A mortandade de botos no lago Tefé, na Amazônia Legal, ganhou explicação detalhada em um estudo publicado nesta quinta-feira na revista Science. A pesquisa, liderada pelo hidrologista brasileiro Ayan Fleischmann, aponta que a combinação entre seca severa e ondas de calor iniciadas em setembro de 2023 elevou a temperatura da água a alarmantes 41ºC, tornando o ambiente incompatível com a sobrevivência dos animais.
Segundo Fleischmann, do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, a situação era tão crítica que “nem era possível botar um dedo na água”, tamanha a intensidade do calor. Ele destaca que os impactos em lagos tropicais — fundamentais para alimentação, transporte e renda de comunidades ribeirinhas — ainda são pouco estudados em comparação com os sistemas aquáticos da Europa e da América do Norte.
Estudo expõe efeitos diretos da mudança climática
A pesquisa reforça que as mudanças climáticas tiveram papel decisivo na seca que atingiu a Amazônia em 2023. A região, que depende de suas vias fluviais para subsistência e mobilidade, sofreu com rios em níveis historicamente baixos e temperaturas muito acima da média.
Em menos de dois meses, mais de 200 botos foram encontrados mortos no lago Tefé — um número que representa apenas parte de um colapso ecológico maior, já que peixes também morreram em larga escala, embora sem registros consolidados.
Lago encolheu 75% e calor atingiu camadas profundas
O estudo aponta que a área superficial do lago Tefé diminuiu cerca de 75% durante o período crítico da estiagem. A equipe registrou ainda que o calor extremo não se limitou à superfície: temperaturas elevadas foram observadas até dois metros de profundidade, agravando o estresse térmico e impedindo que os animais buscassem refúgio em zonas mais frias.
Às vésperas da COP30, que será realizada em Belém de 10 a 21 de novembro, Fleischmann pretende levar à conferência um alerta sobre a necessidade de maior atenção aos lagos amazônicos e às soluções que incluam participação ativa das comunidades locais, especialmente povos indígenas.
Crise ambiental reforça urgência climática na região
A onda de calor que transformou o lago Tefé em um “fervedouro” evidencia como regiões tropicais estão entre as mais vulneráveis aos efeitos acelerados da mudança climática. Para pesquisadores, eventos como o da Amazônia tendem a se repetir com mais frequência e intensidade caso medidas globais e locais não sejam adotadas com urgência.






Deixe um comentário