* Paulo Baía
Na cidade do Rio de Janeiro, onde a política muitas vezes se distancia da realidade concreta das ruas, dos bairros e das urgências cotidianas da população, a trajetória de Rosa Maria Orlando Fernandes se impõe como um exemplo raro e valioso de coerência, permanência e compromisso público. Ao longo de mais de três décadas de mandatos consecutivos na Câmara Municipal, Rosa Fernandes construiu um caminho que não apenas desafia o desgaste comum da vida parlamentar, mas que se alimenta dele para aprofundar vínculos, multiplicar escutas e transformar demandas comunitárias em políticas públicas concretas. Rosa é, na plenitude do termo, uma vereadora de verdade. Uma mulher que não apenas ocupa um cargo público, mas que o vive como missão diária, tecida com o fio da escuta atenta, da presença firme e da tradução ética dos anseios do povo em leis, fiscalizações e ações que fazem a cidade se reconhecer em sua representação.
Nascida em Irajá, no coração da Zona Norte carioca, Rosa Fernandes não construiu sua identidade política nos gabinetes nem nos palanques efêmeros da eleição, mas no contato direto com os moradores, nas feiras, nas igrejas, nos centros comunitários, nas associações de bairro, nas unidades de saúde e nas escolas públicas. Graduada em Psicologia, com especialização em Sexologia Humana, ela transformou o saber acadêmico em instrumento de acolhimento e empatia, aproximando sua atuação política da escuta sensível das realidades mais desprotegidas da cidade. Seu gabinete não é um espaço de burocracia fria, mas um centro de escuta ativa, onde os moradores são recebidos com dignidade, e onde cada caso, cada problema, cada dificuldade é tratado com a seriedade e o respeito de quem reconhece o outro como sujeito de direitos.
Eleita pela primeira vez em 1992, Rosa Fernandes foi sucessivamente reconduzida ao cargo de vereadora em todos os pleitos seguintes, somando atualmente nove mandatos consecutivos. Tal longevidade política, em um contexto marcado por desconfiança generalizada na classe política e altos índices de renovação forçada, não se explica por acaso. O segredo de sua permanência está nos laços que ela nunca rompeu com os bairros que representa, nas pontes que constrói todos os dias entre o poder público e a realidade das comunidades, e na fidelidade inabalável à sua origem popular. Rosa não se afastou de onde veio. Continuou no chão das favelas, nas ruas da Zona Norte e da Zona Oeste, onde a cidade se faz e se desfaz em desigualdades e resistências.
Durante esses anos, Rosa Fernandes presidiu comissões decisivas, como a de Finanças, Orçamento e Fiscalização Financeira, além de atuar com vigor em CPIs que investigaram desde as enchentes até as irregularidades na administração de camarotes no Sambódromo. Sua atuação é marcada pela coragem de enfrentar estruturas, pela disposição de ir fundo nas causas dos problemas e pelo compromisso em propor soluções que escapem da lógica do improviso e se convertam em políticas estruturantes. Seu trabalho não é pirotécnico. É, antes, silencioso, contínuo, persistente. Uma política do cotidiano, que se desenrola na paciência da construção institucional e na lentidão necessária das mudanças que realmente importam.
Autora de mais de trezentas leis municipais, Rosa Fernandes dedicou sua produção legislativa a temas que raramente seduzem o noticiário, mas que tocam diretamente a dignidade da vida urbana. Leis que garantem isenção do IPTU para famílias de baixa renda, distribuição gratuita de próteses mamárias, cardápios em braile para pessoas com deficiência visual, apoio à população obesa, fortalecimento da rede pública de saúde, acolhimento às mulheres em situação de violência. Cada uma dessas iniciativas não nasce do abstrato, mas da escuta reiterada de um cotidiano sofrido, de uma cidade que clama por cuidado e atenção. Rosa ouve e age. Rosa vê e responde. Sua política é gesto e presença.
Em tempos de personalismo exacerbado, de carreiras políticas construídas na estética do marketing e na lógica do espetáculo, a trajetória de Rosa Fernandes ensina a potência da persistência silenciosa. Sua força está na constância. Sua autoridade, na coerência. Seu prestígio, na confiança conquistada a cada mandato, a cada voto recebido como resposta de gratidão e reconhecimento de um trabalho que não cessa. Rosa Fernandes não é estrela de ocasião. É estrela guia. Para muitos moradores, especialmente das regiões mais esquecidas pelo poder público, ela representa uma espécie de ponte entre o mundo das instituições e a dura realidade das ruas. É por isso que, eleição após eleição, ela ressurge como nome forte, como presença incontornável, como referência de quem faz política sem deixar de lado o sentido original da palavra: cuidar da cidade e dos cidadãos.
Filha do ex-deputado estadual Pedro Fernandes e mãe de Pedro Fernandes Neto, também com carreira política, Rosa insere-se em uma família de tradição pública. Mas é no seu próprio nome, na sua própria voz, na sua própria história que ela ergueu sua reputação. Completando décadas de vida pública, ela nunca se deixou capturar pelos desvios que tantos outros trilharam. Sua biografia permanece limpa. Sua atuação é reconhecida por adversários e aliados como exemplar. E sua presença na Câmara é, ainda hoje, uma garantia de que ao menos uma vereadora compreende a cidade como organismo vivo, como espaço de conflitos e sonhos, como lugar onde a política deve ser vivida com ética, sensibilidade e coragem.
Rosa Fernandes é, portanto, uma das figuras mais valiosas da política carioca. Não apenas por seus números expressivos nas urnas, mas pelo que representa como modelo de atuação pública. Uma mulher que transformou o mandato parlamentar em extensão do bairro. Que fez do cargo público uma forma de cuidado com o outro. Que resiste ao cinismo e à superficialidade com o vigor de quem acredita na política como serviço, como vocação, como amor pela cidade. O Rio de Janeiro, em toda a sua complexidade, precisa de mais figuras assim. Precisa de mais vereadoras e vereadores que saibam ouvir, trabalhar, propor, fiscalizar e permanecer próximos da vida real. Rosa é essa voz. E enquanto ela estiver na Câmara, a cidade saberá que ao menos uma cadeira está ocupada por quem não se esqueceu de onde veio, nem para quem trabalha, nem para quê foi eleita. Rosa Fernandes honra a política. Honra a cidade. Honra os votos que recebe com o trabalho cotidiano de quem faz política como deve ser feita: com verdade, com presença e com profundo respeito ao povo.
* Sociólogo, cientista político e professor da UFRJ





