas.
O Programa Mundial de Alimentos solicitou à comunidade internacional o envio de US$ 50 milhões para atender aproximadamente 500 mil pessoas durante os próximos três meses.
Antes mesmo dos terremotos, a ONU estimava que quase oito milhões de venezuelanos já dependiam de ajuda humanitária.
Ao todo, 27 países enviaram especialistas, equipamentos e cães farejadores para auxiliar nas operações de busca e resgate.
A ONU também anunciou o envio de 10 mil sacos mortuários para apoiar as autoridades locais, embora mantenha a expectativa de que o número definitivo de vítimas possa ficar abaixo das estimativas mais pessimistas.
Os prejuízos econômicos provocados pelos terremotos já são estimados em US$ 6,7 bilhões, valor equivalente a cerca de 6% do Produto Interno Bruto da Venezuela, evidenciando a dimensão de uma tragédia que deverá produzir impactos humanitários e econômicos por muitos anos.






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