Nesta terça-feira (20), o Rio comemora o Dia de São Sebastião, padroeiro da cidade. A data, para além de feriado municipal, ajuda a contar inclusive a própria história das terras cariocas — que já levaram o nome do santo em outros tempos — e revela como diferentes tradições religiosas se entrelaçam na formação cultural da cidade.

Oficialmente marcada no calendário católico, a celebração também ocupa um lugar central nas religiões de matriz africana, como a Umbanda e o Candomblé, que reverenciam, neste período, Oxóssi, orixá ligado às matas, à caça, à fartura e ao sustento. No Rio, essa sobreposição de sentidos não é casual: ela reflete um processo histórico de sincretismo religioso, formado como um processo de resistência contra a catequização, que atravessa séculos e permanece vivo na identidade carioca.

É nesse cruzamento de trajetórias que se constrói uma das expressões mais marcantes da religiosidade brasileira. Ao longo do tempo, a devoção católica a São Sebastião passou a conviver — e a ser associada — a práticas e cosmologias de origem africana, num contexto marcado pela repressão colonial, pela catequização forçada e pela necessidade de resistência cultural dos povos escravizados.

Representação do padroeiro do Rio na Paróquia São Sebastião | Crédito: Gustavo Braz / Agenda do Poder

O mártir e padroeiro do Rio

Para a Igreja Católica, São Sebastião é símbolo de fé inabalável e resistência diante da perseguição. Soldado romano convertido ao cristianismo, ele foi condenado à morte após se recusar a renegar sua fé. Mesmo após sobreviver às flechadas que deveriam tê-lo matado, voltou a professar publicamente o cristianismo e acabou executado.

Segundo o padre Fábio Escobar, da Paróquia São Sebastião, em Quintino, na Zona Norte do Rio, o martírio do santo ocupa um lugar central na devoção cristã.

“São Sebastião foi um grande soldado temente a Deus e, no momento em que poderia renegar a fé por conta de cargos, continuou a abraçar a fé e aceitou morrer por Jesus. Isso é muito forte, porque sabemos que o sangue dos mártires é semente de novos cristãos”, contou à Agenda do Poder.

O padre destaca ainda que a trajetória do santo funciona como exemplo para os fiéis diante das dificuldades cotidianas.

“Ele levou as flechadas, sobreviveu, poderia ter ficado quieto, mas continuou anunciando Cristo. Como grande soldado, ele acaba sendo para nós um exemplo para que não desistamos diante das flechadas da vida, diante das dificuldades que aparecem”, completa.

Padre Fábio Escobar, da Paróquia São Sebastião, em Quintino | Crédito: Gabriel Damião / Agenda do Poder

A devoção que moldou Quintino

A presença de São Sebastião no subúrbio carioca também se confunde com a história de Quintino, que além de São Jorge — sincretizado com Ogum, orixá da tecnologia e das batalhas —, também é devoto de São Sebastião. Essa devoção, aliás, ganhou força principalmente no fim do século XIX, a partir da iniciativa da família Vieira Cardoso, responsável por trazer de Portugal imagens sacras que deram origem a um núcleo espontâneo de fé no bairro.

Em 1889, uma pequena capela de bambu e palha foi erguida no local onde hoje funciona a Paróquia São Sebastião. Com o tempo, o espaço se tornou ponto de devoção popular, reunindo moradores para rezas, promessas e celebrações. Durante a epidemia da gripe espanhola, no início do século XX, a família atuou no auxílio aos doentes e atribuiu à intercessão do santo o fato de não ter sido atingida pela doença, reforçando ainda mais a devoção local.

Procissão de São Sebastião em Quintino, na Zona Norte do Rio | Foto: Reprodução / Paróquia São Sebastião

A fé da comunidade deu origem à tradicional procissão de São Sebastião, considerada hoje patrimônio imaterial da memória de Quintino. Não à toa, segundo conta o padre Fábio Escobar, São Sebastião é muito invocado como protetor contra a peste, fome e guerra, sendo um dos santos mais populares para pedir intercessão contra esses males. 

Oxóssi, o caçador e provedor

Nas religiões de matriz africana, o dia 20 de janeiro também reverbera com força. Em diversas casas de axé a data é dedicada a Oxóssi, uma das principais divindades do panteão iorubá.

De acordo com o babalorixá, escritor e professor de cultura iorubá Márcio de Jagun, Oxóssi representa mais do que a figura do caçador.

“Oxóssi é uma divindade que passa a ser cultuada no Brasil a partir desse simbolismo de quem abastece, que caça, do herói que enfrenta os desafios numa floresta inóspita, que pensa como o animal e tem criatividade, habilidade e precisão. Não por acaso, ele é conhecido como o caçador de uma única flecha”, explica.

Representação do Orixá Oxóssi | Reprodução / Redes sociais

Segundo ele, Oxóssi ocupa um lugar simbólico fundamental para os praticantes das religiões afro-brasileiras. “Para nós, Oxóssi é o Orixá heróico, corajoso, que rege a prosperidade, a fartura e a criatividade para sobreviver em um país tão cheio de desafios quanto o nosso”, conta.

Essa relação também se manifesta na experiência individual dos praticantes. Umbandista e filho de Oxóssi, o comunicador Gabriel Damião descreve a data como um momento de conexão profunda com o orixá.

“Oxóssi é o pai da mata, da prosperidade. É ele quem nos ensina a caminhar com calma, com presença, sempre mirando nosso objetivo. Comemorar o dia de Odé é sempre muito feliz e importante, além de sentir a energia viva do orixá em mim”, relata.

Sincretismo como estratégia de resistência

A associação entre São Sebastião e Oxóssi não surgiu apenas por conta de semelhanças simbólicas, mas como resultado direto de estratégias de resistência dos povos africanos diante da violência do processo colonial. Márcio de Jagun explica que o sincretismo, para além da relação entre santo católico e Orixá, foi uma forma de sobrevivência frente à repressão sistemática aos cultos de matriz africana.

“A princípio, para quem vê de fora, pode parecer que o sincretismo é cooperado e constituído a partir da regência do santo católico com as atribuições da divindade africana. Mas não foi por aí. A rigor, esses escravizados eram obrigados a frequentar celebrações católicas. Eles eram compelidos, a partir da catequização, a conhecer as regências e as histórias dos santos católicos. Mas isso não os motivou para fazer o disfarce. Colocavam o santo católico para disfarçar os seus cultos proibidos, originários”, conta o sacerdote. 

Segundo ele, esse processo não foi homogêneo nem automático. Márcio aponta que a interação entre diferentes credos ocorre em camadas, com níveis distintos de aproximação e troca simbólica.

“A primeira camada é a associação, quando você identifica semelhanças, como entre Hermes e Exu, por exemplo, mas ninguém troca o culto de um pelo outro. A segunda camada é o sincretismo, quando você identifica similaridades, reverencia uma divindade com a imagem da outra, mas sem se perder, conseguindo fazer essa separação a qualquer momento, como acontece com Oxóssi e São Sebastião, ou Iansã e Santa Bárbara”, aconta.

Há, no entanto, um terceiro nível, mais profundo, que o babalorixá chama de imbricação. “Na imbricação, as duas figuras se misturam de tal forma que a gente já não consegue mais identificar onde começa uma e termina a outra”, afirma.

De acordo com Márcio, é justamente essa distinção entre associação, sincretismo e imbricação que ajuda a compreender por que nem todas as relações entre credos funcionam da mesma maneira — e por que, no caso de Oxóssi e São Sebastião, ainda é possível reconhecer claramente as duas tradições.

Babarolixá Márcio de Jagun | Crédito: Gabriel Damião / Agenda do Poder

Nesse processo, pequenos símbolos, aparentemente discretos, funcionaram como pontes entre universos religiosos distintos, sem que houvesse apagamento cultural. “A flecha de São Sebastião remete diretamente ao Ofá, o arco e flecha simbólico de Oxóssi. É esse elemento que faz essa coligação imemorial entre os cultuadores de matriz africana e a figura do santo católico”, explica.

‘Sincretismo significa lugar de resistência’

Para Márcio de Jagun, longe de representar submissão ou perda identitária, o sincretismo expressa justamente o contrário.

“A proposta do colonizador era transformar toda a população. Quando a gente percebe que se formou uma outra religiosidade, a perda maior foi de quem catequizou, e não de quem resistiu. Portanto, os sincretismos significam, antes de qualquer coisa, lugares de resistência”, conclui.

A relação entre São Sebastião e Oxóssi evidencia como diferentes tradições religiosas passaram a coexistir no Rio de Janeiro ao longo de sua formação histórica. A celebração do dia 20 de janeiro reúne práticas, símbolos e narrativas que refletem processos de sincretismo construídos em contextos de imposição religiosa e resistência cultural.

Ao longo do tempo, essas manifestações se consolidaram no cotidiano da cidade, permanecendo reconhecíveis em rituais, festas e devoções que seguem distintas, mas conectadas por uma trajetória comum — reafirmando a força simbólica de uma fé que atravessa o tempo como expressão de resistência, esperança e identidade coletiva.

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