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Venezuela anuncia libertação de presos políticos como gesto de paz unilateral

Medida ocorre sob governo interino e inclui estrangeiros; Caracas nega negociação formal e cita mediação de Brasil, Espanha e Catar

A Venezuela anunciou nesta quinta-feira (8) a libertação de um “número significativo” de presos por razões políticas, em uma iniciativa classificada pelo governo como um “gesto de paz unilateral”. O anúncio foi feito pelo presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, que afirmou que as solturas começaram imediatamente, sem divulgar o total de beneficiados.

A decisão marca as primeiras liberações desde a instalação do governo interino de Delcy Rodríguez, que assumiu após a operação militar dos Estados Unidos, em 3 de janeiro, que resultou na captura do então presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores. Ambos estão detidos em Nova York e respondem a processos judiciais, inclusive por acusações de narcotráfico.

Governo nega negociação formal

Segundo Jorge Rodríguez, a medida não foi fruto de negociação com outras partes, mas teve como objetivo “a convivência pacífica” no país. Apesar disso, o dirigente agradeceu a atuação do ex-primeiro-ministro espanhol José Luis Rodríguez Zapatero, do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva e do governo do Catar, que teriam atuado como mediadores a pedido da presidente interina.

“É um gesto unilateral do governo bolivariano”, declarou Rodríguez no Palácio Legislativo, em Caracas. “Considerem este gesto como uma contribuição para garantir que nossa república continue sua vida pacífica”.

Ainda não está clara qual foi, de fato, a participação desses governos na decisão anunciada por Caracas.

Plano dos EUA e cenário de transição

O anúncio ocorreu um dia depois de o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, afirmar que Washington estruturou um plano de três fases para a Venezuela após a intervenção militar. A primeira etapa, segundo ele, prevê a estabilização do país para evitar um cenário de caos.

A segunda fase incluiria a libertação de opositores presos, concessão de anistias e a reconstrução da sociedade civil. Já a terceira etapa seria a transição política. Não há prazo definido para esse processo. Em entrevista ao New York Times, o presidente americano Donald Trump afirmou que os EUA devem permanecer como “tutores políticos” da Venezuela por “muito mais tempo”.

Espanhóis entre os libertados

Ao menos quatro cidadãos espanhóis estão entre os presos soltos, de acordo com fontes diplomáticas ouvidas pelo jornal El País. São eles Andrés Martínez Adasme, José María Basoa, Miguel Moreno e Ernesto Gorbe. Há ainda pelo menos outros 15 detentos com dupla nacionalidade hispano-venezuelana, sem confirmação oficial sobre quantos foram liberados.

O ministro das Relações Exteriores da Espanha, José Manuel Albares, afirmou que acompanha as informações com cautela. Segundo ele, caso confirmadas, as solturas representam “um passo muito positivo”.

Número de presos políticos

A ONG Foro Penal estima que a Venezuela tenha atualmente 806 presos políticos, entre eles 175 militares. Em 2024, o número chegou a cerca de 1.780 — o maior dos últimos 25 anos — após as eleições contestadas de 28 de julho, quando Maduro foi proclamado vencedor.

Antes do pleito, havia 199 presos políticos. Em apenas um mês após a eleição, mais 1.581 detenções foram registradas, elevando o total para cerca de 2,4 mil. Desde então, mais de 2 mil pessoas foram libertadas, segundo dados oficiais. Em dezembro, no Natal, o governo anunciou a soltura de 99 detidos ligados a protestos pós-eleitorais.

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