Saiba por que uma das mais famosas praias cariocas pode desaparecer

“A situação sempre é mais preocupante entre os meses de maio a agosto, quando as ondas atingem facilmente 2,5 metros”, explica o oceanógrafo, surfista e morador da região Carlos Eduardo Velloso

Dona de um visual paradisíaco e famosa no mundo do surfe, especialmente o longboard, pela formação de ondas perfeitas, a Praia da Macumba, localizada entre as praias do Recreio e Prainha, na Zona Oeste do Rio, corre risco de em breve se tornar apenas mais uma lembrança para cariocas e simpatizantes.  Desde 2005 as mesmas ondulações que ajudaram a dar fama ao local tem culminado em ressacas que aos poucos vão reduzindo a faixa de areia. A força do mar chegou a destruir toda a orla em 2017 e deixar estragos significativos em 2022.

“A situação sempre é mais preocupante entre os meses de maio a agosto, quando as ondas atingem facilmente 2,5 metros, mas podem chegar até cinco metros, devido a frentes frias ou ciclones extratropicais no Atlântico Sul “, explica o oceanógrafo, surfista e morador da região Carlos Eduardo Velloso.  Em dias de maré alta, essas ondas se tornam ainda mais destrutivas tanto por fatores naturais quanto pela ação humana.

Segundo Velloso, uma questão é a posição geográfica da Macumba, voltada para o sul-sudoeste (de onde vem as maiores ondas) e menos protegida do que as praias de Copacabana e Ipanema.  ” O mar aqui bate de frente”, diz. E para complicar, a Macumba é também uma chamada praia de barreira arenosa, ou seja, que originalmente era protegida pela vegetação de restinga e dunas.

Vieram os anos de 1980 e com eles a ocupação desenfreada e sem planejamento dos bairros costeiros da Zona Oeste. “Além da destruição da vegetação, tanto o calçadão como a ciclovia foram construídos em 2002 muito próximos a chamada linha da maré, reduzindo o que era um amortecedor natural da energia das ondas “, diz Carlos Velloso.   Até que, em 2017, a ciclovia foi destruída parcialmente pelas ondas três vezes seguidas em apenas um mês.

Segundo os jornais da época, a prefeitura do Rio precisou interditar 300 metros do calçadão. Na sequência, realizou diversas obras de contenção e recuperação; como em 2019, quando foram recuperados 500 metros de orla, com a criação de canteiros de vegetação de restinga par ajudar na estabilização da área.  Mas o problema já havia se tornado crônico. Em 2022, uma nova ressaca causou total erosão da faixa de areia e nova destruição de trechos do calçadão e até das estruturas de proteção, feitas com sacos cheios de areia e cimento, que haviam sido instaladas pelo governo municipal.

“Na década de 1980, a embocadura do Canal de Sernambetiba, que possuía um molhe para garantir sua abertura, foi deteriorando-se por falta de manutenção. O assoreamento desta abertura provocava o entupimento do canal e inundações ocorriam frequentemente”, conta o Carlos Velloso. A solução foi a contínua dragagem para desentupimento, fazendo crescer a areia acumulada nas margens.

” Mas ao invés de restituir para a praia da Macumba, origem destes sedimentos, toda essa areia foi retirada por caminhões para aterro de áreas baixas do Recreio dos Bandeirantes”, diz Velloso.  Assim, o déficit de sedimentos da praia da Macumba foi aumentando, resultando no estreitamento da faixa de praia e a aproximação cada vez mais perigosa da linha d’água ao novo calçadão a partir de 2005. Mas há boas e más notícias.

A ruim é que segundo pesquisas de oceanógrafos da UERJ o perigo da Macumba ficar permanentemente sem sua faixa de areia é grave e real, caso o processo de erosão costeira continue sem controle.  Mas o lado bom da coisa é que a situação é reversível, com a implementação de obras como a recarga de areia (conhecida como engorda), replantio de vegetação de restinga e a remoção do que for possível de estruturas rígidas.  Com a palavra agora, as autoridades ambientais.

E um agrado para os curiosos de plantão. A praia da Macumba se chama assim porque, como é mais afastada, é escolhida por adeptos da umbanda para realização de trabalhos religiosos. Mas ela tem outro nome. Ela também é conhecida como Praia do Pontal, o ponto final de um caminho que, segundo cantava Tim Maia, começa no Leme e não há outro igual.

Mais recentes

Descubra mais sobre Agenda do Poder

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading