Bem ali no meio do Centro do Rio, entre os horríveis arranha-céus espelhados e o burburinho do trânsito, sobrevive um trecho de calçada estreita que é um verdadeiro arquivo a céu aberto do melhor e do pior do Brasil. A Rua do Ouvidor, hoje uma via de pedestres entre a Praça XV e a Rua Primeiro de Março, carrega em seus menos de 500 metros a memória viva de quase 400 anos de história do Reino de Portugal, do Império e da jovem República brasileira. Mais do que um logradouro, ela foi o epicentro da elegância, das conspirações políticas, da literatura e de muitos segredos de alcova. Suas pedras sabem de histórias que livros didáticos jamais contaram.

Era a “sala de visitas” da Guanabara, o lugar para ser visto, fazer compras impossíveis em qualquer outro canto, frequentar teatros revolucionários ou livrarias que abasteciam a intelectualidade do país. A Ouvidor foi a primeira rua asfaltada da cidade, a primeira a ter iluminação a gás e, pode-se dizer, a primeira a ter uma “coluna social”, alimentada pelos jornalistas e escritores que perambulavam por lá diariamente em busca de matéria prima para seus trabalhos.

Talvez por isso a rua tenha gerado não apenas comércio, mas narrativa. Uma de suas definições mais famosas está na crônica A semana, escrita por Machado de Assis em 1895: “A Rua do Ouvidor é um livro de folhas volantes, que se renova todos os dias, e em que toda a gente pode ler, às portas abertas, a história dos nossos usos, das nossas manias, das nossas elegâncias, dos nossos ridículos…” Para o Bruxo do Cosme Velho, ela era o principal palco da vaidade, da frivolidade, da política de salão e das transformações de costumes, um verdadeiro “termômetro da capital”.

Rua do Ouvidor reúne histórias e lendas do Rio | Crédito: Reprodução

Origem

A gênese da via remonta às primeiras décadas da cidade. Segundo o historiador Brasil Gerson, autoridade máxima na biografia das ruas cariocas em sua obra História das Ruas do Rio, a rua foi aberta espontaneamente, sem régua nem esquadro, por volta de 1567.

Inicialmente, não passava de um atalho rudimentar, um “desvio do mar” utilizado para conectar o litoral (onde hoje é Praça XV) ao interior, rasgando o matagal que existia entre as lagoas. Era, na prática, um caminho de servidão aberto pelos escravizados.

O primeiro nome

Antes de ganhar a alcunha definitiva, a via atendeu por nomes que refletiam seus moradores ilustres. O primeiro registro oficial consolidado aponta que ela se chamou Rua de Aleixo Manoel, em homenagem a um ilustre morador.

Segundo os registros compilados por Vivaldo Coaracy em O Rio de Janeiro no Século XVII, essa denominação consolidou-se por volta de 1620. Era um costume da época: a rua não tinha nome oficial, ela “era” de quem lá vivia e tinha mais destaque.

Mas quem era Aleixo Manoel?

Aqui começa uma daquelas histórias brasileiras que se não tivessem ocorrido ninguém as teria escrito. Aleixo Manoel era um português que se destacou em combates contra Tamoios em Cabo Frio e por isso ganhou grandes recompensas da Coroa.

Considerado um capitalista da época, ele casou-se com Catarina de Sousa, aumentando sua fortuna e com ela teve uma filha chamada Inês. Conhecida como “A bela Inês”, em crônicas do Rio colonial.

Banho de água fria é isso aí

Inês deveria ser um baita pedaço de mau caminho. Era disputada por todos os cavalheiros mais finos da Guanabara. Até que dois deles, num acaso só comparável à inesquecível cena do atendado ao governador romano em A Vida de Bryan, do Monty Python, resolveram sequestrá-la….na mesmíssima noite.

Aleixo soube das tramoias. E quando os sequestradores invadiram sua casa encontram tranquilamente Aleixo e Inês tomando chá com Salvador Correia de Sá e Benevides, um dos homens mais poderosos do Império Português no Atlântico Sul, governador da Capitania do Rio de Janeiro, e com quem Inês acabara de casar-se.

O historiador Sérgio Buarque de Holanda, em seu livro Salvador Correia de Sá e Benevides, confirma o matrimônio e destaca sua importância para a consolidação do poder da família Sá no Rio de Janeiro. Portanto, a filha do homem que deu o primeiro nome à rua tornou-se uma das senhoras mais importantes da colônia.

Salvador Correia de Sá e Benevides: um dos homens mais poderosos de Portugal | Crédito: Reprodução

Por que a rua mudou de nome para Padre Homem da Costa?

Francisco Homem da Costa, era um clérigo português que veio para a Guanabara e se estabeleceu como um dos moradores mais emblemáticos da rua no século XVIII. Mais do que um sacerdote, era uma figura socialmente ativa e muito bem relacionada.

Segundo o cronista e historiador Brasil Gerson, em seu clássico História das Ruas do Rio, o padre era um homem “gordo, alegre, amigo de festas e de boa mesa”, uma verdadeira figuraça do Rio colonial.

Dizia-se que ele tinha um talento especial para aproximar jovens solteiros e solteiras de famílias abastadas, facilitando e abençoando uniões matrimoniais. Machado de Assis, em uma de suas crônicas para a Gazeta de Notícias, faz referência a essa fama, tratando-a como uma lenda consolidada no imaginário carioca. Essa reputação contribuiu, certamente, para que seu nome ficasse ligado à rua.

É verdade que o padre morreu de tanto comer?

Essa é a parte mais saborosa da história. Conta-se que o Padre Homem da Costa, sempre que intermediava um casamento bem-sucedido, apresentava duas exigências como “pagamento” por seus serviços: uma “garoupa de forno”, um peixe comum e muito apreciado da Baía de Guanabara, além de um lugar de destaque na mesa do jantar após o matrimônio.

As crônicas de Joaquim Manuel de Macedo, em Memórias da Rua do Ouvidor, pintam-no como uma figura folclórica e mundana. Quase um foodie antes do termo existir. E sim, de fato o padre bonachão morreu no meio de um jantar sofisticado, mas não foi culpa de nenhuma espinha entalada ou vinho em excesso. Segundo os historiadores, a causa mortis mais provável teria sido um infarto ou talvez um AVC. Tanto faz.

E quando virou Rua do Ouvidor?

A mudança definitiva para “Rua do Ouvidor” está ligada à transferência do Ouvidor-Geral da Comarca, Francisco da Silveira e Alvarenga, para um sobrado na rua por volta de 1780. O Ouvidor era a mais alta autoridade judicial na colônia, uma espécie de chefe da justiça local, cargo de enorme prestígio e poder.

Como o povo afluía à sua porta para reclamar de injustiças, pedir favores ou resolver litígios, a “Rua do Padre” caiu em desuso. Todos iam “lá na rua do Ouvidor”. O cargo passou, o homem morreu, mas o nome grudou nas paredes como o limo das pedras no entorno da Baía de Guanabara.

Machado de Assis foi um dos cronistas que contribuíram para aumentar fama de lendária à Rua do Ouvidor | Crédito: Reprodução

Os ingleses e o começo da invasão estrangeira

Após a abertura dos portos e a chegada da Corte Portuguesa, comerciantes ingleses começaram a fixar endereço na rua, formando a vanguarda de uma verdadeira invasão estrangeira que iria se consolidar nas décadas de 1820 e 1830.

Segundo o livro O Rio de Janeiro Imperial, de Rocha Lima, as lojas inglesas na Ouvidor, como a Graham, Wars & Cia. e a R. T. B. Holdforth, eram famosas por vender artigos de luxo indisponíveis em outros lugares: porcelanas finas da Wedgwood, cristais da Irlanda, talheres de Sheffield, tecidos de algodão e lã, louças, ferragens, chapéus, uísque e uma infinidade de bugigangas e novidades industriais.

Eram as “novidades da Europa” que abasteciam a Corte e a elite, tornando a rua o principal shopping center de artigos importados do Império.

Mas logo vieram as francesas.

