O que acontece quando um jovem da periferia deixa de ser personagem e passa a ser autor da própria história? A pergunta não é apenas uma reflexão, ela sintetiza uma mudança de posição histórica. Segundo especialistas, durante décadas, as favelas brasileiras foram retratadas a partir de lentes externas, quase sempre associadas à violência, à ausência, ao problema social. Agora, em diferentes territórios do Rio, jovens estão virando potenciais cineastas e reescrevendo esse enquadramento. 

As iniciativas partem de dois projetos distintos, mas com um objetivo bem semelhante: transformar o acesso ao audiovisual em ferramenta de formação, identidade e enfrentamento simbólico. 

No Cinema di Cria, projeto que atua em comunidades como Cidade Alta, Vila Aliança e Complexo do Chapadão, o ponto de partida foi a inquietação de um motoboy que queria contar as próprias histórias.

“Moro em um lugar periférico, morei a minha vida toda, e a gente nunca tem acesso a esse tipo de arte, cinema, audiovisual”

Danilo Alves, cineasta idealizador do Cinema di Cria

Sem acesso, sem estrutura e sem orientação técnica, ele decidiu criar o próprio caminho. “Eu comecei a querer, de fato, contar as histórias que sempre estiveram presentes na minha vida. Só que quando eu cheguei nos territórios de onde eu venho, não tinha apoio, não tinha quem chegasse e tivesse qualificação suficiente para poder me ajudar a transformar tudo aquilo que estava na minha cabeça em filme. Então, eu comecei a de fato qualificar a galera para poder trabalhar nos meus projetos.”

Documentário Meninos da Favela | Crédito: Arquivo pessoal / Cinema di Cria

O que começou como tentativa individual virou movimento coletivo. “Para minha grata surpresa, conforme eu ia ensinando a galera eles iam se empolgando cada vez mais, às vezes até mais que eu. E muitos desses garotos hoje trabalham com cinema, trabalham com arte.”

Em outra ponta da cidade, o Circuito Cine Curta percorre escolas públicas oferecendo formação audiovisual estruturada, com oficinas que passam por roteiro, produção, som, fotografia, edição e finalização. O projeto nasceu em 2010, a partir de exibições públicas em praças, e conta com o apoio do Ministério da Cultura.

“O Circuito Cine Curta nasceu a partir do Curta na Praça, que é um projeto de exibição de filmes brasileiros de curta-metragem em grandes praças no Rio. Nós percebemos que era legal levar para dentro das escolas e, agora, ele evoluiu e, além de levarmos os filmes para as escolas, estamos oferecendo oficinas de formação em audiovisual”, explica Juliana Teixeira, idealizadora do projeto.

A reportagem ouviu os criadores das iniciativas e especialistas em educação e audiovisual para compreender o impacto desses projetos. Em comum, todos apontam que colocar a câmera nas mãos de jovens das periferias não é apenas uma ação cultural, mas um gesto político e simbólico que altera quem tem o direito de contar essas histórias.

O cinema como ferramenta de sobrevivência simbólica

Antes de virar projeto, o cinema foi ferramenta de denúncia na vida de Danilo. Ele relembra que tudo se intensificou durante a chamada “máfia dos reboques”, quando, segundo o cineasta, motociclistas tinham seus veículos apreendidos. 

“Eu sou motoboy e o cinema surgiu na minha vida por conta da moto. Na época da máfia dos reboques aqui no Rio de Janeiro, existia uma covardia muito grande. Eles começaram a pegar a moto de todo mundo”, narrou.

Veio a pandemia. As ruas esvaziaram. “Só quem podia sair eram bombeiros, policiais, médicos que estavam em serviço e os motoboys. Eu fiz um documentário porque queria que as pessoas soubessem o que a gente estava fazendo naquele momento, eu queria que as pessoas tivessem noção que aquela era categoria que, até pouco tempo atrás, estava sendo xingada.”

A câmera virou instrumento de visibilidade. Nas oficinas do Cinema di Cria, o impacto vai além da técnica. Em uma das primeiras gravações na Cidade Alta, ele se deparou com crianças brincando com réplicas de armas feitas de papelão. 

Crianças brincando com réplicas de armas feitas de papelão na Cidade Alta | Crédito: Arquivo pessoal / Cinema di Cria

“Aquilo meio que foi impactante para mim, porque até a réplica que eles faziam de papelão eram perfeitas. Brincando de ser bandido”. Hoje, ele diz, a cena mudou: “E o mais legal que todos esses garotos que eu conheci nesse dia, por conta dessa filmagem, hoje brincam de fazer cinema”.

