STF julga suspensão de ‘penduricalhos’ por Dino e deve manter veto a supersalários

Plenário analisa decisões de Flávio Dino e Gilmar Mendes que barram verbas acima do teto; Congresso terá 60 dias para propor regra de transição

O Supremo Tribunal Federal julga nesta quarta-feira as decisões que suspenderam o pagamento de penduricalhos no serviço público sem previsão legal. A tendência entre os ministros é confirmar as medidas adotadas por Flávio Dino e Gilmar Mendes, embora haja críticas pontuais ao formato das decisões individuais.

Nos bastidores, integrantes da Corte avaliam que eventuais ressalvas serão técnicas, sem alterar o mérito das determinações. Caso o entendimento seja referendado, ficará consolidado um freio imediato à criação de novas verbas que permitam salários acima do teto constitucional.

A análise ocorre em meio à articulação entre Judiciário e Legislativo para construir uma solução definitiva para o tema, que deve passar pelo Congresso Nacional.

Grupo de trabalho para regra de transição

Na véspera do julgamento, o presidente do STF, Edson Fachin, reuniu-se com os presidentes da Câmara e do Senado — Hugo Motta e Davi Alcolumbre — para definir a criação de um grupo de trabalho com prazo de 60 dias.

O colegiado terá representantes dos Três Poderes, do Ministério Público e do Tribunal de Contas da União. A missão será formular uma proposta de transição após as decisões recentes do Supremo.

A avaliação predominante é que a regulamentação definitiva da política remuneratória do funcionalismo deve ocorrer por meio de lei, possivelmente no âmbito da Reforma Administrativa em discussão na Câmara.

O que dizem as decisões dos ministros

No início do mês, Flávio Dino determinou que órgãos da União, estados e municípios revisem, em até 60 dias, as verbas pagas a agentes públicos. Valores sem previsão legal deverão ser suspensos.

Na semana passada, o ministro também proibiu a aplicação de novas normas que criem parcelas capazes de ultrapassar o teto constitucional.

Já Gilmar Mendes condicionou o pagamento de verbas indenizatórias no Judiciário e no Ministério Público à existência de lei aprovada pelo Congresso, fixando o mesmo prazo para a interrupção de pagamentos baseados apenas em regras locais.

Teto constitucional e impacto dos penduricalhos

Pela Constituição, nenhum servidor pode receber acima do salário dos ministros do STF, hoje em R$ 46.366,19. Na prática, porém, auxílios e indenizações elevaram remunerações além desse limite, muitas vezes sem incidência de Imposto de Renda.

Levantamento com base em dados do Conselho Nacional de Justiça aponta que o gasto com penduricalhos do Judiciário subiu de R$ 7,2 bilhões em 2024 para R$ 10,3 bilhões em 2025 — alta de 43% já considerada a inflação.

A expansão dessas verbas foi classificada por Dino como uma “multiplicação anômala” de indenizações usadas para contornar o teto.

Recados ao Congresso e limites das decisões individuais

Durante o julgamento, ministros devem discutir também os limites das decisões monocráticas em temas de grande impacto e reforçar a necessidade de o Congresso regulamentar as verbas indenizatórias previstas na Constituição.

O entendimento interno é que o Parlamento precisa assumir o protagonismo na definição das regras permanentes, enquanto o Supremo fixa balizas para evitar distorções.

Ao impedir a criação de novos passivos e o reconhecimento de retroativos acima do teto, a decisão também bloqueia uma corrida administrativa por pagamentos antes da conclusão do processo.

Tensão interna e termômetro da Corte

O julgamento ocorre em meio a debates internos sobre o novo Código de Conduta do tribunal e aos desdobramentos do caso Master, sendo visto por ministros como um teste de coesão em um tema sensível que envolve a própria estrutura do sistema de Justiça.

A determinação de revisão das verbas em até 60 dias também cria um novo desafio administrativo para Fachin, que preside o STF e o CNJ, responsáveis pela fiscalização da magistratura.

Nos bastidores, há consenso de que a discussão sobre o teto do funcionalismo se tornou inevitável diante da multiplicação de benefícios pagos fora do limite constitucional e da pressão por maior controle dos gastos públicos.

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