Pela primeira vez desde sua criação, em 1991, a tradicional Via Sacra da Rocinha não será realizada por motivos financeiros. O cancelamento ocorre justamente no ano em que o espetáculo completaria 33 edições — mesma idade atribuída a Jesus Cristo no momento de sua morte — e marca a primeira suspensão do evento fora do contexto da pandemia da Covid-19, quando o isolamento social impediu qualquer manifestação cultural nas ruas.
A encenação, que percorre 2,7 quilômetros da comunidade da Zona Sul do Rio, sempre foi mantida com o esforço coletivo de moradores e pequenos comerciantes locais. Desde 2015, o projeto não conta com apoio público. O diretor e idealizador do espetáculo, Aurélio Mesquita, lembra que, mesmo quando uma verba chegou a ser aprovada, ela foi retirada pouco antes do evento. “Em 2016, chegamos a ter a verba aprovada, mas faltando 15 dias para a apresentação a secretaria deu para trás”, contou. Desde então, o projeto tem sobrevivido com doações e ajuda voluntária. “O máximo que conseguimos foi a ajuda de uma empresa de luz e som que doava os equipamentos.”
Neste ano, no entanto, os custos subiram para R$ 469 mil, inviabilizando a realização da peça. Mesquita explica que o projeto foi inscrito na Lei Estadual de Incentivo à Cultura, mas acabou rejeitado por ultrapassar o limite de R$ 200 mil permitido para proponentes registrados como MEI. “Nos informaram que não podiam indicar uma empresa para patrocinar o espetáculo nem investir dinheiro público”, afirmou, após uma reunião com a Secretaria de Cultura do Estado em fevereiro.
Aurélio também tentou apoio da prefeitura, mas diz que não teve resposta. A Secretaria Estadual de Cultura informou que o proponente poderá reapresentar o projeto com valores adequados até 30 de novembro, prazo final do sistema Desenvolve Cultura.
Inspirado em uma montagem que assistiu no Sesc da Tijuca no fim dos anos 1980, Mesquita levou a ideia à Rocinha, aproveitando o terreno acidentado e envolvendo moradores como atores. O percurso partia do Largo do Boiadeiro até a Paróquia Nossa Senhora da Boa Viagem e o espetáculo reunia mais de cem atores em cena.
“Faltam reconhecimento e valorização a um projeto que já virou uma tradição na cidade. Por conta das dificuldades financeiras, achei melhor cancelar. Vamos nos organizar para o ano que vem termos condições de colocar um espetáculo decente na rua, do jeito que o morador da Rocinha merece”, afirmou Mesquita.
A Via Sacra da Rocinha foi reconhecida como Patrimônio Cultural e Imaterial da Cidade do Rio em 2015, por projeto de lei promulgado pela Câmara Municipal.
Com informações de O GLOBO.





