A Polícia Federal encontrou R$ 40 mil em espécie dentro de uma adega ligada ao inspetor da Polícia Civil José Carlos Alves de Souza Júnior, preso nesta quinta-feira (15) na oitava fase da Operação Unha e Carne. Ele é apontado pelos investigadores como um dos responsáveis pela gestão dos recursos de um grupo suspeito de lavar dinheiro por meio de uma rede de postos de combustíveis no estado do Rio.
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A operação também prendeu Márcio Canella (União Brasil), ex-prefeito de Belford Roxo e deputado estadual eleito com a segunda maior votação do estado, e Marcus Amim, ex-secretário estadual de Polícia Civil. Ao todo, a Polícia Federal cumpriu seis mandados de prisão e 16 de busca e apreensão.
Segundo a investigação, o esquema movimentou mais de R$ 7,6 bilhões entre 2020 e 2026, conforme relatório de inteligência financeira do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). A apuração aponta a participação de agentes públicos e uma articulação política para favorecer os negócios investigados.


Quem é José Carlos Júnior
Segundo a PF, o inspetor exercia controle de fato sobre parte da estrutura econômica do grupo, embora não aparecesse formalmente como sócio ou administrador da maioria das empresas investigadas.
Os investigadores afirmam que ele utilizava a mulher para ocultar a participação em negócios e movimentar recursos. Júnior também é suspeito de participar da distribuição de dinheiro entre integrantes do grupo e agentes públicos. A investigação atribui a ele ainda ameaças contra um ex-sócio que cobrava valores investidos.
Outros policiais presos
Além de José Carlos, outros três inspetores da Polícia Civil foram presos nesta quinta-feira: Christiano Gaspar Fernandes, Giovanni Gaspar Fernandes e Pablo Jukiá Felix Ferreira, conhecido como Pablo Russo.
Christiano também ocupa o cargo de secretário municipal de Ordem Urbana de Belford Roxo. Segundo a investigação, ele e o irmão Giovanni seriam sócios ocultos do posto Gasmix Alcântara. A apuração aponta que os dois recebiam repasses ligados ao estabelecimento e que seus nomes apareciam em registros financeiros sob o codinome “Meninos”.
Uma reportagem publicada pelo jornal O Globo em 2011 apontou que, na época, Christiano liderava uma milícia na Favela Roquete Pinto, em Ramos, na Zona Norte do Rio, ao lado do pai, o delegado Carlos de Oliveira, então ex-subchefe operacional da Polícia Civil. Naquele período, ele estava lotado na 22ª DP (Penha), onde chefiava o setor de investigações.
Os irmãos foram presos em 2011 durante a Operação Guilhotina, deflagrada pela Polícia Federal em conjunto com a Secretaria de Segurança e o Ministério Público do Estado do Rio. Na ocasião, os irmãos foram denunciados por formação de quadrilha e peculato, sob a acusação de vender armas apreendidas. Segundo parecer da Secretaria estadual da Casa Civil sobre o caso, eles foram condenados pelos dois crimes, mas tiveram a punibilidade extinta devido à prescrição da pretensão punitiva.
À época, o então governador do Rio, Luiz Fernando Pezão, anulou a demissão de dois inspetores envolvidos no caso.
Pablo Russo, por sua vez, é apontado como um dos principais operadores da rede de postos. De acordo com os investigadores, ele atuava em mais de 20 estabelecimentos e controlava cerca de 43 postos de bandeira BR, formalmente registrados em nome da mulher dele e de uma sócia. A PF também afirma que ele recebia informações antecipadas sobre fiscalizações.
Márcio Canella e Marcus Amim
A investigação atribui a Canella o papel de articulador político do grupo e de ligação entre agentes públicos e a estrutura econômica formada em torno dos postos. Os investigadores apontam que ele teria articulado a indicação de Marcus Amim para cargos de comando no Detran-RJ e na Secretaria de Polícia Civil.
A apuração também identificou créditos de aproximadamente R$ 2,59 milhões da empresa Brumar Empreendimentos em favor de Canella, além de mais de R$ 139 mil em espécie. Segundo os investigadores, a origem dos valores não foi esclarecida.
Amim, que comandou o Detran-RJ antes de assumir a Secretaria de Polícia Civil, é suspeito de utilizar os cargos para oferecer proteção institucional às atividades do grupo. A investigação também aponta que ele seria sócio oculto do posto Gasmix Alcântara e que sua empresa, Mamim Consultoria, recebeu R$ 1,821 milhão da ADM Oil por meio de um contrato de consultoria considerado fictício pelos investigadores.
Outros alvos e medidas judiciais
A operação também cumpriu mandados de busca contra outros investigados, entre eles Glaucio Paz da Silva, ex-presidente do Detran-RJ, e Fábio Henrique Ferreira dos Santos, escrivão da Polícia Federal. Segundo a apuração, Fábio teria repassado informação sigilosa a Pablo Russo antes da sexta fase da operação e foi afastado cautelarmente da função pública.
As ordens judiciais foram determinadas pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). A ação também prevê o sequestro de bens e valores e a suspensão das atividades econômicas de 112 empresas investigadas, das quais 96 seriam postos de combustíveis e revendas associadas.
A reportagem não conseguiu localizar a defesa dos citados. O espaço segue aberto para eventuais manifestações.





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