Um em cada quatro jovens de até 19 anos não conclui o Ensino Médio no Brasil, diz estudo

Trabalho precoce ainda afasta milhões da escola; desigualdades de renda, gênero, raça e região seguem profundas, apesar de avanços na última década

O Brasil avançou na conclusão do ensino médio nos últimos dez anos, mas ainda convive com números expressivos de evasão e profundas desigualdades sociais. Um estudo inédito do Todos Pela Educação, com base na Pnad Contínua e no Módulo Educação do IBGE, mostra que um em cada quatro jovens de até 19 anos não concluiu o ensino médio — índice que será determinante nos debates sobre o novo Plano Nacional de Educação (PNE) 2025-2035.

A taxa de conclusão passou de 54,5% em 2015 para 74,3% em 2025, um salto relevante, mas ainda distante do patamar registrado no ensino fundamental, cuja conclusão até os 16 anos chega hoje a 88,6%.

Por ser a última etapa da educação básica, os estudantes chegam ao ensino médio acumulando defasagens: lacunas no conhecimento, reprovações sucessivas e trajetórias interrompidas. Esse cenário, segundo especialistas, contribui diretamente para o abandono escolar.

Defasagens, ambiente familiar e escolaridade dos pais

Para Claudia Costin, especialista em políticas educacionais e ex-diretora global de educação do Banco Mundial, a universalização recente do ensino fundamental ajuda a explicar parte das dificuldades.

“Então, a escolaridade dos pais desses jovens é muito mais baixa”, afirma Costin à BBC News Brasil. Ela lembra que pesquisas mostram que até 68% do sucesso escolar de uma criança depende da escolaridade da mãe, o que cria ambientes familiares com menor capacidade de apoio à aprendizagem.

Segundo Manoela Miranda, gerente de Políticas Educacionais do Todos Pela Educação, muitos estudantes chegam ao ensino médio já em atraso. “Isso inclui lacunas no conhecimento e atrasos na trajetória escolar, seja por reprovações ou por ter começado a estudar tarde”, diz à BBC.

Desigualdades de renda: 23 anos até a equiparação

O estudo revela um abismo persistente entre ricos e pobres. Entre os 20% mais ricos, a taxa de conclusão cresceu de 85,2% para 94,2% entre 2015 e 2025. Já entre os 20% mais pobres, o avanço foi de 36,1% para 60,4%.

A diferença caiu de 49,1 para 33,8 pontos percentuais, mas continua significativa. Mantido o ritmo atual, só em 2048 todos terão a mesma chance de concluir o ensino médio.

Os motivos da evasão reforçam esse cenário: entre os mais pobres, 18% ainda estavam estudando aos 19 anos, mostrando atraso escolar; 8,3% disseram ter abandonado os estudos por necessidade de trabalhar (ante 2,8% dos mais ricos); e 10,6% declararam falta de interesse (ante 1,5%).

Desigualdade racial e regional

O levantamento também mostra forte disparidade racial. Em 2025, a taxa de conclusão foi de 81,7% entre brancos e amarelos, e 69,5% entre pretos, pardos e indígenas — diferença de 12,2 pontos percentuais.

Mesmo com avanços, estudantes pretos, pardos e indígenas ainda não alcançaram o nível atingido por brancos e amarelos em 2018. Se o ritmo de redução da desigualdade permanecer, a equiparação só deve ocorrer em 2041.

Regionalmente, Norte e Nordeste foram as regiões que mais avançaram, embora ainda apresentem índices inferiores aos das demais. No Nordeste, a taxa subiu de 63,6% em 2015 para 84,8% em 2025; no Norte, de 66,5% para 82,5%. A expansão do ensino integral e iniciativas como os centros de mídias do Amazonas contribuíram para o salto.

No entanto, as duas regiões seguem atrás do Sudeste (92,7%), Centro-Oeste (91,9%) e Sul (88,4%).

Caminhos para enfrentar a evasão

Para acelerar a conclusão e reduzir desigualdades, especialistas destacam políticas estruturantes. Claudia Costin defende a expansão do ensino de tempo integral — hoje presente em 24,2% das matrículas do ensino médio e 19,1% do fundamental — para permitir recuperação de conteúdos defasados e menor repetência.

Ela também ressalta a importância de melhorar a formação docente e tornar a carreira mais atrativa.

Programas de transferência condicionada de renda voltados à permanência escolar, como o Pé de Meia — que paga R$ 200 mensais a estudantes do ensino médio, além de bônus anuais — também são apontados como fundamentais. O programa já alcança 3,95 milhões de jovens, o equivalente a 50,6% das matrículas de 2024.

Outro eixo é o Novo Ensino Médio, com implementação obrigatória a partir de 2026, que amplia a carga horária diária e cria itinerários formativos alinhados ao interesse dos estudantes. “A possibilidade de o jovem escolher esse caminho que ele quer trilhar, que faça sentido pra vida dele, pode ajudar o jovem a ficar na escola”, afirma Manoela Miranda.

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