O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, suspendeu por três dias a entrada em vigor de novas tarifas de 50% sobre produtos importados do Canadá após anunciar que os dois países chegaram a um entendimento comercial. As taxas começariam a valer à meia-noite desta quarta-feira (19) e atingiriam cerca de US$ 20 bilhões em importações canadenses.
Segundo informações publicadas no portal g1, o anúncio foi feito por Trump na noite de terça-feira (18), depois de uma conversa com o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, e de semanas de negociações entre representantes dos dois governos. A trégua, porém, ainda depende da conclusão dos documentos que formalizarão o entendimento.
Trump afirmou que decidiu suspender temporariamente as tarifas “com base no fato de que o Canadá e os EUA, sujeitos à finalização dos documentos, têm um ACORDO”.
Cerca de uma hora depois, Carney adotou um tom mais cauteloso ao comentar as negociações. Segundo o primeiro-ministro, “progressos substanciais foram feitos, embora ainda haja trabalho importante a ser realizado”.
A diferença entre as declarações indica que, embora Washington considere que existe um acordo encaminhado, pontos relevantes ainda estão em negociação. Autoridades canadenses não confirmaram todos os compromissos divulgados pelo governo dos EUA.
Acesso ao mercado está entre os compromissos anunciados
Trump e Carney conversaram na tarde de terça-feira pela segunda vez nesta semana. Paralelamente, negociadores dos dois países mantiveram uma série de reuniões em busca de uma solução para a escalada das tensões comerciais.
O gabinete do Representante Comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, afirmou que o entendimento incluirá “acesso abrangente ao mercado para todos os produtos estadunidenses, compromissos de segurança econômica, alinhamento do comércio digital”, além de outras medidas.
Em comunicado divulgado pela Casa Branca, Trump afirmou ter obtido do Canadá o compromisso de enfrentar preocupações dos EUA relacionadas às tarifas aplicadas a produtos lácteos, bebidas alcoólicas e veículos.
Até o momento, porém, autoridades estadunidenses não detalharam como esses compromissos serão colocados em prática. O governo canadense também não confirmou integralmente os termos apresentados pela Casa Branca.
Carney afirmou que Ottawa continuará trabalhando nas negociações enquanto busca diminuir a vulnerabilidade econômica do país.
“Enquanto prosseguimos com esse trabalho, o Canadá permanece focado em construir uma economia mais forte, mais independente e mais competitiva em âmbito nacional”, disse Carney em seu comunicado.
Automóveis estavam no centro do impasse
O setor automotivo figurava entre os principais obstáculos para um entendimento. As partes discutiam a possibilidade de redução das tarifas dos EUA da Seção 232 sobre veículos canadenses, atualmente em 25%, para 15%.
Segundo fontes do setor familiarizadas com as negociações, reduções adicionais poderiam ser concedidas dependendo da proporção de componentes estadunidenses presente em cada veículo.
A divergência estava justamente na maneira de calcular essa participação.
Washington defendia que somente componentes efetivamente produzidos nos Estados Unidos fossem considerados para determinar eventuais deduções tarifárias. O Canadá pressionava para que todo o conteúdo produzido na América do Norte fosse contabilizado, incluindo peças canadenses e mexicanas.
Na terça-feira, o Departamento de Comércio dos EUA publicou novas regras para que montadoras exportadoras do Canadá e do México certifiquem o nível de conteúdo estadunidense presente nos veículos. A mudança reduz a frequência desse procedimento de duas vezes para uma vez por ano.
As empresas, entretanto, terão de recertificar o conteúdo dos automóveis até 30 de setembro caso pretendam reivindicar as deduções no novo ciclo anual, previsto para começar em 1º de dezembro.
Tarifa ameaçava setores da economia canadense
As tarifas de 50% anunciadas pelos Estados Unidos atingiriam aproximadamente US$ 20 bilhões em produtos importados do Canadá.
As novas taxas também seriam aplicadas independentemente de as mercadorias cumprirem os requisitos para tratamento preferencial previstos no acordo comercial entre Estados Unidos, México e Canadá, o USMCA. O tratado havia protegido uma parcela significativa da indústria canadense das medidas tarifárias adotadas anteriormente por Washington.
Especialistas em comércio internacional e representantes empresariais vinham alertando para o risco de perda de empregos e fechamento de empresas canadenses caso a nova rodada tarifária entrasse em vigor.
Madeira, vinho e produtos lácteos estavam entre os setores apontados como mais vulneráveis. Havia ainda preocupação de que a escalada da disputa pudesse contaminar as negociações mais amplas relacionadas ao USMCA.
Uma fonte do governo canadense havia afirmado na semana passada que Ottawa mantinha diferentes alternativas sobre a mesa caso as tarifas fossem efetivamente aplicadas, incluindo apoio financeiro às indústrias atingidas e até uma eventual suspensão das negociações comerciais bilaterais.
Bebidas alcoólicas também entram na negociação
As discussões se intensificaram nos últimos dias. O ministro canadense responsável pelo comércio com os Estados Unidos, Dominic LeBlanc, e a principal negociadora comercial do país, Janice Charette, estão em Washington desde a semana passada.
Na segunda-feira, os representantes canadenses participaram de uma reunião de quase duas horas com Jamieson Greer e o secretário de Comércio dos Estados Unidos, Howard Lutnick.
Greer vinha apontando como obstáculos as tarifas de retaliação adotadas pelo Canadá após as primeiras medidas dos EUA, além do sistema canadense de gestão da oferta de produtos lácteos e da decisão de algumas províncias de retirar ou deixar de estocar bebidas alcoólicas produzidas nos Estados Unidos.
O Conselho de Bebidas Destiladas dos Estados Unidos comemorou a suspensão anunciada por Trump e defendeu “uma solução negociada que permita o retorno das bebidas destiladas dos EUA às prateleiras dos varejistas em todas as províncias canadenses e restabeleça o setor de bebidas destiladas a um regime tarifário de zero por zero”.
A retirada de bebidas estadunidenses das prateleiras havia se transformado em uma das manifestações mais visíveis da disputa comercial entre os dois países.
Trump cita possível retorno do Keystone XL
Ao anunciar a suspensão das tarifas, Trump também voltou a mencionar o oleoduto Keystone XL, projeto que durante anos provocou disputas políticas e ambientais nos Estados Unidos e no Canadá.
O empreendimento foi cancelado pelo então presidente Joe Biden em 2021, após forte oposição de grupos ambientalistas e de povos indígenas.
Trump afirmou que o Keystone XL “pode ressurgir das cinzas”, mas não apresentou informações sobre eventual negociação para retomar o empreendimento nem explicou se o tema integra o entendimento comercial anunciado com o Canadá.
Desde o retorno à Casa Branca, Trump colocou as tarifas no centro de sua estratégia econômica e comercial, utilizando a ameaça de aumento das taxas como instrumento de negociação com parceiros dos Estados Unidos.
A política, no entanto, enfrenta questionamentos jurídicos e críticas de economistas e representantes de setores produtivos, sobretudo pelos possíveis impactos das barreiras comerciais sobre preços, cadeias produtivas e empregos.







Deixe um comentário