TCE recebe denúncia contra Banco Master por consignados no RJ

O deputado Flávio Serafini aponta que contratos vinculados ao CredCesta permitiram descontos superiores a 50% da renda de servidores estaduais

Uma representação protocolada no Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ) colocou o Banco Master e a empresa PKL One, responsável pela operação do cartão CredCesta, no centro de uma nova controvérsia envolvendo empréstimos consignados para servidores estaduais.

O caso foi revelado pelo RJ2, da TV Globo, nesta sexta-feira (29), e tem como base uma representação apresentada pelo deputado estadual Flávio Serafini (PSOL). O documento questiona mudanças promovidas pelo governo estadual entre 2021 e 2025 que ampliaram a margem de desconto em folha dos servidores públicos.

Segundo a denúncia, as alterações abriram espaço para que parte dos funcionários públicos comprometesse mais da metade dos rendimentos mensais com operações financeiras vinculadas ao CredCesta.

Margem ampliada

De acordo com a representação, o limite tradicional de comprometimento da renda dos servidores era de 40%. No entanto, decretos estaduais teriam criado uma margem adicional de 20% destinada ao uso de um cartão de benefícios que permite saques e compras.

Na prática, segundo o documento encaminhado ao TCE, a mudança possibilitou que descontos em folha ultrapassassem 50% dos vencimentos de alguns servidores.

A denúncia também destaca que o decreto regulamentando o produto foi publicado em maio de 2021 e que, apenas cinco dias úteis depois, a empresa PKL One recebeu credenciamento da Casa Civil para operar o CredCesta junto ao funcionalismo estadual.

R$ 5,5 bilhões em contratos

Os dados apresentados na representação indicam que existem atualmente mais de 150 mil contratos ligados ao CredCesta e ao Banco Master entre servidores estaduais. Segundo o documento, essas operações movimentariam aproximadamente R$ 5,5 bilhões.

O texto sustenta ainda que os contratos associados ao cartão teriam sido firmados com taxas consideradas excessivas, chegando a 6% ao mês.

Juros acima de 100% ao ano

Um dos principais pontos levantados na representação é o nível das taxas cobradas nos contratos.

Segundo a denúncia, os juros podem superar 100% ao ano, percentual que, de acordo com o documento, está muito acima das taxas praticadas em empréstimos consignados do INSS.

O texto também apresenta exemplos de servidores que teriam ficado com valores residuais extremamente baixos após os descontos em folha. Em um dos casos citados, o saldo líquido disponível ao trabalhador teria sido de apenas R$ 2,83.

Pedido de auditoria

Além da suspensão imediata dos descontos relacionados ao CredCesta, a representação pede uma série de medidas ao Tribunal de Contas.

Entre elas estão a realização de auditoria no sistema, a quebra de sigilo de processos administrativos relacionados ao credenciamento e o envio das informações para órgãos como Ministério Público, Polícia Federal, Banco Central e Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Segundo Flávio Serafini, os elementos reunidos no documento apontam para uma cobrança que precisaria ser interrompida até que as investigações sejam concluídas.

O que diz o governo

Em nota, o Governo do Estado do Rio de Janeiro afirmou que a Secretaria da Casa Civil possui competência apenas para o credenciamento das instituições consignatárias e para o processamento dos descontos em folha.

O Executivo ressaltou que não participa das relações contratuais firmadas entre servidores e instituições financeiras, as quais são reguladas pelo Banco Central.

Sobre o CredCesta, o governo informou que o produto foi disponibilizado por instituição regularmente credenciada, em conformidade com a legislação vigente à época.

A administração estadual também declarou que permanece à disposição dos órgãos de controle para prestar todos os esclarecimentos necessários.

Com o protocolo da representação, caberá agora ao Tribunal de Contas analisar os pedidos formulados e decidir se haverá abertura de procedimentos de fiscalização e auditoria.

Deixe um comentário

Mais recentes

Descubra mais sobre Agenda do Poder

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading