O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a mirar o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) em um discurso nesta sexta-feira (10), durante o lançamento de um novo modelo de financiamento imobiliário em São Paulo. Lula chamou Bolsonaro de “tranqueira”, disse que o país “está arrumado” e pediu uma “nova chance” — em tom que foi interpretado como aceno à disputa eleitoral de 2026.
O evento marcou o anúncio de um programa de crédito habitacional voltado à classe média, mas o presidente aproveitou o palanque para fazer um balanço de sua gestão e comparar o atual cenário com o que encontrou ao assumir o Planalto. “O Brasil está precisando de uma chance. Vocês têm noção da destruição que esse país sofreu nos últimos seis anos? Falta de crédito, de programa, de objetividade”, afirmou.
Críticas à herança de Bolsonaro e Temer
Lula disse que herdou um país “sem dinheiro e sem planejamento” e que precisou criar a chamada PEC da Transição para garantir recursos mínimos de governabilidade. “A gente teve que passar dois anos tentando reconstruir, fazer uma coisa chamada PEC da Transição, que não deve ter no dicionário brasileiro porque não existe, para ter dinheiro para governar. Porque a tranqueira que governava não cuidou disso”, declarou, em referência a Bolsonaro.
O petista afirmou ainda que existe uma “indústria da desconfiança” no país, que daria mais espaço a pautas como o déficit fiscal do que a avanços concretos na economia. “O nosso governo é o que trata com mais responsabilidade as contas públicas. Não quero passar a vida inteira respondendo processo por negligência administrativa”, disse.
Lula destacou como um dos principais resultados de sua gestão a retirada do Brasil do Mapa da Fome da ONU — status perdido durante a crise econômica e a pandemia de covid-19 — e afirmou que o país vive um “novo momento de reconstrução”.
Recado à classe média e ao Congresso
Em discurso direcionado à classe média, o presidente criticou a derrubada da Medida Provisória que previa aumento de impostos sobre rendimentos de grandes aplicações financeiras — apelidada de “taxação BBB”, em alusão a bancos, bets e bilionários. “Mandamos um projeto para que quem ganha mais de 600 mil reais pague um pouco mais, e eles votam contra. Esse dinheiro poderia ser usado para promover inclusão social”, afirmou.
Lula defendeu políticas públicas capazes de “fazer o povo subir um degrau na escala social” e criticou setores que, segundo ele, sabotam medidas do governo por cálculo eleitoral. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), reforçou a mensagem. “Não se ganha eleição sabotando o Brasil, impedindo o governo de fazer o bem. Vamos entregar o país muito melhor”, disse.
Alfinetadas a Tarcísio e lembrança a Boulos
O discurso também incluiu recados ao governador paulista Tarcísio de Freitas (Republicanos), apontado como possível adversário em 2026, que articulou a derrubada da MP no Congresso. Lula ironizou a resistência da oposição a projetos habitacionais e lembrou que, antes de programas como o Minha Casa, Minha Vida, “o povo construía suas casas em mutirão e o país virou uma república de invasão de condomínio”.
Ao perceber o desconforto do deputado Guilherme Boulos (PSOL), ex-líder do MTST, o presidente ponderou que as ocupações eram resultado da falta de políticas de moradia adequadas.
Relação com Trump e política externa
Em outro momento, Lula falou sobre o relacionamento com o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, após o anúncio de tarifas contra exportações brasileiras. Ele criticou Bolsonaro por ter conduzido uma política externa “ideológica e submissa”. “Nunca tratei presidente de outro país ideologicamente. Quem faz isso é o povo que o elegeu. Eu tenho que tratá-lo com respeito, e ele deve fazer o mesmo”, afirmou.
O presidente disse que o Brasil não pode depender “do humor de um presidente” e lembrou que há outros mercados dispostos a comprar produtos nacionais. “Se os americanos não quiserem, vendemos para a China, para a Ásia, para qualquer país do mundo. No mundo, ninguém respeita quem não se respeita. Se você acha que lamber botas te ajuda, vai cair do cavalo.”
Lula encerrou o discurso reforçando que o Brasil “voltou a crescer” e precisa de estabilidade política para “dar continuidade ao que foi reconstruído”. Ele viaja na próxima semana à Indonésia, onde participará de encontros econômicos e ambientais.






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