Traficante que paga propina a PMs no Alemão montou piscina e centro cirúrgico para fazer lipo em casa e evitar prisão

Procurado desde 2018, “Professor” comanda compras de armas e drogas, além de manter influência com ações assistenciais na comunidade

Phillip da Silva Gregório, conhecido como “Professor”, é hoje um dos principais chefes do Comando Vermelho no Rio de Janeiro. Com 37 anos, o traficante comanda de dentro do Complexo do Alemão um dos principais braços da facção, responsável pela compra e distribuição de armas e drogas. Mesmo foragido desde 2018, após fugir de um presídio estadual, ele nunca deixou a favela, onde montou uma base pessoal com estrutura médica e de lazer.

Segundo informações da Polícia Federal e de investigações reveladas pelo g1, Professor vive recluso há cinco anos por medo de ser preso novamente. Nesse período, transformou a comunidade em sua fortaleza particular. Dentro das favelas, construiu uma residência com piscina e hidromassagem e implementou um centro cirúrgico clandestino, onde já se submeteu a procedimentos como implante capilar, lipoaspiração e até a retirada de estilhaços de bala da cabeça.

“Eeee aumentei a laje. Comprei a casa do lado e botei uma piscina e uma hidro maior”, contou o traficante, em tom de celebração, em um telefonema interceptado pelas autoridades, dirigido a um parceiro no Paraguai.

Em outra conversa, de janeiro de 2022, Professor relatou: “Tô nem com energia não. Eu fiz uma cirurgia não te falei. Tirei um estilhaço de bala que tava na minha cabeça um tempão.”

Esquema de propina e influência sobre operações policiais

As investigações da Polícia Federal revelaram que Professor comanda um esquema de pagamento de propina a agentes de segurança para garantir a ausência de operações policiais nas áreas dominadas pelo Comando Vermelho. Em uma das mensagens interceptadas, um policial chega a reclamar do valor pago pela quadrilha. Em outra, datada de fevereiro de 2022, o traficante demonstra insatisfação com ações da polícia em suas comunidades, apesar dos pagamentos.

Ascensão e trajetória criminosa

A atuação de Phillip no mundo do crime remonta a mais de uma década. Em 2012, ele foi preso em flagrante com comprovantes de depósitos bancários feitos a traficantes da Nova Brasília, uma das comunidades do Complexo do Alemão. Em sua residência, foram apreendidas anotações contábeis detalhadas, e ele passou a responder por lavagem de dinheiro e ocultação de bens.

Três anos depois, em 2015, foi novamente capturado, desta vez em um sítio em Seropédica usado como entreposto de armas, drogas e munições. No local, a PF encontrou 100 quilos de cocaína. Escutas telefônicas autorizadas judicialmente indicam que, em apenas duas semanas, Professor movimentou R$ 1 milhão em transações ilegais.

Levado ao sistema penitenciário, passou por unidades como Bangu 3, Instituto Moniz Sodré e Edgard Costa, de onde fugiu em 28 de setembro de 2018. Desde então, nunca mais foi recapturado.

O “matuto” da facção e o sucessor de Beira-Mar

Reinstalado no Alemão, Professor ascendeu dentro da facção, sendo apontado como o “matuto” — termo usado no tráfico para se referir ao responsável por comandar o negócio e fazer negociações nacionais e internacionais. Para investigadores, ele é visto como uma espécie de sucessor de Fernandinho Beira-Mar, preso desde 2000, e carrega o mesmo apelido de um dos fundadores do Comando Vermelho, William da Silva, conhecido também como “Professor”.

A partir de 2020, seu nome passou a surgir em investigações sobre confrontos com a polícia, e ele passou a ser reconhecido pessoalmente por agentes durante trocas de tiros, não se limitando mais apenas ao papel de articulador. Um vídeo que circulou nas redes sociais em 2021 mostrava fuzis com seu nome, demonstrando sua relevância e poderio no grupo.

Assistencialismo como escudo social

Paralelamente à sua atuação armada e à logística da facção, Professor mantém uma política de assistência informal aos moradores da comunidade, em estratégia que busca legitimar sua presença e criar um ambiente de lealdade.

Entre suas ações, destacam-se a distribuição de brinquedos em datas comemorativas como Dia das Crianças e Natal, a compra de remédios para moradores carentes e o financiamento de eventos culturais, como bailes funks e pagodes. Tais práticas reforçam sua imagem como líder benevolente aos olhos de parte da população local, dificultando a ação das forças de segurança.

Apesar de estar foragido há mais de seis anos e de já ter escapado do cerco policial diversas vezes, Phillip da Silva Gregório permanece como um dos nomes mais influentes do tráfico no Rio de Janeiro. Sua atuação multifacetada — que mistura comando armado, lavagem de dinheiro, articulação internacional e populismo local — reforça o desafio enfrentado pelo Estado no combate às grandes lideranças do crime organizado.

Mais recentes

Descubra mais sobre Agenda do Poder

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading