Se você caminha pelo Centro do Rio de Janeiro com os olhos grudados na tela do celular, ignorando o vaivém apressado, saiba que pode estar sendo observado por um centenário faraó de ferro fundido. Na movimentada esquina da Rua do Ouvidor com a Rua Miguel Couto, ergue-se um edificado de arquitetura magnética e misteriosa que teima em sobreviver ao tempo, à modernidade e à indiferença carioca. O imóvel de número 116 da Rua do Ouvidor é um daqueles delírios de pedra e metal que fazem a história da capital do estado parecer um roteiro de realismo fantástico com um “quê” da egiptologia. 

Enquanto os transeuntes correm em busca do almoço self-service mais barato ou de uma capa nova para o smartphone, esfinges invisíveis e hieróglifos metafóricos parecem zombar da pressa profana do século XXI. Afinal, por que se preocupar com a eternidade dos mistérios de Ísis quando se tem boletos a pagar antes das 16 horas? 

Fato é que este monumento ao esoterismo e à opulência do passado, já abrigou as mentes mais místicas e os bolsos mais abastados da Guanabara, hoje assiste passivamente ao comércio popular e à rotina mundana. O contraste entre os segredos herméticos gravados na fachada e os gritos dos vendedores ambulantes logo abaixo é a prova viva de que o Rio de Janeiro é uma cidade que mistura o sagrado e o profano sem o menor pudor estético.  

Um edifício que virou lenda 

Pesquisadores apontam que o edifício da Rua do Ouvidor nº 116 é talvez o único exemplar integralmente neoegípcio da Guanabara. A fachada utiliza elementos inspirados diretamente na iconografia do Egito antigo, como escaravelhos, asas de falcão, serpentes, esfinges e figuras mitológicas.  

A construção, provavelmente erguida no final do século XIX e reformada no início do século XX, ficou conhecida sobretudo por abrigar a Joalheria Luiz de Rezende, considerada uma das mais importantes do país em sua época. Antes disso, porém, funcionou ali a loja “Ao Rei dos Mágicos”, um estabelecimento ligado à venda de artigos de ilusionismo, curiosidades técnicas e novidades importadas.    

O estilo neoegípcio ganhou força na Europa após as campanhas napoleônicas no Egito e voltou à moda no século XIX, associado a mistério, arqueologia e sociedades esotéricas. O problema é que o Rio preferiu importar fachadas francesas, italianas e ecléticas. Sobrou para o prédio da Ouvidor a função involuntária de parecer uma anomalia arquitetônica perdida entre bancos, papelarias e lojas de celular. 

O prédio atravessou reformas urbanas, mudanças de numeração e a devastação promovida pela abertura da Avenida Central, atual Avenida Rio Branco, sem ser demolido. O que já o coloca numa categoria quase sobrenatural dentro da história urbanística carioca. Enquanto boa parte do Centro foi abaixo em nome da modernidade republicana, aquele estranho casarão decorado com símbolos do Egito antigo permaneceu ali, olhando para todos com a tranquilidade milenar de uma múmia que já viu impérios melhores. 

“Meu Deus, isto fala!” 

Foi exatamente nesse endereço da Rua do Ouvidor que, no ano de 1877, o Brasil testemunhou uma revolução tecnológica digna de nota: a instalação do primeiro aparelho telefônico do país, conectando o estabelecimento comercial ao Palácio de São Cristóvão e ao Corpo de Bombeiros. 

O imperador Dom Pedro II, conhecido por seu entusiasmo pelas ciências e novidades técnicas, havia conhecido Alexander Graham Bell durante a Feira do Centenário da Filadélfia em 1876, e mandou instalar linhas telefônicas no Brasil já no ano seguinte. 

O menino dos diamantes 

Luiz de Rezende, o homem cujo nome batizou o império comercial da esquina, foi um imigrante português nascido em 1839 que desembarcou no Rio de Janeiro com apenas 13 anos de idade e uma determinação inabalável para não morrer de fome. Sem heranças ou títulos, o jovem começou a trabalhar no ramo de lapidação e comércio de diamantes, revelando um faro comercial tão apurado que, em poucos anos, transformou seu pequeno negócio em uma das maiores fortunas do Império brasileiro. 

Conforme atestam os registros do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, Rezende era a personificação do “self-made man” da era vitoriana tropical, acumulando propriedades, prestígio e o monopólio do bom gosto na corte de Dom Pedro II. Sua trajetória é um clássico conto de imigrante que se torna magnata: começando como ourives, Rezende rapidamente se destacou no ramo e se tornou um dos joalheiros mais influentes do país. 

A Fraternidade Rosa Cruz 

A Antiga e Mística Ordem Rosae Crucis (AMORC), comumente conhecida como Fraternidade Rosa Cruz, é uma organização internacional de caráter filosófico, iniciático e fraternal que se autoproclama herdeira dos mistérios das antigas escolas de sabedoria do Egito Antigo. Longe de ser um clube de campo para entediados homens no ocaso da testosterona, a ordem foca seus ensinamentos no desenvolvimento do potencial humano e na compreensão das leis metafísicas que regem o universo, utilizando uma rica e complexa linguagem simbólica. 

Os rosa-cruzes sempre nutriram uma obsessão saudável (ou não) pela estética egípcia, enxergando em divindades como Hórus, Ísis e nos conceitos solares a representação da evolução espiritual e do renascimento da alma. Para quem caminha pela Rua do Ouvidor, os símbolos na parede do prédio são apenas decoração exótica; já para os iniciados, são um manual de instruções espiritual em plena via pública, quase um outdoor esotérico para quem tem “olhos de quem sabe ver”. 

Seria Luiz de Rezende um rosa-cruz ou apenas um comerciante marqueteiro?

E o que isso tem a ver com a joalheria? 

Paira no ar a lenda urbana de que Luiz de Rezende teria sido um rosa-cruz fervoroso e que cada milímetro da fachada de seu edifício foi projetado para transmitir mensagens cifradas aos seus irmãos de ordem. A teoria é sedutora e rende ótimas conversas de botequim, transformando um próspero comerciante de joias em um guardião de segredos milenares que desafiavam a Igreja e o Estado. 

Contudo, a realidade nua e crua dos arquivos arquitetônicos sugere uma hipótese um pouco mais ligada à vaidade humana: Rezende queria, antes de tudo, ostentar erudição e riqueza. Ao misturar referências de palácios renascentistas franceses com o misticismo egípcio, o joalheiro seguia a moda do ecletismo arquitetônico do final do século XIX, provando que um bom comerciante sabe que mistérios e o exótico sempre valorizam o preço de um metro quadrado. 

Onde a simbologia grita mais alto 

Embora existam outras influências esotéricas espalhadas pela arquitetura do Rio, como por exemplo, no Museu Nacional de Belas Artes, encontrar faraós guardando portas de lojas comerciais não é exatamente o padrão estético adotado pelos arquitetos cariocas pós-Pereira Passos. 

A fachada, projetada pelo arquiteto francês Charles Adda e executada pelo serralheiro Clément Desvernine, é uma verdadeira antologia do estilo neoegípcio, com escaravelhos, esfinges, lótus e figuras de divindades. É um raro exemplar de ornamentação neoegípcia “ingenuamente aplicada”, como definiu o Guia da Arquitetura Eclética no Rio de Janeiro. 

Por que um escaravelho aparece frequentemente com asas de falcão e serpentes? 

Um dos ornamentos mais espetaculares e explícitos da serralheria do edifício é a presença do escaravelho alado, o célebre signo do sol nascente (Khepri) na mitologia egípcia, que simboliza a autorregeneração e a transformação da alma. O inseto sagrado não está ali por acaso: ele aparece esculpido no gradio das janelas com impressionantes asas de falcão e ladeado por serpentes sagradas (Uraeus). 

No Antigo Egito, a combinação do escaravelho com as asas de falcão e as serpentes representava a proteção divina máxima e a sabedoria do governante contra as forças do caos. Ou seja: para comprar joias ali, o cliente aparentemente precisava atravessar antes um portal metafísico faraônico.  

O detalhe dos escaravelhos alados (Crédito: Reprodução)

O que são as estátuas que flanqueiam a fachada? 

Na sacada do prédio, duas esculturas de ferro fundido representam divindades egípcias: uma masculina (provavelmente o deus Rá ou Osíris) e uma feminina (possivelmente a deusa Ísis). Essas figuras, também executadas por Clément Desvernine, são as guardiãs simbólicas do edifício. 

Os detalhes das vestimentas são de um preciosismo sensacional: as figuras usam o Nemes _ aquele lenço listrado que cobria a cabeça dos soberanos egípcios _ e seguram os atributos do poder divino. Estão ali há mais de cem anos atuando como seguranças simbólicos da antiga joalheria (apesar de um certo vacilo, como veremos), assistindo do alto, com desprezo aristocrático, a evolução da moda e dos costumes cariocas. 

As estátuas da fachada simbolizariam deuses egípcios (Crédito: Reprodução)

Um salto geográfico no tempo 

Se o passante olhar um pouco mais para cima, entre o terceiro e o quarto pavimento do edifício, perceberá que a fachada dá um salto geográfico e temporal completamente bizarro: há uma faixa de baixo-relevo que parece retratar uma batalha medieval.  

O friso exibe ornamentos complexos compostos por elmos de cavaleiros, espadas cruzadas, flechas, lanças e até a figura de um aríete com cabeça de carneiro, peça utilizada na Idade Média para arrombar portões de castelos. 

Essa aparente confusão mental de estilos demonstra que, na virada do século XIX para o XX, a pureza histórica importava muito menos do que o impacto visual. Luiz de Rezende e seus arquitetos queriam criar uma colagem de erudição: a força das batalhas medievais europeias unida aos mistérios milenares do Egito, resultando em um sincretismo estético tipicamente carioca. 

Fascios, aríetes e uma carnavalização de estilos (Crédito: Reprodução)

As esfinges voadoras do lanternim desaparecido 

Em seus dias de glória absoluta, o topo do edifício ostentava um refinamento arquitetônico que se perdeu nas reformas subsequentes: o prédio terminava em um gracioso lanternim, uma pequena torre envidraçada projetada para garantir a entrada de luz natural no miolo do casarão. O grande charme dessa estrutura aérea era o suporte, composto por quatro esfinges aladas que sustentavam a cobertura. 

A existência dessas criaturas aladas no topo do imóvel está devidamente documentada em fotografias antigas do início do século XX e nas páginas da icônica revista satírica O Malho, em uma edição de 1922. Infelizmente, o topo do prédio foi simplificado ao longo dos anos, e as esfinges aladas levantaram voo em definitivo, deixando a cobertura mais plana, comum e desprovida de sua antiga fantasia mitológica. 

Detalhe da pequena torre envidraçada que se perdeu no tempo (Crédito: Reprodução)

O audacioso assalto de 1898 

Nem só de mistérios espirituais vive aquele endereço; a crônica policial carioca registrou ali um dos episódios mais espetaculares do final do século XIX. Na calada da noite do dia 5 de dezembro de 1898, a Joalheria Luiz de Rezende foi alvo de um assalto cinematográfico que chocou a sociedade da época e expôs a vulnerabilidade das forças de segurança da jovem República. 

Os criminosos realizaram uma verdadeira obra de engenharia civil subterrânea: escavaram um túnel subterrâneo a partir das imediações da Igreja da Santa Cruz dos Militares, cruzando o subsolo do Centro até alcançar o assoalho interno da joalheria. Através de um buraco estratégico aberto na madeira do piso, os gatunos invadiram o estabelecimento sem chamar a atenção das patrulhas de rua. 

Dentre o vasto tesouro levado pelos criminosos, figuravam peças de ourivesaria famosas que haviam sido encomendadas por membros da aristocracia imperial e grandes fazendeiros de café do Vale do Paraíba. Pedras preciosas lapidadas, relógios de ouro importados cravejados de joias, colares, correntes e pulseiras de valor inestimável. Até mesmo peças que pertenceram à Coroa Portuguesa es estavam lá para reparos. 

A audácia foi tamanha que a polícia deteve cerca de duzentas pessoas para averiguação nas semanas seguintes e chegou a enviar investigadores a Buenos Aires no encalço das joias, mas a autoria do crime e o destino das pedras jamais foram solucionados. 

O “Buraco do Rezende” na boca do povo 

O episódio do assalto subterrâneo foi tão marcante para o imaginário popular que a expressão “Buraco do Rezende” virou uma gíria de uso corrente na Guanabara, sobrevivendo na boca do povo por várias décadas do século XX. A expressão serviu de título para uma marcha de carnaval e até para um filme de curta metragem em 1909. 

Dizer que algo havia caído no “Buraco do Rezende” significava que o objeto ou o dinheiro tinha desaparecido misteriosamente, sem deixar rastros e sem qualquer esperança de recuperação. 

Apesar de o assalto ter causado um prejuízo financeiro colossal e um abalo emocional profundo nos envolvidos na época, o comerciante conseguiu reerguer e manter o prestígio de seus negócios. A joalheria continuou em pleno funcionamento nas primeiras décadas do século XX. 

Prova disso é que a marcante reforma que deu ao edifício a sua famosa fachada neoegípcia e os ornamentos de ferro fundido só aconteceu anos mais tarde, em 1912, data em que Luiz de Rezende assinou pessoalmente as petições junto à municipalidade carioca para modificar o imóvel, demonstrando que ainda detinha uma das grandes fortunas da cidade e capacidade de investimento. 

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