Tráfico obriga empresa de ônibus a abandonar garagem em Vigário Geral

Com extorsões, ameaças e barricadas impostas por traficantes do TCP, Viação VG transfere sede operacional e expõe rotina de violência no Complexo de Israel

A pressão imposta pelo tráfico de drogas levou a Viação VG, tradicional empresa de transporte público da Zona Norte do Rio, a abandonar sua garagem localizada em Vigário Geral. De acordo com reportagem do jornal O Globo, publicada nesta quarta-feira (25), a empresa passou a operar a partir das instalações da Viação Nossa Senhora de Lourdes, na Penha, distante cerca de seis quilômetros.

Funcionários relataram sob anonimato uma rotina marcada por extorsões, assaltos e intervenções constantes de criminosos. Os coletivos eram forçados a transportar passageiros sem cobrança de tarifa, e bandidos exigiam pagamentos regulares para permitir a circulação dos ônibus. Além disso, segundo os relatos, integrantes do tráfico invadiam frequentemente a garagem apenas para usar os banheiros, em mais um episódio de intimidação e imposição de domínio territorial.

Barricada do tráfico impedia acesso à garagem

Segundo pessoas ligadas à empresa, o acesso à garagem também era dificultado por uma barricada montada por criminosos na Rua Valentim Magalhães, onde fica a sede da VG. Funcionários precisavam desmontar e remontar a estrutura toda vez que os ônibus saíam ou retornavam da operação, evidenciando o controle físico e simbólico do território pelo tráfico.

A Polícia Civil informou que, embora nenhum representante da Viação VG tenha procurado formalmente a 38ª DP (Brás de Pina), uma investigação foi aberta de ofício, e os responsáveis pela empresa já foram convocados a prestar esclarecimentos. Diligências estão em curso. Já a Polícia Militar, por meio do 16º BPM (Olaria), declarou que não foi acionada pela empresa, mas realiza patrulhamento ostensivo na área e abordagem de suspeitos.

O Rio Ônibus, sindicato que representa as empresas do setor, confirmou as dificuldades operacionais enfrentadas pela VG e afirmou, em nota, que a mudança se deu porque a sede estava situada em uma área dominada por grupos criminosos. A Viação Nossa Senhora de Lourdes, líder do Consórcio Internorte, estaria prestando apoio logístico temporário à VG até que a situação seja resolvida.

Em seis meses, 66 linhas afetadas por confrontos armados

A violência na região tem impacto direto sobre o transporte público. Dados do Rio Ônibus apontam que, entre janeiro e junho deste ano, 66 linhas precisaram ser desviadas durante ações policiais ou confrontos armados no Complexo de Israel, em pelo menos seis ocasiões distintas. O sindicato também informou que quatro ônibus foram sequestrados e usados como barricadas por traficantes no mesmo período.

O Complexo de Israel — que inclui, além de Vigário Geral, as comunidades Parada de Lucas, Cinco Bocas, Cidade Alta e Pica-pau — está sob o controle do traficante Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão (foto)o, ligado ao Terceiro Comando Puro (TCP). Segundo as investigações policiais, Peixão é responsável pela instalação de câmeras de vigilância nas comunidades e pela criação de barreiras, inclusive escavações profundas que impedem totalmente a passagem de veículos.

Além da coação direta a empresas e moradores, o grupo liderado por Peixão tem ordenado ataques a ônibus e ações contra a polícia. Em outubro do ano passado, um desses ataques resultou na morte de três pessoas e deixou outras três feridas na Avenida Brasil.

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