Se você ainda acha que fazer turismo no Rio de Janeiro é só subir o Cristo Redentor ou o Pão de Açúcar, mergulhar em Copacabana ou Ipanema, ou talvez ouvir um sambinha na Pedra do Sal, prepare-se para atualizar o software. O Seminário de Turismo RJ, realizado no Hotel Nacional, em São Conrado, realizado pela Agenda do Poder e com apoio do Correio da Manhã, reuniu especialistas, empresários e representantes do poder público para debater o presente e o futuro promissor do turismo fluminense.
Os números apresentados são de dar inveja a qualquer destino de cartão-postal. Só em 2025, o estado recebeu 2,2 milhões de turistas estrangeiros e a meta para 2026 é ultrapassar 2,5 milhões. Turistas brasileiros foram 15 milhões. Nos primeiros dois meses deste ano, o Rio já passou São Paulo no quesito “visitante estrangeiro”. E isso tudo acontecendo com Guarulhos concentrando bem mais voos do que o Galeão.

Os investimentos e a reorganização de linhas aéreas em nosso aeroporto ajudam a explicar o sucesso. Em quatro anos, o número de passageiros que desembarcou no Tom Jobim saltou de seis milhões para 18 milhões de visitantes. Americanos, canadenses e africanos estão entre os principais hóspedes, segundo os hoteleiros.
O Carnaval ajuda? Claro. Só ele movimentou R$ 5,9 bilhões, com 428 blocos espalhados pelas ruas da Guanabara e hotéis operando a 98,5% de capacidade. “Essa ideia de estender o desfile para três dias foi ótima. Afinal, por óbvio, mantemos aquele turista consumindo mais um dia na cidade”, disse o presidente da TurisRio, Sérgio Ricardo.
Iniciativas diversas fomentam setor
Mas o Rio não é só a Guanabara. Ao longo do seminário foram debatidas iniciativas nas 12 regiões turísticas do estado. “Paraty é a quinta cidade do país que mais recebe turistas ingleses e americanos. Búzios continua atraindo argentinos. O Vale do Café está renascendo graças a produção de queijos e cachaças de qualidade. E a Região Serrana tem se destacado com ideias inovadoras. Estamos atravessando um momento espetacular”, comemorou o subsecretário estadual de Turismo, Nilo Sérgio Félix, uma das maiores autoridades do setor no estado, onde já foi o titular da secretaria de Turismo e presente da TurisRio.
Um dos casos mais citados é o sucesso do Parque dos Dinos, em Miguel Pereira. O projeto estava em desenvolvimento desde 2018, através de uma concessão junto à Prefeitura. Além de ser o maior espaço do gênero no mundo, ele conta com mais de 40 modelos de bichos pré-históricos, em escalas reais, divididos em três períodos da história do Planeta Terra. E pode ficar tranquilo. Nenhum deles é resultado de uma engenharia genética sofisticada, feita a partir de um mosquito preso em âmbar, e não vai correr atrás de você.

