São Sebastião nunca mudou de endereço

Lenda urbana sobre a data do padroeiro do Rio atravessa décadas sem jamais encontrar respaldo em leis ou documentos oficiais

* Paulo Baía

Convém registrar, com o devido cuidado histórico e uma pitada de bom humor carioca, que nunca houve, do ponto de vista legal, institucional ou minimamente cartorial, a troca do feriado de São Sebastião do dia 20 de janeiro para o 1º de março no município do Rio de Janeiro. O padroeiro sempre soube muito bem onde mora no calendário e jamais fez as malas.

Não existe lei, decreto, portaria, despacho nem rabisco oficial que tenha promovido tal façanha em qualquer momento da história republicana da cidade. Tampouco procede a atribuição dessa suposta mudança a Carlos Lacerda, Negrão de Lima ou César Maia. Nenhum deles acordou um dia com vontade de deslocar o santo, mexer no calendário ou desafiar a devoção popular. São Sebastião permaneceu firme, resiliente e pontual no dia 20 de janeiro, como manda a tradição.

O que efetivamente existe é algo de outra ordem. Uma lenda urbana poderosa, dessas que o Rio produz com talento próprio, persistente, elegante em sua teimosia e transmitida de boca em boca com a convicção de quem jura ter visto. Uma narrativa que mistura tragédias climáticas, disputas simbólicas entre fé e modernização urbana, tensões políticas e aquele tempero afetivo que transforma boato em verdade provisória.

As grandes chuvas de janeiro de 1966, a imagem histórica de São Sebastião como protetor da cidade e o peso simbólico do 1º de março como data de fundação do Rio colaboraram decisivamente para esse enredo. Não como fato jurídico, mas como memória social. Não como norma escrita, mas como interpretação popular da história, carregada de sentidos, receios, crenças e identidades que resistem bravamente aos arquivos.

Assim, é correto afirmar que a troca jamais ocorreu no plano legal, mas é igualmente honesto reconhecer que os boatos sempre existiram. Eles se alimentam da força simbólica do santo, da dramaticidade dos eventos históricos e da vocação carioca para transformar a própria experiência coletiva em boa história. Melhor ainda se for contada com convicção e algum suspense.

Trata-se, portanto, não apenas de um equívoco histórico, mas de um exemplo saboroso de como o Rio de Janeiro fabrica suas lendas, seus mitos urbanos e suas verdades afetivas. Mesmo quando não encontram respaldo nos documentos, elas seguem vivas na palavra, na memória e na imaginação popular. No fim das contas, São Sebastião nunca saiu do dia 20. Quem viajou foi a história.

* Sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ.

Deixe um comentário

Mais recentes

Descubra mais sobre Agenda do Poder

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading