Era uma vez, num espacinho de meros 30 metros quadrados da Rua do Ouvidor, no coração do Guanabara, onde as últimas novidades da moda da Europa chegavam primeiro aos trópicos. Nas décadas seguintes, a Sloper se tornou muito mais do que uma simples casa de comércio; ela foi a passarela onde a alta sociedade carioca encenava diariamente o ritual da elegância. Se hoje a região é tomada pelo comércio popular e pelos vendedores ambulantes que oferecem de camisas tailandesas a eletrônicos chineses, antes o cenário era outro. Ali, onde o cheiro de pó de arroz disputava espaço com a lavanda importada, funcionava um templo do consumo mais refinado.

A Sloper vendia de tudo: do espartilho que modelava as silhuetas das grandes damas às camisas sociais que vestiam os ministros, passando pelas cartolas que um dia fizeram a cabeça dos cavalheiros da alta sociedade. A loja era um personagem urbano, um ponto de encontro entre o brilho das vitrines e o cotidiano apressado de uma cidade em transformação. Nas décadas de 1930 a 1950, a fachada de sua sede, na esquina da Ouvidor com Uruguaiana, e seus interiores elegantes figuravam em qualquer conversa como símbolo de bom gosto e modernidade.

Muito antes do termo virar modinha, ela oferecia aquilo que hoje você vê em qualquer catálogo de guia de viagens, ou descrição de pousada rústica da Serra Fluminense: “uma experiência”. Era destino de passeio, conversa e até encontro, um lugar onde as compras se confundiam com espetáculo social. Um símbolo de um Rio que não existe mais.

Prédio da loja Sloper ficava na Rua Uruguaiana, esquina com a Travessa do Rosário | Crédito: Reprodução

História

A Casa Sloper nasceu em 1899 como uma pequena loja de 30 metros quadrados na Rua do Ouvidor. Com o tempo, transformou-se em um verdadeiro magazine de luxo, vendendo joias, roupas, cristais, brinquedos e até artigos de cama e mesa.

Nos anos 1930 a 1950, atingiu seu apogeu, empregando cerca de 1,8 mil funcionários e abrindo filiais em diversos estados brasileiros.

A loja se tornou tão presente na vida cultural carioca que foi até mencionada em músicas e novelas, como Bijuterias, de João Bosco e Aldir Blanc, tema da novela global O Astro. Era mais que comércio: era parte da memória afetiva da cidade.

Henry Willmott Sloper, o fundador, era um comerciante inglês que trouxe ao Brasil um conceito de loja inspirado nos grandes e modernos magazines europeus. Sua visão era transformar o ato de comprar em uma experiência sofisticada, quase teatral.

Por que ela se tornou tão badalada?

Localização é tudo, e a Sloper estava no epicentro do poder. A Rua do Ouvidor era, até meados do século XX, o salão de visitas do Brasil. Era por ali que desfilavam políticos, poetas, artistas e a elite cafeeira. E estar na Sloper era estar na vitrine da sociedade.

A loja tornou-se símbolo de status por reunir em um só lugar artigos, muitas vezes importados ou inspirados em moda internacional, e um modelo de atendimento sempre inspirado no último grito das boutiques europeias e americanas.

Ir à Sloper era quase um ato cerimonial | Crédito: Reprodução

O cheiro do luxo

O apogeu da empresa na década de 1950 foi marcado pela inauguração do edifício art déco na esquina da Ouvidor com Uruguaiana. Com vitrines amplas e fachada moderna para a época, era um marco arquitetônico no centro. Mais do que uma loja, a Sloper era uma experiência sensorial, e o nariz aqui tinha um papel fundamental. Qualquer relato de cliente antigo ou ex-funcionário traz invariavelmente uma descrição olfativa da loja.

E isso não era fruto do acaso. A seção de perfumaria, uma das mais fortes da casa, ficava estrategicamente posicionada no andar térreo, perto da entrada. Os vidros abertos para demonstração, as amostras grátis distribuídas às freguesas e os sachês de alfazema colocados entre as roupas íntimas criavam uma “assinatura olfativa” da loja.

“Entrar na Sloper era como abrir um porta-joias antigo”, descreveu certa vez o cronista Carlos Eduardo Novaes. “Havia um silêncio respeitoso, um ar meio rarefeito, e aquele cheiro de coisa guardada, de armário de mãe, de banho tomado para ir à missa.”

Elegância em primeiro lugar

Se a mercadoria era fina, o tratamento não podia ser diferente. E nos anos dourados, os elevadores da Sloper tinham ascensoristas que usavam uniformes impecáveis, numa clara alusão aos grandes hotéis europeus. Os registros das memórias de antigos funcionários descrevem uniformes que eram verdadeiras fardas de gala.

Os homens, geralmente jovens de boa aparência, vestiam paletós cruzados azul-marinho ou cinza, com botões dourados e quepe. “Não era só apertar o botão”, contou um ex-funcionário ao site “Rio Memórias”. “A gente tinha que anunciar os andares com clareza, abrir e fechar a porta sanfonada com cuidado e ter um sorriso educado no rosto o tempo todo. Éramos a recepção da loja.”

Loja chegou a ter filial em Petrópolis | Crédito: Reprodução

Mas as vendedoras sofriam…

É humanamente inaceitável, mas, sim, embora não haja fontes formais que registrem uma regra escrita proibindo as vendedoras de se sentar, depoimentos de ex-funcionárias a jornais e pesquisadores ao longo do tempo confirmam a prática. Que cá entre nós acontece até hoje em dia, como se sabe.

As vendedoras da Sloper eram personagens do imaginário carioca. Cultuadas como ícones de estilo, elas eram rigorosamente selecionadas e treinadas. A justificativa, segundo a administração da época, era estética e funcional: uma vendedora sentada transmitia preguiça e desleixo, algo incompatível com o dinamismo da Sloper.

A loja oferecia ainda descontos e facilidades para que as vendedoras adquirissem as peças e se tornassem vitrines ambulantes. “Elas eram as modelos da loja”, lembra a historiadora Maria Alice Rezende. “Se uma cliente via uma vendedora com um vestido impecável, ela queria aquele vestido. Elas ditavam tendências dentro do balcão.” Vestidas com o que havia de melhor e com cabelos perfeitamente arrumados, elas representavam o ideal de feminilidade e distinção que a Sloper vendia naqueles tempos.

A etiqueta da compra

Nos chamados “Anos Dourados”, comprar na Sloper era quase um ato cerimonial. Essa etiqueta fazia parte da identidade da loja: não se tratava apenas de vender, mas de oferecer uma experiência que reafirmava o lugar do cliente na hierarquia social carioca.

Não existia a figura do “self-service” à la Zara. O cliente era recebido na porta, conduzido até o setor desejado e atendido por um vendedor especializado. Para as freguesas mais antigas, havia até a “caderneta”, onde as compras eram penduradas para pagamento no fim do mês, um sistema de crédito baseado na confiança e no prestígio social.

Até mesmo as embalagens eram um capítulo à parte. As caixas de papelão eram de um azul-petróleo característico, fechadas com lacre e um cordão dourado. Dentro, os produtos vinham envoltos em papel de seda. “A sacola da Sloper era um troféu”, brinca o pesquisador Antônio Carlos Gomes. “Sair da loja com aquele embrulho debaixo do braço era um sinal visível de que você pertencia a um certo grupo. As pessoas olhavam. Era uma publicidade ambulante que a loja não precisava pagar.”

O ritual se estendia à entrega, feita por funcionários de uniforme impecável em caminhonetes charmosas, levando as compras aos endereços mais nobres da Zona Sul.

Todo o processo de comprar na Sloper é o que hoje chama-se de ‘experiência’ | Crédito: Reprodução

Como a Sloper acabou?

Bom, como tudo que entrou em decadência depois que a capital deixou a Guanabara e foi para aquela terra seca e vermelha no meio do país, a partir da década de 1970 o Centro da cidade, antes passarela da elite, já não era mais o mesmo.

A Sloper, com sua aura de tradição, não conseguiu acompanhar o ritmo das mudanças. Nos anos 1980 vieram os shopping centers e a expansão de novas redes, mais agressivas comercialmente, como a Mesbla, que alteraram profundamente o varejo carioca. O que antes era símbolo de status foi tornando-se, aos poucos, uma lembrança nostálgica.

A rede entrou em rota decrescente e progressiva até encerrar as atividades, sem muito choro nem vela, nos anos 1990.  Com o encerramento definitivo o badalado edifício sede foi adaptado para novos usos comerciais. Ele deixou de ser uma grande loja única e passou a abrigar diferentes estabelecimentos, seguindo a lógica mais fragmentada do comércio contemporâneo do Centro.

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