A temporada de observação e de monitoramento de baleias-jubarte no litoral do estado do Rio de Janeiro está aberta. Vindas da Antártica, pedem passagem, rumo ao Banco dos Abrolhos, no sul da Bahia, no Nordeste do país, onde se reproduzem e escapam das baixas temperaturas. Oficialmente, para os humanos, a temporada tem início este mês e se estende até agosto em águas fluminenses. Como os pesados mamíferos não usam calendário, alguns indivíduos já foram avistados em maio.
Esse número tende a crescer nas próximas semanas, com pico em julho, reflexo direto do aumento da população das jubartes, num esforço de conservação desde 1986, quando foi proibida a caça comercial de baleias pela Comissão Baleeira Internacional (IWC, na sigla em inglês). No ano seguinte, a lei federal nº 7643 proibiu a pesca e qualquer forma de molestamento intencional de cetáceos em águas jurisdicionais brasileiras. Especialistas estimam que a espécie, que já esteve na lista de animais em risco de extinção, hoje, conta com cerca de 35 mil indivíduos.
Além dos barcos de pesquisa de projetos com profissionais que monitoram as jubartes, o mar deve ficar mais movimentado com embarcações de entusiastas e turistas em busca de uma oportunidade de avistamento desses animais. Os especialistas se preocupam em como essas aproximações podem ocorrer. Por isso, em parcerias com operadoras que oferecem os passeios, disponibilizam oficinas e treinamentos para capacitar todos os profissionais envolvidos, passando desde regras de segurança — para os humanos embarcados e para as baleias — às peculiaridades de comportamento desses animais.
O Projeto Baleia Jubarte foi criado em 1988 na Bahia. De lá para cá, muita coisa mudou, e para melhor. O carioca que vive há 35 no estado nordestino e diretor do projeto, Enrico Marcovaldi, hoje, já respira um pouco mais aliviado com o crescimento da população das jubartes. No início na empreitada com o grupo, não podia imaginar que, um dia, viria as ilustres visitantes na costa fluminense. A mudança de comportamento e o maior número de avistamentos trouxe o projeto para o Rio em 2021.
— Nem imaginávamos que teria baleias no Rio. É bem emblemático, porque vai na contramão de outras espécies de bichos silvestres por terem se recuperado. Elas são migratórias, hoje, com sete populações, sendo a maior delas que passa aqui no Brasil.
Cidades fluminenses litorâneas estão aproveitando a maré para os negócios, como Arraial do Cabo, na Região dos Lagos, e Rio de Janeiro e Niterói, na Região Metropolitana. A bióloga marinha Liliane Lodi, do projeto Ilhas do Rio, uma das referências no monitoramento de baleias-jubarte na capital, destaca que todos os interessados em observação devem estar atentos às boas práticas. Há uma série de normas, definidas por lei federal, que devem ser respeitadas, entre elas a distância das embarcações dos animais, que deve ser no mínimo de 100 metros com o motor mantido em neutro para cituar o animal através do som; o limite de duas embarcações próximo aos animais observados ao mesmo tempo; não perseguir, com o motor ligado (engrenado), qualquer espécie de cetáceo por mais de 30 minutos ainda que respeitadas as distâncias estipuladas; e não interromper o curso do animal, dividindo-os ou dispersando-os, entre outros.
— Eles são protegidos por legislação que coíbe distúrbios e molestamentos. São atitudes que todos precisam ter. Ações simples que minimizam os impactos. Tem que ser um trabalho colaborativo. Não adianta uma embarcação seguir as normas, e as outras, não. O fato de a população estar aumentando é um motivo de muita alegria, e devemos prestar muita atenção para não gerar impacto — salienta Liliane.
Criado há 10 anos no Espírito Santo, o Projeto Amigos da Jubarte navegou para águas fluminenses após um convite da Prefeitura de Niterói, em 2022, para uma parceria de estudo da fauna marinha de seu litoral. Na região foi visto uma potencialidade de projetos, entre eles, o fomento ao ecoturismo alinhado à conservação e pesquisa científica. Coordenador do Projeto Amigos da Jubarte e ambientalista, Thiago Ferrari destaca que, para o turismo, mais vale ter as baleias presentes. Apenas a prática de observação por entusiastas e turistas, afirma, pode gerar 3 bilhões de dólares em todo o mundo por ano.
— Aqui é um dos maiores berçários de baleia-jubarte do mundo. O turismo de observação é uma importantíssima ferramenta de conservação da própria espécie e uma oportunidade de transmitir os valores ambientais. A partir daí trabalhamos com as agências em processo de capacitação, com guias de turismo. A embarcação deve estar regulamentada na Capitania dos Portos, com todos os itens que garantem a segurança. Abordamos a legislação de proteção a cetáceos e a importância de ser respeitada — destaca Ferrari.
