No Rio, nostalgia virou placa de “vende-se”. Endereços que já foram palcos de aplausos e farras agora competem lado a lado com anúncios de empreiteiras e telefonemas infindáveis de corretores, numa corrida onde o passado vira mercadoria. Aquilo que antes garantia manchetes , como as portas azuis da casa da cantora, a varanda onde se fumou (ou se cantou) de tudo em noites eternas virou hoje mero argumento de venda. Uma linha a mais na descrição do portal imobiliário, entre “três suítes” e “vista para o mar”.

Mas não se engane: não é só mercado, é um show de horrores embalado em brilhos e cifras. De um lado, compradores nostálgicos que acreditam adquirir um pedaço da alma do lugar; do outro, aqueles que só querem foto com o mar ao fundo para fingir pertencimento. Entre esses dois polos, a conta no banco é a única certeza: um documento que comprova que, no Rio, até memória tem preço, e ele é alto demais para a maioria.

A cidade, com sua habitual mistura de beleza e desigualdade, presta sua homenagem irônica e cruel: transforma memórias públicas em metros quadrados para poucos, vendendo pedaços de passado embalados no marketing de luxo. Aqui, o patrimônio cultural é negociado em parcelas. E a classe social é o filtro que decide quem pode comprar saudade e quem fica só assistindo da calçada.

A casa de Elis Regina

O casarão de três andares no qual a Pimentinha viveu de 1967 até  1972, na Avenida Niemeyer, está disponível para venda com porteira fechada por R$ 7,5 milhões. O local, onde a cantora se casou e viveu com o produtor musical e compositor Ronaldo Bôscoli,  fica dentro de um condomínio, tem 350m², vista para o mar, a Praia de São Conrado e a Pedra da Gávea. São quatro quartos, com a suíte principal no terraço. O espaço tem jacuzzi e acesso direto à piscina. Os outros quartos também são suítes. A cozinha é aberta, estilo loft, e o terraço, além da piscina, tem sauna e um jardim. A casa, assinada pelo arquiteto Fernando Portuguese, tem tons de azul e branco, janelas enormes que deixam o ambiente iluminado e a brisa do mar em quase todos os cômodos.

A casa foi endereço de noitadas históricas e cujos detalhes dificilmente serão um dia contados com riqueza de detalhes. Várias cenas da cinebiografia de Elis foram filmadas aqui, como a ocasião na qual, furiosa por uma pulada de cerca de Bôscoli, ela arremessou toda sua coleção de discos ao mar. A casa foi comprada por um casal de franceses que a reformou integralmente, mantendo as características originais, e por um bom tempo esteve disponível para aluguel no Airbnb.

Fachada da casa de Elis Regina | Crédito: Reprodução

O apartamento da Narcisa

O Edifício Chopin, localizado ao lado do Copacabana Palace e um dos endereços mais tradicionais da Avenida Atlântica, voltou a ter um de seus imóveis mais cobiçados disponível para locação. Trata-se de um dos quatro apartamentos da socialite Narcisa Tamborindeguy. O valor do aluguel não foi divulgado, mas, como é de praxe no prédio, trata-se de cifras nada modestas.

Inaugurado em 1956, o Edifício Chopin é um marco da arquitetura modernista no Rio de Janeiro. Projetado pelo arquiteto francês Jacques Pilon, o edifício é dividido em três blocos: Chopin (o da frente), Prelúdio e Balada, totalizando 60 apartamentos, sendo considerado um dos mais exclusivos da Zona Sul. Sua localização privilegiada e sua arquitetura arrojada atraíram diversas personalidades ao longo dos anos, consolidando-o como um marco de sofisticação na cidade.

Símbolo de um estilo de vida clássico que resiste ao tempo, o Chopin já abrigou nomes como Adolpho Bloch, o ex-presidente João Goulart e a atriz Maitê Proença, entre outros. As unidades variam de 200 m² a mil metros quadrados, e os preços acompanham o tamanho: a cobertura foi posta à venda recentemente por R$ 37 milhões. O condomínio pode chegar a R$ 7 mil, enquanto o IPTU da tal cobertura ultrapassa os R$ 20 mil anuais.

Apartamento de Narcisa Tamborindeguy | Crédito: Reprodução

A cobertura de José Carlos Fragoso Pires

Ele tem a fama de ser um dos imóveis mais “invendáveis” da Guanabara. À venda há mais de 8 anos, a maior cobertura da América Latina — e considerada uma das principais do mundo, segue, através de diversos portais imobiliários, em busca de possíveis interessados em adquiri-la pelo trocado de R$ 65 milhões.

O requintadíssimo palacete “suspenso” foi construído nos anos 30 pela icônica família Guinle. Por lá, já residiu também o ex-magnata José Carlos Fragoso Pires, ex-presidente do Jockey Club Brasileiro, falecido em outubro de 2020. O beatle George Harrisson já se hospedou por lá.

O luxuosíssimo imóvel, de aproximadamente absurdos 4 mil metros quadrados, tem quatro andares, cinco quartos e dez banheiros. Além disso, há um jardim suspenso com piscina e vista deslumbrante para a Baía de Guanabara e o Pão de Açúcar, spa, sauna e salão de jogos. Isso sem falar na garagem, que comporta até 12 veículos, com entrada exclusiva. O imóvel necessita de obras de modernização, mas ainda assim tem um aspecto majestoso.

Imóvel tem absurdos 4 mil metros quadrados | Crédito: Reprodução

 Qual é o imóvel mais caro do Rio?

É a pergunta de um milhão de dólares. Os preços dos imóveis AAA no Rio variam muito e inclusive, na maioria das vezes são negociados em sigilo. A identidade dos proprietários costuma ser protegida e muitos evitam até que fotos dos imóveis sejam divulgadas, justamente porque pelo mobiliário, ou pelas obras de arte,  por exemplo, eles podem ser identificados pelo Leão da Receita ou por amigos do alheio.

Até o fechamento deste texto, o imóvel mais caro à venda na Cidade Maravilhosa era uma cobertura na  Avenida Vieira Souto, oferecida por R$ 120 milhões — mesmo preço da  famosa cobertura do Faustão no sofisticadérrimo Jardim Europa, em São Paulo. No caso desse triplex no edifício Sol Ipanema, só a suíte master tem 200 metros quadrados.

A área total do apartamento é de 1.300m. O terraço tem vista 360º que alcança os principais monumentos turísticos da cidade, de ponta a ponta: Lagoa Rodrigo de Freitas, Cristo Redentor, Ilhas Cagarras, Arpoador, e até o Pontal, na Zona Oeste. Além da natureza, o imóvel tem outros privilégios como de cinema, quase 400 metros de ambientes sociais como salas de almoço, de estar e de jantar e sala íntima.

Outros imóveis de super-ricos podem estar sendo vendidos nesse momento sem a gente nem perceber. É um mercado superexclusivo, e que fica mais fechado em uma cidade como o Rio onde, todo mundo sabe, os melhores imóveis, não importa sua classe social, são vendidos quase no boca-a-boca, sem nem figurar nos sites especializados.

Cobertura em Ipanema: um dos imóveis mais caros do Brasil | Crédito: Reprodução

Qual o imóvel mais caro do Brasil?

Depois da venda do palacete no Jardim Pernambuco, no Alto Leblon, por R$ 220 milhões, este título está prestes a ser conquistado pelo projeto mais brega do Brasil. Onde mais senão em Balneário Camboriú (SC), que será endereço do Senna Tower, o mais alto prédio residencial do mundo quando for entregue em 2033.

O arranha-céu de 550 metros de altura, será distribuído em 228 unidades e 157 pavimentos, sendo: 204 apartamentos, de até 400 m²; 18 “mansões suspensas”, de 420 a 563 m²;  quatro coberturas duplex, de 600 m² e duas megacoberturas triplex, de 903 m². Os apartamentos mais em conta sairão a partir de R$ 28 milhões. Já as 18 mansões suspensas estão sendo comercializadas a partir de R$ 60 milhões cada. E as megacoberturas triplas estão com preços a partir de R$ 300 milhões. Estas, porém, terão um projeto de venda diferenciado. As unidades devem ir a leilão pela Sotheby’s, centenária casa de leilões inglesa.

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