Vídeo: delegado que teve a perna amputada na Megaoperação do Alemão não descarta hipótese do vazamento de informações

Em entrevista ao programa Jogo do Poder, delegado Bernardo Leal relata detalhes do momento que foi atingido e aponta duas hipóteses para o episódio que antecedeu o disparo que mudou sua vida

O delegado Bernardo Leal, da Polícia Civil do Rio de Janeiro, afirmou que não descarta a possibilidade de ter havido vazamento de informações durante os preparativos da Operação Contenção, realizada nos complexos do Alemão e da Penha. Em entrevista ao programa Jogo do Poder, apresentado pelo jornalista Ricardo Bruno e que será exibido neste domingo (7) pela Rede CNT e pelo YouTube, o policial revelou detalhes do episódio que antecedeu o disparo de fuzil que resultou na amputação de sua perna e relatou que criminosos responderam corretamente à contrassenha utilizada pelas forças de segurança para evitar casos de fogo amigo.

Um dos momentos mais impactantes da entrevista trouxe à tona uma dúvida que continua cercando a megaoperação realizada nos complexos do Alemão e da Penha: como criminosos conseguiram responder corretamente à contrassenha utilizada pelas forças de segurança?

Bernardo Leal, que foi atingido por um tiro de fuzil durante a Operação Contenção e acabou perdendo uma das pernas após nove cirurgias e 47 dias de internação, detalhou pela primeira vez como o episódio aconteceu e admitiu que existem duas hipóteses para explicar o que ocorreu.

Segundo o delegado, as equipes da Polícia Civil e da Polícia Militar utilizavam um sistema de senha e contrassenha para evitar casos de fogo amigo durante a incursão. Próximo ao local onde estava um dos principais alvos da operação, policiais passaram a acreditar que estavam sendo atingidos por colegas de outra força de segurança.

Foi então que a senha foi pronunciada. A resposta veio imediatamente do grupo que estava efetuando os disparos.

“O marginal que me acerta depois canta a contrassenha certa”, relatou Bernardo Leal.

A resposta fez com que os policiais acreditassem que os tiros vinham de agentes da própria Polícia Militar. Com isso, a equipe reduziu o nível de alerta.

“Eu só dei dois passos para frente porque entendi que quem estava atirando não iria mais atirar porque era fogo amigo”, afirmou.

Momentos depois, o delegado foi atingido por um disparo de fuzil calibre 7.62.

Duas hipóteses

Durante a entrevista, Bernardo Leal disse acreditar prioritariamente que os criminosos tiveram acesso à senha durante o andamento da própria operação.

Como as equipes já estavam em campo havia cerca de duas horas e meia, a avaliação do delegado é que a senha e a contrassenha podem ter sido ouvidas diversas vezes e repassadas entre criminosos por meio de rádios comunicadores.

“Quero continuar acreditando que essa foi a hipótese que aconteceu”, afirmou.

No entanto, ele não descartou uma segunda possibilidade: a de que a informação tenha sido vazada ainda durante o briefing preparatório da operação.

“Algum colega, que na verdade não é colega, soube e vazou essa informação para os criminosos”, declarou.

Questionado por Ricardo Bruno sobre essa hipótese, o delegado foi direto ao afirmar que, caso isso tenha ocorrido, não se trataria de um policial, mas de “um bandido infiltrado na polícia”.

Guerra urbana

Ao longo da entrevista, Bernardo Leal também fez um diagnóstico duro sobre a situação da segurança pública no Rio de Janeiro. Segundo ele, as facções criminosas já não dependem exclusivamente do tráfico de drogas e atuam como verdadeiras organizações empresariais, explorando serviços clandestinos, venda de gás, internet ilegal, transporte alternativo e outras atividades econômicas.

O delegado classificou os grupos criminosos como “narcoterroristas” e afirmou que o Rio vive uma realidade de guerra urbana. Como exemplo, citou o uso de drones para lançamento de explosivos e a utilização de táticas de guerrilha observadas durante a Operação Contenção.

Leal contou ainda que os policiais precisaram percorrer cerca de 14 quilômetros por áreas dominadas pelo crime organizado até chegar à região conhecida como Vacaria, onde estavam alguns dos principais alvos da ação.

Da polícia para a política

Após sobreviver ao ataque, Bernardo Leal decidiu ingressar na vida política. Filiado ao PP, ele pretende disputar uma vaga na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro em 2026.

Segundo o delegado, a decisão foi motivada pelo desejo de dar voz aos policiais que atuam na linha de frente do combate ao crime organizado, aos moradores de comunidades dominadas por facções e também às pessoas com deficiência, condição que passou a vivenciar após a amputação.

Ao encerrar a entrevista, Bernardo Leal defendeu a união das forças de segurança e afirmou que o combate ao crime organizado deve estar acima de disputas partidárias e ideológicas.

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