Unidade municipal da Maré leva o Rio à final do prêmio Melhores Escolas do Mundo

GET IV Centenário é finalista internacional por projeto de escuta e acolhimento de alunos em área vulnerável; outras três instituições brasileiras também disputam a premiação mundial

Uma escola pública localizada no Complexo da Maré, na zona norte do Rio de Janeiro, colocou a capital fluminense em destaque no cenário internacional da educação. A Escola Municipal Ginásio Educacional Tecnológico (GET) IV Centenário foi anunciada como uma das dez finalistas mundiais na categoria Superação de Adversidades do World’s Best School Prizes 2026, conhecido como Prêmio Melhores Escolas do Mundo.

A informação foi divulgada pela Agência Brasil. Além da unidade carioca, outras três instituições brasileiras também chegaram à fase final da premiação internacional: a Escola Baniwa Kalipana, no Amazonas; o Centro de Educação Infantil Rosa Mutran Maluf, em Mato Grosso; e o Centro Educacional Primeiro Mundo, no Pará.

Na Maré, a notícia foi recebida em clima de celebração. A escola, que atende estudantes de 6 a 11 anos de idade em uma das regiões mais vulneráveis e afetadas pela violência urbana no Rio, conquistou reconhecimento internacional por desenvolver uma metodologia baseada no acolhimento emocional, na escuta ativa e no protagonismo dos alunos.

“O coração está transbordando de alegria. É muito gostoso a gente receber esse reconhecimento em uma área vulnerável como é a nossa”, afirmou a diretora da unidade, Alessandra Aguiar.

Escuta após a violência virou política pedagógica

A iniciativa que levou a escola carioca à final mundial surgiu a partir da realidade enfrentada pelos estudantes do Complexo da Maré, território composto por 16 favelas e frequentemente impactado por operações policiais e confrontos armados. Dados do projeto De Olho na Maré apontam que, entre 2016 e 2025, a região registrou 231 operações policiais, com 160 mortes e mais de 1,5 mil episódios de violência.

Foi após uma dessas operações que a equipe pedagógica percebeu a necessidade de criar espaços permanentes de acolhimento para os alunos.

“A gente criou o Café com Música e Prosa, que é o acolhimento socioemocional, principalmente por conta dos dias após as operações policiais. Eles precisavam falar. Eles precisavam colocar para fora”, explicou Alessandra.

Espaço para que os alunos falem

A experiência evoluiu para se tornar um dos pilares do projeto pedagógico Fábrica de Sonhos. Atualmente, os primeiros 20 minutos de cada dia letivo são dedicados exclusivamente à escuta dos estudantes, permitindo que compartilhem sentimentos, medos, expectativas e experiências vividas fora da escola.

“Os 20 minutos que a gente para para ouvir essas crianças no começo do dia fazem toda a diferença. E isso é um processo diário. Todos os dias, antes de começar as matérias, a gente para para ouvir e para dizer para eles que eles podem sonhar e realizar tudo que eles quiserem”, destacou a diretora.

Resultados transformaram a escola

A estratégia de acolhimento produziu impactos concretos no desempenho educacional. Segundo a direção, a escola conseguiu zerar o abandono escolar e alcançar índice de 97% de alfabetização na idade adequada.

Para Alessandra Aguiar, a construção de vínculos afetivos é condição indispensável para a aprendizagem.

“Eu acredito que sem relação, não tem aprendizado. Sem vínculo, não tem aprendizado. Então, a relação da gente com a família, a relação da gente com as crianças é muito importante e eles se sentem à vontade e acolhidos para estarem aqui. Às vezes, o que eles não falam em casa, eles contam aqui para a gente”, afirmou.

Famílias participam do planejamento pedagógico

Além da escuta socioemocional, o projeto Fábrica de Sonhos utiliza tecnologia e metodologias ativas para estimular os estudantes a investigar problemas reais da comunidade e desenvolver soluções práticas. As famílias também participam diretamente do planejamento pedagógico e da definição de metas escolares.

O modelo desenvolvido na unidade da Maré já começou a inspirar políticas públicas. Segundo a Prefeitura do Rio, a metodologia será implementada em outras 350 escolas da rede municipal, com possibilidade de expansão futura.

Outras escolas brasileiras também são finalistas

Além da escola carioca, a Escola Baniwa Kalipana, em São Gabriel da Cachoeira (AM), foi reconhecida pelo trabalho de valorização dos saberes indígenas e dos conhecimentos ancestrais. O Centro de Educação Infantil Rosa Mutran Maluf, de Cuiabá (MT), tornou-se finalista na categoria Inovação graças a uma metodologia baseada em ambientes temáticos de aprendizagem e educação antirracista.

Já o Centro Educacional Primeiro Mundo, de Canaã dos Carajás (PA), também disputa a categoria Superação de Adversidades após desenvolver um programa de excelência acadêmica que atende estudantes indígenas, neurodivergentes e pessoas com deficiência, acumulando mais de mil medalhas em olimpíadas científicas e acadêmicas nos últimos três anos.

Promovido pela plataforma T4 Education, com apoio da Fundação Lemann, American Express e Accenture, o World’s Best School Prizes reúne escolas de diversos países que desenvolvem práticas educacionais inovadoras e inclusivas. A votação popular segue aberta até 29 de outubro, enquanto os vencedores serão anunciados em novembro. As escolas finalistas e vencedoras participarão do World Schools Summit, em Londres, em janeiro de 2027.

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