O projeto também deu origem ao documentário Meninos da Favela, que retrata a realidade de jovens de 11 a 16 anos. “No final do documentário, as pessoas que assistem falam que de fato não tem como formar uma pessoa normal se o garoto está sendo acordado por tiroteio com violência, onde os amigos dele são mortos.”

Assista:

Entre a precariedade e a criatividade

Manter o projeto ativo, no entanto, não é simples. Infraestrutura, equipamentos… Tudo é muito caro.

“Os maiores desafios para manter essa iniciativa com certeza é dinheiro. O audiovisual, o cinema de uma forma geral, é uma atividade profissional muito cara. Qualquer coisa é cara, um microfone pequeno, lapela, câmera, lente, jogo de luz, tudo é caro”, enumera Danilo.

Cineasta encontra motivações nos próprios alunos | Crédito: Arquivo pessoal / Cinema di Cria

Para o cineasta, no entanto, a motivação está nos próprios alunos. O próximo passo é estruturar o projeto como Organização Não Governamental (ONG) e transformá-lo em produtora-escola. 

“O que me mantém motivado é justamente olhar para os jovens que já passaram pelas oficinas e que trabalham com isso. Saber que eu tô, de alguma forma, sendo uma pessoa que eu não tive quando eu era da idade deles. Minha principal projeção para o futuro é fazer com que o Cinema di Cria vire uma faculdade de cinema, e transformar a favela em um polo de cinema”.

Formação, identidade e disputa de narrativa

No Circuito Cine Curta, a formação acontece dentro das escolas e culmina na produção de curtas realizados pelos próprios alunos. 

“É poder proporcionar aos alunos que eles contem suas histórias e suas trajetórias, que eles tenham acesso ao audiovisual e possam filmar e trabalhar com esse mercado. A metodologia é baseada em exercícios teóricos e práticos. Os alunos vão ter noção de produção, roteiro, som, fotografia e depois edição e finalização”, explica Juliana.

Neste mês, o projeto ofereceu 25 vagas e priorizou estudantes a partir de 16 anos moradores de territórios como a Rocinha e o Vidigal. As inscrições foram realizadas presencialmente no Centro Paroquial Dom Helder Câmara, na Rua Humberto de Campos, 99, no Leblon, local onde as aulas também passaram a ser ministradas. A formação teve início no dia 13 e seguirá até o fim de maio.

O Circuito Cine Curta nasceu a partir do Curta na Praça | Crédito: Reprodução / @caminhodacultura

Para Juliana, quando o jovem conta sua própria história, algo se transforma. “Sem dúvida chega com um tempero, com um molho diferente, quando o aluno conta sua própria história. É uma forma dele se conhecer melhor e contar para o mundo como foi aquela experiência, aquela vivência.”

“Ele é protagonista, ele vai interferir, ele vai se assistir de uma forma distanciada e ele vai entender que ocupa esse espaço, que é protagonista e que pode reverberar isso para outras pessoas”.

Juliana Teixeira, idealizadora do Circuito Cine Curta

Quem conta a história?

Para entender o impacto de iniciativas que colocam a câmera nas mãos de jovens das próprias comunidades, é preciso olhar para trás e perguntar: quem, historicamente, contou essas histórias? Para o sociólogo Rafael Mello, essa disputa começa justamente no campo da narrativa.

“Historicamente, as periferias foram narradas pelas classes dominantes, desde uma visão colonizadora eurocêntrica, que tem influência até hoje na nossa ‘formação de opinião’, como ainda de grandes meios de comunicação, cinema comercial e elites intelectuais. Isso produziu uma visão muitas vezes estigmatizada, marcada pela violência, pela ausência e pela marginalidade”, explica.

Cinema di Cria, projeto que atua em comunidades como Cidade Alta, Vila Aliança e Complexo do Chapadão | Crédito: Arquivo pessoal / Cinema di Cria

Quando jovens desses territórios passam a ocupar o lugar de autores, o que está em jogo é mais do que estética. É um poder simbólico.

“Há uma mudança profunda: sai uma narrativa ‘sobre’ e entra uma narrativa ‘a partir de dentro’. Do ponto de vista sociológico, isso significa disputar a produção de sentido na sociedade. Não é só contar outra história, é mudar quem tem o poder de definir o que é realidade”, avalia.

O professor do departamento de educação da Universidade do Estado do Rio (Uerj) Rafael dos Santos, especialista em cinema e audiovisual, reforça essa mudança de posição ao destacar o impacto individual e coletivo desse deslocamento.

“Quando o cara passa da posição de personagem para autor, a gente tem, desde a questão da autoestima, de produzir um orgulho e de identificação com o território, um aumento do capital cultural, do capital simbólico e do capital humano dessas pessoas e da comunidade como um todo”, avalia.

Para ele, esse movimento também amplia horizontes para além do próprio território, criando novas possibilidades de circulação de ideias e de reconhecimento social.

Representatividade e ruptura de estereótipos

A professora Talitha Ferraz, do Programa de Pós-Graduação em Cinema e Audiovisual da Universidade Federal Fluminense (UFF), destaca que o Brasil possui uma riqueza cultural enorme que muitas vezes não encontra espaço no audiovisual hegemônico. 

“A gente tem no Brasil um cenário cultural muito profícuo. Vivemos numa sociedade brasileira muito rica em termos culturais, temos muita história para contar. Então, imagina se cada lugar, cada região, esferas comunitárias, tivessem projetos de formação audiovisual”, avalia.

Para além da produção, os especialistas destacam a formação crítica do espectador | Crédito: Reprodução / @caminhodacultura

“É muito bom quando temos a possibilidade das pessoas que estão ali localmente, naquela comunidade, naquele tipo de pertencimento identitário, com aquelas práticas socioculturais específicas delas, produzindo as suas próprias narrativas”.

Talitha Ferraz, do Programa de Pós-Graduação em Cinema e Audiovisual da UFF

Talitha aponta que grande parte das representações midiáticas ainda simplifica territórios inteiros. “Por exemplo, a gente pode citar algumas produções de telenovelas que às vezes representam o Nordeste como se fosse uma coisa só, representam a favela como se fosse uma coisa só, o subúrbio do Rio como se fosse uma coisa só.”

Nesse sentido, as iniciativas periféricas têm um papel contra-hegemônico.

“É uma resposta à ausência do Estado e também uma forma de resistência simbólica. Esses projetos mostram que a periferia não é apenas um espaço de carência, mas também de criação, articulação e produção de conhecimento”.

Refael Mello, sociólogo

Alfabetização audiovisual e leitura crítica do mundo

Para além da produção, os especialistas destacam outro ponto central: a formação crítica do espectador.

O professor Rafael dos Santos ressalta a importância de compreender os interesses por trás das imagens: “É preciso que as pessoas tenham também uma alfabetização audiovisual, que saibam também depurar, ler o que está subjacente aos conteúdos audiovisuais, as linguagens técnicas e estéticas, desde a narrativa, do roteiro, como a fotografia dialoga, como o enquadramento, como a montagem dialoga com o espectador, como a sonoplastia está dialogando com a obra. Então, assim, é importante tanto na perspectiva da produção de conteúdo como na perspectiva da recepção de conteúdos, de uma alfabetização midiática”.

Talitha alerta para a velocidade das transformações tecnológicas e para o risco de formar apenas reprodutores de técnica. 

“Se você não estudar teoria, se você não estudar história do cinema, se você não colocar de fato as questões técnicas dentro de contextos históricos, sociais e econômicos, você apenas vai ser um reprodutor de técnica”, diz.

“Quando se tem uma presença maior de projetos de formação em locais com baixas condições a cultura e lazer, a tendência é que quando as pessoas comecem a fazer suas produções, muda todo um cenário. Projetos de formação são muito importantes porque a gente tem a possibilidade dessas pessoas produzirem esses conteúdos e eles serem incorporados pela própria indústria”, reforça a professora.

Produção cultural como pertencimento e transformação

Santos vê as oficinas também como espaços de escuta e debate. “Vamos pensar no filme ‘Saneamento Básico’, do Jorge Furtado, que tem toda aquela discussão sobre saneamento básico. É um filme que tem uma metalinguagem, porque ele dialoga e discute. Está demonstrando como, a partir da produção de um conteúdo audiovisual, também é possível denunciar outras questões do território de uma forma altamente criativa”.

Esse é um dos pontos destacados por Danilo, e que levou ao documentário produzido dentro das comunidades.

Formar jovens realizadores nas periferias já impacta a estética e temas do audiovisual brasileiro, diz especialista | Crédito: Arquivo pessoal / Cinema di Cria

“Muitas das vezes os garotos sofrem com insegurança alimentar, racismo ambiental, sempre que acontece uma chuva é deslizamento, alagamento, e aí tu vê a trajetória desse garoto e fala, de fato, o que ele vai fazer a não ser ir para o tráfico de droga? Foi isso que motivou a gente a criar o documentário”, desabafa.

Santos reforça que formar jovens realizadores nas periferias já impacta a estética e temas do audiovisual brasileiro, e que ampliar essa formação pode consolidar uma transformação que já está em curso. 

Serviço

Para mais informações sobre como participar das iniciativas, é só fazer contato pelos telefones ou perfis de rede social:

Cinema di Cria: https://www.instagram.com/cinemadicria/

Circuito Cine Curta: https://caminhodacultura.org.br/

Telefone: (21) 2287-4316 | 99985-1733 (novas vagas somente em 2027).

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