As modistas francesas e madame Josephine

Se os ingleses trouxeram o comércio, as francesas trouxeram a alma da rua. A partir da década de 1820, as modistas francesas tomaram a Rua do Ouvidor. Com elas vieram os últimos gritos da moda parisiense, transformando a rua em referência de elegância e consumo sofisticado. Mas nenhuma delas foi tão famosa quanto Madame Josephine.

Ela era a costureira preferida da imperatriz Teresa Cristina e das damas da alta aristocracia. Sua fama era tamanha que seu nome se tornou quase um símbolo da profissão. João do Rio, em A Alma Encantadora das Ruas, a menciona como exemplo do fausto da época.

Ter um vestido de Madame Josephine era um símbolo de status máximo. Ela ditava tendências, importava tecidos caríssimos e era consultora de estilo das mulheres mais poderosas do país, consolidando a Ouvidor como o quartier da moda carioca.

Rua do Ouvidor logo virou ponto de comércio de ingleses e das modistas francesas | Crédito: Reprodução

Um imperador de voz fina

Muita coisa veio junto com as novidades francesas, entre elas confeiteiros que apresentaram à nobreza dos trópicos petits-fours, éclairs, mille-feuilles e uma delícia que logo iria cair no gosto popular: os sorbets, a sobremesa gelada feita à base de gelo, frutas e açúcar, e que ao contrário do sorvete, não leva leite.

Logo um dos maiores fãs dos sorbets seria nada menos que o imperador Pedro II. Ele era tão fissurado na iguaria que vivia sofrendo de resfriados ou problemas de garganta de tanto tomar sorbet no calorão de São Cristóvão.

Dizem que durante uma dessas crises de garganta, um médico teria machucado as cordas vocais de Sua Majestade, fazendo com que até o fim de sua vida ele tivesse um tom de voz parecido com o do lutador campeão Anderson Silva.

A era dos escândalos

Acha que acabou? Com grande pompa em 14 de outubro de 1868, na Rua do Ouvidor, nº 44, foi inaugurado o Teatro Alcazar Lyrique, formalmente falando uma casa de espetáculos especializada em operetas e revista de costumes.

Mas o que rolava mesmo lá dentro era o melhor Can Can estilo Moulin Rouge, com loiras ou ruivas atrizes francesas jogando as pernas pro alto em apresentações tão picantes quanto cheias de duplos sentidos. 

As francesas causavam furor entre os jovens fidalgos. Algumas delas, horizontalmente acessíveis, encheram as burras de dinheiro e foram fazer suas comprinhas, onde mais, se não na Rua do Ouvidor.

Para algumas modistas era a chance de engordar o caixa, mas correndo o sério risco de serem proscritas pelas senhoras da sociedade que não queriam saber de usar roupas semelhantes às coristas do Alcazar.

O berço da literatura brasileira

Pesquisas como as contidas no Almanak Laemmert listam dezenas de livrarias, editoras e tipografias concentradas na rua do Ouvidor. A mais famosa e poderosa era, sem dúvida, a Livraria e Editora Garnier, dos irmãos franceses Baptiste-Louis e Adrien Garnier, ponto de encontro obrigatório de escritores e jornalistas.

Outras casas de grande importância eram a Livraria e Tipografia de Paula Brito (a primeira grande editora brasileira, de Francisco de Paula Brito, que publicou os primeiros trabalhos de Machado); a Editora Laemmert (da família do famoso almanaque citado acima); e a Livraria e Editora Quaresma. Essas casas não apenas vendiam livros importados, mas foram fundamentais na publicação e divulgação dos autores nacionais do Romantismo e do Realismo.

Só que livro na Guanabara do século retrasado era artigo caro. E assim coube à Rua do Ouvidor a honra de ter sido também endereço do primeiro sebo do Brasil: “Ao Livro Azul”. Segundo relatos de memorialistas como Luiz Edmundo, em O Rio de Janeiro do Meu Tempo, esse sebo era ponto de peregrinação de estudantes e intelectuais de poucos recursos. Sua existência é um testemunho do caráter intelectual e democrático da rua, que atendia tanto à elite que comprava novidades na Garnier quanto aos boêmios e estudiosos que fuçavam as prateleiras do “Livro Azul”.

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