No muro que cerca a sede do MetrôRio, na Avenida Presidente Vargas, no Centro, uma pichação sintetiza a insatisfação de muitos usuários: “R$ 7,90. Tá caro”. A crítica reflete o descontentamento crescente com os preços do transporte sobre trilhos no Rio de Janeiro, agravado por superlotação e queda na qualidade do serviço. Em meio a um rombo orçamentário estimado em R$ 14,6 bilhões para este ano, o governo estadual acena com a possibilidade de reduzir as tarifas de trem e metrô para R$ 4,70, mesmo valor adotado nas barcas desde março. As informações são do jornal O GLOBO.
A expectativa, segundo o secretário estadual de Transportes, Washington Reis, é que a medida gere um aumento diário de 500 mil passageiros. O número de usuários do metrô passaria de 650 mil para 900 mil, e o de trens, de 358 mil para 600 mil.
— É pouco dinheiro diante do benefício. Mais pessoas serão atraídas para o sistema de alta capacidade, e se consegue tirar carros das ruas — defende Reis.
A proposta, que depende de decreto do governador Cláudio Castro (PL), custaria R$ 300 milhões ao estado em 2025 e R$ 500 milhões no ano seguinte. Os recursos sairiam do Fundo de Combate e Erradicação da Pobreza (FECP), que atualmente conta com cerca de R$ 5 bilhões. O fundo já é utilizado para financiar o Bilhete Único Intermunicipal, e teve sua aplicação ampliada após reestruturação aprovada pela Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) em 2023.
O deputado estadual Luiz Paulo Corrêa da Rocha (PSD), vice-presidente da Comissão de Tributação da Alerj, aponta que o déficit fiscal do estado é um fator complicador para a implementação da chamada Tarifa RJ.
— Pode ser que diminua o rombo. Mas, de qualquer jeito, o estado vai fechar com mais de R$ 5 bilhões no vermelho.
O parlamentar, que acompanha o grupo responsável por discutir a nova modelagem da operação ferroviária do Rio — com a SuperVia prevista para devolver a concessão entre julho e setembro —, avalia que a operação deve seguir o modelo das barcas: licitação da operação, com controle estatal sobre a bilhetagem e responsabilidade por investimentos.
— O assunto ainda está em discussão, mas em tese diria que o operador dos trens deve receber por quilômetro transportado de passageiro. Se o estado for dono da bilheteria, pode botar a tarifa que quiser. Isso facilita reduzir o preço do trem (hoje, custa R$ 7,60) — afirma Luiz Paulo.
Para o metrô, por ser uma concessão vigente, a redução de tarifa exigiria subsídio. O deputado também sugere uma alternativa ao FECP: utilizar o fundo de transportes, que empenhou R$ 301 milhões neste ano, dos quais R$ 153 milhões já foram pagos até abril. Ele acredita que o Conselho de Supervisão do Regime de Recuperação Fiscal, ao qual o Rio ainda está vinculado, não deve se opor ao subsídio.
O economista André Luiz Marques, do Insper, alerta para o impacto fiscal:
— Quando você reduz de um lado, aumenta a necessidade de subsídio do outro, e eleva a pressão sobre o orçamento do estado. Você gera um fôlego a mais, mas a conta vai chegar mais para frente. Você pode ter um alívio no curto prazo, mas a longo prazo a conta vai ser cobrada.
Marcus Quintela, diretor da FGV Transportes, destaca que o MetrôRio é a única concessão do país que funciona exclusivamente com base na tarifa paga pelo passageiro, sem nenhum subsídio público.
— O MetrôRio é a única concessão do país que ainda vive da tarifa (sem subsídio do estado). Por isso, tem a tarifa mais cara do Brasil. Em outras cidades, os metrôs recebem uma tarifa subsidiada.
Além da questão financeira, Quintela chama a atenção para os impactos operacionais que a redução de preços pode causar.
— A partir do momento em que se reduz a tarifa, a demanda pode aumentar. Então, é preciso ofertar transporte. Nesse caso, seria importante diminuir o tempo de circulação de trens, dar conforto aos usuários. Senão, pode-se criar um caos no sistema.
De acordo com o secretário Reis, o estado está investindo na ampliação da capacidade do sistema: 40 novos trens e dez composições para o metrô estão em fase de aquisição.
O MetrôRio argumenta que, diferentemente de outros sistemas no Brasil e no mundo, no Rio o passageiro arca com o custo integral da operação. “O cidadão paga a tarifa técnica integral (custo total da operação), pois ainda não há subsídio para os transportes sobre trilhos”, informa a concessionária. A empresa também destaca que apenas a população com renda mensal inferior a R$ 3,2 mil tem acesso à tarifa social, no valor de R$ 5.
Apesar das possíveis melhorias, os passageiros ainda convivem com problemas diários. Uma pesquisa da FGV Transportes que comparou a mobilidade urbana em Rio, São Paulo e Belo Horizonte, mostrou que os usuários cariocas estão entre os mais insatisfeitos. No Rio, 40% consideram a mobilidade ruim ou péssima, e a cidade obteve a pior nota entre as três capitais: 4,6 em uma escala de 0 a 10.
— Pagar R$ 7,60 para andar esmagada no ramal Japeri caindo aos pedaços é um absurdo — desabafa Marina Alves, moradora da Baixada Fluminense.
O caso da tarifa subsidiada nas barcas serve de exemplo. Desde março, com a parceria entre o governo do estado e a prefeitura de Niterói, o preço das passagens caiu: a linha Charitas passou de R$ 21 para R$ 7,70 e as linhas Arariboia, Cocotá e Paquetá, de R$ 7,70 para R$ 4,70. Como reflexo, o número de passageiros aumentou e houve queda no número de carros em circulação. Dados do Centro de Controle de Operações mostram que, na comparação entre as primeiras semanas de março e abril, cerca de seis mil veículos deixaram de circular, apenas na Avenida Quintino Bocaiúva, em Niterói.
No dia 30 de abril, véspera de feriado, o sistema aquaviário bateu recorde de passageiros desde a pandemia. A linha Charitas teve 7.445 usuários em um único dia — um aumento de 112% em relação ao mesmo período de 2024.
Agora, resta saber se o mesmo efeito poderá ser alcançado nos trilhos, caso o plano do governo avance.