Com o projeto atuando em parceria com operadoras de turismo também no Espírito Santo, Ferrari conta que viu o número de interessados saltar de 400 no lançamento da parceria até quase 2 mil na temporada do ano passado. Aqui, esse trabalho, também em colaboração, será em Niterói, com apoio da Neltur. Numa fase inicial, o público pôde se cadastrar para receber as informações. Foram mais de 5 mil cadastrados, inclusive de fora do estado.
— Um dos nossos pesquisadores vai nesses passeios para auxiliar desde a transmissão das informações para a educação ambiental, com uma palestra ainda no cais, a importância dos animais, um material explicando sobre conservação também de outras espécies desse ambiente, como aves e golfinhos. Tudo isso no passeio. Ao mesmo tempo, esse profissional pode produzir pesquisas científicas, também auxiliando na aproximação correta para ter uma integração mais agradável.
Com foco am passeios de cunho ambiental, há três anos a empresa Planeta Terra Azul Turismo conversava com representantes do Amigos da Jubarte sobre o início dos passeios para avistamento em Niterói. Neste ano, o planejamento sai do papel e vai para o mar, com o primeiro passeio na próxima sexta-feira, dia 14. Para este mês, as saídas são praticamente diárias, com valor entre R$ 550 e R$ 600, a depender do dia. São 20 vagas na embarcação para o público.
— O passeio também é com o objetivo de conscientização ambiental. Nas viagens pode acabar vendo outros animais da fauna marinha, como tartarugas, aves, golfinhos e baleias. Ou pode não ver nada. Eu não tenho o WhatsApp da baleia — ri o proprietário da empresa, Agnnaldo Motta, com mais de 40 anos no mercado de turismo. A embarcação sai da Baia de Guanabara em Niterói, a partir do Clube Naval ou do Iate Clube. — É uma rede de informações. Se um barco viu, informa.
As viagens podem durar até nove horas, com retorno no fim da tarde. A confirmação é enviada nos dias anteriores à data comprada, após acompanhamento das condições do tempo e do mar. Em caso de cancelamento, há possibilidade de reagendamento ou devolução do valor. O passeio é direcionado para o público adulto e jovem, e não é recomendado para crianças pequenas, por questão de segurança. Quem quiser levar drone precisa informar à empresa com antecedência.
Nos mesmos moldes funcionará os passeios turísticos que o Projeto Baleia Jubarte faz os últimos ajustes ao lado de parceiros, com suporte de capacitação e de especialistas acompanhando. As saídas-teste terão início em breve para os detalhes da operação.
— Vamos fomentar, promover e capacitar para a observação, monitorando as atividades.
Queremos participar desse tipo de atividade porque acreditamos que o turismo de observação é uma grande ferramenta de conservação e de sensibilização das pessoas. Quando veem, se apaixonam, acham maravilhoso — diz o diretor do Projeto Baleia Jubarte.
Se há quem vai mar adentro para ver baleias, também há espaço para os encontros inesperados mais perto da costa. No dia 29 de maio, a analista de contratos Taissa Pitta seguia a rotina de exercício na prática de canoa polinésia, na Praia de Itaipu, em Niterói. Enquanto o grupo de amigos remava, foram vistos riscos na água. Eram três baleias-jubarte, sendo duas adultas e uma, aparentemente, filhote.
— Logo que saímos, vimos os riscos no entorno da Ilha da Menina. Quando passou do lado da gente e eu gritei “Meu deus, tá muito perto”. Estava passando por baixo da gente. Ali tem muita vida marinha, tem a vila pesqueira, não sei se isso pode ter as atraído — conta Taissa.
Com o celular que usa para registrar o trajeto na canoa, logo começou a fazer vídeos dos animais. Tranquilos, soltavam os característicos borrifos, se aproximando e se afastando do grupo, que permaneceu calmo, sem tentar interagir. Em um ano e meio praticando o esporte, Taissa já presenciou outras visitas, como duas semanas antes deste registro, mas nunca tão próximas.
— É muita euforia ver um animal desse tamanho. Há um tempo tinha risco de não existir mais. São até 40 toneladas passando do seu lado, e totalmente pacífico. É muito lindo. Todos eufóricos, sorrindo, não pode gritar, tem que se conter. Estamos no espaço delas. Na canoa tinha uma menina que foi duas vezes a Abrolhos e disse que nunca tinha visto tão de perto. Saímos para fazer um exercício físico e nos deparamos com esse espetáculo.
Leia a reportagem completa do jornal O Globo no link abaixo:





