O roteirista iraniano Mehdi Mahmoudian, coautor do filme Foi apenas um acidente, indicado ao Oscar 2026, foi preso em Teerã no sábado (31). A detenção ocorreu poucos dias depois de ele ter assinado uma declaração pública que denuncia ações do regime iraniano contra manifestações populares no país.
Mahmoudian integra a equipe do longa dirigido por Jafar Panahi. A produção concorre ao Oscar 2026 nas categorias de Melhor Roteiro Original e Melhor Filme Internacional, na mesma disputa que inclui o filme brasileiro O agente secreto.
Manifesto contra o regime iraniano
A prisão do roteirista acontece em meio ao endurecimento da repressão a artistas e intelectuais críticos ao governo do Irã. Mahmoudian foi um dos 17 signatários de um manifesto que condena a atuação do líder supremo do país, Ali Khamenei, especialmente diante da repressão violenta a protestos recentes.
No texto, os autores afirmam que o Estado iraniano comete crimes sistemáticos contra a população civil. “O assassinato em massa e sistemático de cidadãos que bravamente foram às ruas para pôr fim a um regime ilegítimo constitui um crime de Estado organizado contra a humanidade”, diz um dos trechos. A declaração também menciona o uso de munição real contra civis, prisões em larga escala, perseguições políticas e a obstrução de atendimento médico a feridos.
Jafar Panahi também é alvo de punições
O diretor do filme, Jafar Panahi, também assinou o manifesto e enfrenta sanções impostas pelo regime. Recentemente, o cineasta foi condenado a um ano de prisão sob a acusação de promover “atividades de propaganda” contra o Estado iraniano, além de receber uma proibição de viajar ao exterior por dois anos.
Panahi é um dos nomes mais reconhecidos do cinema iraniano no exterior, com obras premiadas em festivais como Cannes, Veneza e Berlim. Ao longo da carreira, ele se tornou símbolo da resistência artística às restrições impostas pelo governo do país.
Diretor elogia postura de Mahmoudian na prisão
Em comunicado divulgado pela revista Variety, Jafar Panahi se manifestou sobre a prisão de Mahmoudian e destacou o comportamento solidário do roteirista. “Desde os primeiros dias, ele se destacou — não apenas por sua calma e gentileza, mas também por um raro senso de responsabilidade para com os outros”, afirmou.
Segundo Panahi, Mahmoudian costumava ajudar outros detentos, fornecendo itens básicos e apoio emocional. “Sempre que um novo prisioneiro chegava, Mehdi tentava fornecer-lhe itens de primeira necessidade e, mais importante, oferecer-lhe segurança. Ele se tornou um pilar silencioso dentro da prisão — alguém em quem os detentos de todas as crenças e origens confiavam e com quem se abriam”, completou.
Reconhecimento internacional e repressão interna
A indicação de Foi apenas um acidente ao Oscar 2026 reforça o contraste entre o prestígio internacional do cinema iraniano e a repressão enfrentada por seus criadores dentro do próprio país. O caso de Mahmoudian reacende críticas de organizações de direitos humanos sobre a criminalização da dissidência política e artística no Irã.
Enquanto o filme ganha projeção global, a prisão do roteirista amplia o debate sobre liberdade de expressão no país e sobre os riscos enfrentados por artistas que desafiam publicamente o regime iraniano.






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