Mas o “Jurassic Park Brasileiro” também tem seus problemas. “Recentemente eu trouxe um dinossauro robô pequenininho, coisa de uns US$ 2 mil e criei um ambiente para ele operar. Mas até hoje a Alfândega não me liberou a encomenda”, contou com bom-humor o empresário Márcio Clare, dono do Terra dos Dinos que, quando a burocracia não atrapalha, gera 200 empregos diretos na cidade.
“O setor do turismo é essencialmente privado. Mas cabe ao poder público fazer com que a gente consiga tornar, pelo menos, o terreno mais fértil”, afirmou o secretário de Desenvolvimento Econômico e Turismo de Rio das Ostras, Pablo Kling: “Se chega um empreendedor e fala ‘vamos implantar um parque temático aqui’, e aí esbarra numa licença ambiental, isso é problema dele? Não é. Eu tenho que tomar aquilo para mim como um problema meu, porque aquilo vai trazer benefícios para toda a cidade”, disse.
Interior como fonte de crescimento
O painel dedicado ao turismo regional foi um dos mais animados. Afinal, o interior do estado tem cachoeiras de todos os tipos, de todos os tamanhos e para todos os gostos. Fauna e flora exuberante. E agora vai ter até vinho próprio para aquele amigo que não gosta de trilha e prefere a tranquilidade da varanda de uma pousada.
Em junho, a cidade de Areal será sede do 1º Festival do Vinho do Rio, com participação já confirmada de 16 produtores de qualidade. Um dos destaques do evento será a Vinícola Maturano, que vai apresentar o primeiro espumante feito exclusivamente com uvas plantadas em Teresópolis. Os primeiros três hectares destinados ao espumante devem render algo como 12 mil garrafas até o fim do ano.
Segundo o subsecretário de Eventos do estado do Rio, Marcelo Monfort, durante pandemia muita gente correu para as montanhas, e depois que o pior passou, resolveu ficar por lá. Atento, o mercado não deixou a banda passar. “Você tem hoje uma grande oferta de condomínios de luxo, outros temáticos, como o Borgo del Vino, em Areal. Outros estão a caminho. Esses novos moradores não vão querer ir só na velha quitandinha. Vão querer um comércio melhor, mais opções de lazer, restaurantes, e tudo isso cria um ecossistema novo e extremamente atraente”, afirmou.
“Turismo e Rio de Janeiro são irmãos siameses. É fundamental para economia. Não se pode admitir um estado com as características naturais que tem o Rio de Janeiro, sem lembrar que o turismo é fundamental”, disse Ricardo Bruno, diretor executivo da Agenda do Poder.

“O Rio de Janeiro perdeu protagonismo no turismo em função da violência. Mas hoje, essa questão foi contornada e temos uma recuperação clara. Isso também se deve ao trabalho feito pela Secretaria Estadual de Turismo, com participações em feiras do Brasil e do mundo todo. O ex-secretário Gustavo Tutuca, por exemplo, promoveu o turismo no Rio de Janeiro por todo mundo, participando de pelo menos 16 importantes feiras internacionais mostrando, não só a beleza da capital, mas também do interior”, acrescentou.
Olho nas comunidades
E mesmo nas comunidades carentes o turismo do Rio cria e se reinventa. Os tours de jipe em algumas comunidades estão consolidados e projeto “Na Favela Turismo” tem levado visitantes a um mirante da Rocinha onde surgiu um fenômeno turístico que você certamente já viu passar no seu Instagram. É um vídeo onde visitantes aparecem caminhando até a beirada de uma laje, quando um drone se afasta rapidamente e revela a dimensão da Rocinha e a paisagem ao redor. O pacote, que inclui gravação profissional, edição do vídeo e acesso organizado ao local, custa R$ 200.
O calendário tem crescido para não deixar turista algum entediado. Tem Carnaval, Árvore de Natal na Lagoa, Réveillon, Rock in Rio, Shakira na praia em maio, o festival de arte ArtRio em setembro, futebol no Maracanã e a cidade ainda está se preparando para ingressar em um clube de repercussão mundial.
E um pé nas maratonas internacionais
A Maratona do Rio, realizada em junho, pretende entrar para o seleto grupo das World Marathon Majors, ao lado de Boston, Tóquio e Nova York, entre outras. “Já estamos no pico, esperando passar a onda para surfá-la”, brincou Duda Magalhães, presidente da DreamFactory, uma “empresa de experiências”, que tem no portfólio a busca de patrocinadores para eventos como o Carnaval de rua do Rio e São Paulo ou a Árvore de Natal da Lagoa. O Desafio da Ponte Rio-Niterói, que voltou ao calendário no ano passado com quase oito mil participantes, já aquece os motores dessa ambição.
O recado do seminário foi claro: o Rio tem sol, mar, morro, vinho, dinossauro (quando a alfândega deixar) e um calendário de eventos de dar inveja. Com planejamento, parceria entre poder público e iniciativa privada, e um olho atento nos desafios que ainda restam (como organizar o problema dos AirBnbs ou o aumento do preço do querosene, em função da guerra no Oriente Médio, que pode impactar o preço das passagens aéreas), o estado quer transformar esse momento em algo sustentável e continuar sendo aquele destino que tem no turismo seu irmão siamês.






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