Teatro Carlos Gomes vai ser reaberto com musical sobre Bibi Ferreira no palco onde a atriz fez história

Com ingressos a preços populares, espetáculo conta trajetória pessoal e profissional de Bibi

Informações e texto de reportagem de O Globo.

“O ano era 2018. Na plateia do Teatro Casa Grande, camuflada em meio ao público, estava Bibi Ferreira (1922-2019), que, aos 95 anos, assistia a uma peça de teatro pela última vez. A escolha do espetáculo não foi por acaso. No palco, Amanda Acosta protagonizava “Bibi, uma vida em musical”, tributo à artista, grande dama do teatro brasileiro, que estrelou mais de 170 espetáculos ao longo de sete décadas de carreira.

Amanda Acosta 9de vermelho) e os atores Gottsha, Fabrício Negri e Chris Penna
Amanda Acosta , de vermelho) e os atores Gottsha, Fabrício Negri e Chris Penna — Foto: Ana Branco

— Entramos com a Bibi no teatro vazio, antes de o espetáculo começar. Em volta dela, ficaram 40 pessoas da equipe, para ninguém perceber que ela estava ali, a pedido da família e dos médicos. Quando a Amanda começou a cantar “La vie en rose”, de Édith Piaf, ela cantou junto, da plateia, e todos se levantaram. Foi uma emoção enorme — relembra o diretor Tadeu Aguiar.

Seis anos, 44 prêmios e 200 mil espectadores depois, o espetáculo que já percorreu 16 cidades do país volta ao Rio para uma temporada com ingressos a preços populares no Teatro Municipal Carlos Gomes, que reabre após três anos fechado para uma ampla reforma. Com 152 anos, o Carlos Gomes é um dos palcos mais tradicionais da cidade, onde a própria Bibi fez história com vários projetos. Dentre eles, o teatro de revista “Escândalos”, em cartaz à época do segundo dos três incêndios sofridos pelo edifício, em 1950.

Escrito por Artur Xexéo (1951-2021) e Luanna Guimarães, “Bibi uma vida em musical” conta com um elenco de 18 atores — entre eles Chris Penna e Gottsha — e se debruça sobre um recorte temporal que vai dos 19 aos 92 anos da homenageada.

— O Xexéo e a Luana escreveram um texto muito poético. A história passa por todas as fases da vida de Bibi. O primeiro número traz ela vendo o próprio nascimento, já adulta, e dizendo “eu quero ser uma atriz” — conta Aguiar.

Embalados por 33 canções, os intérpretes traçam o perfil da também diretora e produtora, a partir de suas trajetórias pessoal, profissional, amorosa e, em especial, familiar. Filha da bailarina espanhola Aída Izquierdo e do ator Procópio Ferreira, ela estreou na profissão quando tinha apenas 20 dias de nascida.

— Os pais dela estavam fazendo um espetáculo e a boneca que ia participar do ato sumiu. A Bibi estava nas coxias, com uma cuidadora. E eles resolveram pegá-la para entrar em cena — conta Tadeu.

Veterana quando o assunto é musical, Amanda — que, assim como Bibi, já estrelou uma montagem de “My Fair Lady” — é categórica ao cravar esse como o maior desafio de sua carreira. A personagem, inclusive, lhe rendeu 11 prêmios.

— Prefiro não pensar no peso que é interpretá-la, porque é uma mulher conhecidíssima. Ela tinha um físico e uma voz muito marcantes. E toda a transformação que faço dela ocorre em cena, a partir desse físico e dessa voz que vão envelhecendo ao longo da dramaturgia. Não tem maquiagem, é apenas peruca, roupa e muita prática para condicionar o corpo — conta.

Foi Tadeu, que já tinha trabalhado com Amanda, quem a indicou para o papel, depois de ser convidado pelas produtoras Claudia Negri e Thereza Tinoco para comendar o elenco.

— Ela é uma atriz muito estudiosa. Precisávamos de alguém com esse perfil para entender a alma de Bibi Ferreira — avalia o diretor, que chegou a dividir o palco com Bibi.

Para Amanda, a força e importância de Bibi vão além de sua excelência no palco.

— A gente narra a trajetória de uma atriz que tinha a própria companhia na década de 1940. Naquele tempo, Bibi já era dona de si e fazia o queria. A história dela atravessa a do teatro brasileiro. Ela tem uma representatividade feminina enorme.

Palco familiar

Cenário de muitas apresentações de Bibi ao longo dos 76 anos dedicados à dramaturgia, Teatro Carlos Gomes foi onde ela viveu um dos divisores de água de sua carreira teatral, durante a década de 1960.

— Ele tem a cara do teatro da peça, que usa da metalinguagem. Foi lá, por exemplo, onde Bibi Ferreira se apresentou com “My Fair Lady”, primeiro grande musical da Broadway produzido no Brasil — explica Aguiar.

Na mesma linha, a protagonista endossa a importância da casa para o circuito teatral da cidade.

— Estamos ansiosos para estar nesse palco, onde a Bibi se apresentou com clássicos. É um teatro histórico, que demorou para ser reformado. Mas que bom que esse dia chegou. Esse lugar que foi um dos maiores polos culturais da América Latina. Acontecia de tudo na Praça Tiradentes — destaca Amanda.

Uma atriz importante, um teatro importante. Para o diretor Tadeu Aguiar, a união dá liga:

— As pessoas que conhecem a Bibi vão sair de lá muito emocionadas. As que não conhecem têm a chance de aprender sobre ela e também a história do teatro brasileiro, do Rio de Janeiro e do Brasil.

Programe-se:

Onde: Teatro Carlos Gomes. Praça Tiradentes s/nº, Centro. Quando: Qui e sex, às 19h. Sáb e dom, às 17h. Reestreia sexta (26). Até 18 de agosto. Quanto: R$ 60. Classificação: 10 anos.

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