As investigações conduzidas pela Polícia Civil e pelo Ministério Público do Rio de Janeiro avançaram sobre a relação entre lideranças políticas e áreas sob influência do Terceiro Comando Puro (TCP) na Zona Norte da capital.
Os investigadores apontam que comunidades controladas pela facção concentraram uma parcela significativa da votação obtida pelo deputado estadual Roosevelt Barreto Barcelos, o Val Ceasa (PRD), e pelo ex-vereador Ulisses Marins (PSD).
Os dados eleitorais foram cruzados com informações levantadas durante a apuração realizada pela Coordenadoria de Investigação de Agentes com Foro (CIAF), que apura a atuação de agentes públicos supostamente ligados ao grupo criminoso.
Segundo a denúncia apresentada pelo Ministério Público, o desempenho eleitoral dos investigados em determinadas regiões revelaria uma forte presença política nessas localidades, circunstância considerada relevante para a apuração da suposta influência exercida em benefício da facção.
Votos em áreas dominadas
Nas eleições de 2022, Val Ceasa recebeu 69.034 votos. De acordo com os investigadores, pelo menos 12,24 mil desses votos foram registrados em áreas onde o TCP exerce influência, o que representa cerca de 17,7% de sua votação total.
Entre as localidades citadas estão Para Pedro, Acari, Beira Rio, Cordovil e Irajá. Somente em Para Pedro, o parlamentar recebeu 1.787 votos. Em Cordovil foram contabilizados 1.710 votos, enquanto Acari registrou 1.628 e Beira Rio, 1.099.
No caso de Ulisses Marins, as investigações apontam que, quando foi eleito vereador em 2020, ele obteve mais de 10 mil votos em duas zonas eleitorais que abrangem bairros como Vigário Geral, Parada de Lucas e Brás de Pina.
As três localidades integram o chamado Complexo de Israel, conjunto de comunidades apontado pelas autoridades como uma das principais áreas de influência do TCP.
Acusações investigadas
As apurações indicam suspeitas de que Val Ceasa teria atuado em favor dos interesses da facção criminosa em bairros da Zona Norte e participado de um esquema de lavagem de dinheiro ligado ao grupo.
Entre os fatos investigados está uma suposta tentativa de impedir a demolição de um imóvel conhecido como “resort”, atribuído ao traficante Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, apontado como principal liderança do TCP na região.
Val Ceasa, que se diz vítima de perseguição política, negou a acusação e afirmou que jamais procurou qualquer batalhão para interferir na operação destinada à demolição do imóvel. Na sexta feira (19), o deputado agradeceu as mensagens de apoio que recebeu.
Já Ulisses Marins é suspeito de ter utilizado um imóvel que funcionava como comitê eleitoral para armazenar armas e drogas destinadas ao grupo criminoso. O caso também é alvo das investigações em andamento.
Patrimônio sob análise
Outro ponto que chamou a atenção dos investigadores foi a evolução patrimonial atribuída a Val Ceasa. Segundo os levantamentos apresentados no inquérito, o parlamentar possui imóveis e bens avaliados em aproximadamente R$ 13 milhões.
O valor é superior ao patrimônio de cerca de R$ 1 milhão declarado por ele à Justiça Eleitoral em 2022.
As investigações apontam ainda a existência de empresas ligadas aos setores de comércio, cultivo de frutas e abastecimento, além de propriedades rurais e imóveis de alto valor localizados em diferentes regiões do estado.
Diante das suspeitas, o Ministério Público solicitou a quebra dos sigilos bancário e fiscal do deputado, além da produção de relatórios de inteligência financeira para aprofundar a análise da movimentação patrimonial.
Durante a operação realizada na última quinta-feira, agentes apreenderam R$ 166 mil em espécie na residência do parlamentar. Outros cerca de R$ 150 mil foram encontrados em endereços vinculados ao investigado.
Operação e buscas
A ação conjunta da Polícia Civil e do Ministério Público teve como alvo agentes públicos suspeitos de ligação com o Terceiro Comando Puro, considerado uma das principais organizações criminosas do estado.
Ao todo, foram cumpridos 14 mandados de busca e apreensão autorizados pelo Órgão Especial do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Entre os endereços visitados pelos agentes estava a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro.
Segundo a força-tarefa, Val Ceasa, Ulisses Marins e um ex-assessor teriam atuado para tentar impedir a derrubada do imóvel atribuído a Peixão. As investigações apontam que os envolvidos alegavam que o espaço seria utilizado para atividades sociais, argumento que, segundo os investigadores, não foi confirmado pelas apurações. A operação resultou ainda na prisão em flagrante de duas pessoas.






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