A receita do Instituto Conhecer Brasil (ICB), organização não governamental (ONG) investigada por suspeitas de irregularidades em um contrato de R$ 108 milhões firmado com a Prefeitura de São Paulo, registrou um crescimento expressivo entre 2022 e 2025. Documentos financeiros apresentados pela própria entidade ao Ministério da Justiça indicam que o faturamento saltou de R$ 306 mil para R$ 54 milhões no período, um aumento de aproximadamente 170 vezes.
Os dados constam das demonstrações financeiras encaminhadas pela ONG em fevereiro deste ano durante o processo de solicitação do certificado de Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip) e obtidas pelo portal Metrópoles. O reconhecimento permite que entidades sem fins lucrativos ampliem as possibilidades de firmar parcerias e captar recursos públicos, mas o pedido do ICB acabou recebendo ressalvas técnicas do Ministério da Justiça.
Paralelamente ao crescimento financeiro da organização, a entidade passou a executar o contrato firmado com a administração municipal paulistana para a instalação de 5 mil pontos de acesso à internet em regiões periféricas da cidade. O acordo é alvo de investigação conduzida pela Polícia Civil de São Paulo.
Receita cresceu impulsionada por recursos públicos
Segundo as demonstrações financeiras, a maior parte da arrecadação registrada em 2025 teve origem em recursos públicos. Do total de R$ 54 milhões declarados, R$ 51,9 milhões foram classificados como “parcerias e subvenções governamentais”. O balanço também registra R$ 2 milhões em “subvenções com educação” e R$ 2,6 milhões provenientes de “receita prestações de serviço”.
Em 2022, quando a receita total era de apenas R$ 306 mil, praticamente toda a movimentação financeira foi destinada à rubrica “serviços de terceiros”, que consumiu R$ 299 mil. O documento, porém, não detalha quais empresas ou profissionais receberam esses pagamentos.
Situação semelhante aparece no balanço referente a 2025. A maior despesa informada foi novamente com “serviços de terceiros”, desta vez no valor de R$ 52 milhões, sem discriminação dos beneficiários.
Além dessa rubrica, a entidade declarou outras despesas administrativas, entre elas:
- Despesas com pessoal: R$ 452 mil;
- Encargos sociais: R$ 85 mil;
- Serviços de terceiros pessoa jurídica: R$ 52 mil;
- Comunicação: R$ 18,8 mil;
- Aluguéis: R$ 224 mil;
- Manutenção do imóvel: R$ 9,1 mil;
- Transporte e veículos: R$ 70 mil;
- Outras despesas e manutenção de projetos: R$ 72 mil;
- Impostos, taxas e contribuições: R$ 3,3 mil;
- Multas e juros: R$ 1 mil;
- Despesas bancárias: R$ 88,7 mil;
- Depreciação e amortização: R$ 4,1 mil.
Pedido de certificação recebeu exigências do Ministério da Justiça
Os documentos financeiros foram apresentados ao Ministério da Justiça durante o processo para obtenção da certificação de Oscip. Em análise técnica emitida em 29 de março, um servidor da pasta concluiu que o estatuto social da entidade continha dispositivos incompatíveis com a legislação vigente.
O parecer estabeleceu prazo de 60 dias para que o Instituto Conhecer Brasil promovesse alterações no documento.
Entre as exigências estava a retirada da previsão de concessão de benefícios aos associados e a inclusão de dispositivo determinando a prestação gratuita dos serviços, conforme previsto para organizações dessa natureza.
O parecer registra:
“Conforme disposto no artigo 8º inc II, do Estatuto Social, a entidade estabelece que os associados serão beneficiados pelos serviços oferecidos pela entidade. Dessa forma, verifica-se que entidade incide na vedação prevista no artigo 2º, inciso V, da Lei nº 9.790/99, uma vez que dispõe que os associados poderão ser beneficiados pelos serviços prestados pela entidade social. Ocorre que os serviços oferecidos pela entidade social devem ter caráter exclusivamente público, não permitindo a Lei nº 9.790/99 o usufruto dos serviços da entidade pelos seus associados”.
O prazo para apresentação das adequações terminou em 29 de maio. Até o momento, não há informação pública sobre eventual atualização do estatuto da organização.
Investigação apura possível desvio de recursos
O contrato investigado foi firmado em 2024 entre o Instituto Conhecer Brasil e a Prefeitura de São Paulo. O objeto do acordo previa a implantação de 5 mil pontos de wi-fi em áreas periféricas da capital paulista.
Para executar o serviço, a ONG contratou empresas terceirizadas especializadas em telecomunicações. A investigação passou a analisar a documentação utilizada para comprovar esses pagamentos.
Entre os elementos apontados pelos investigadores estão notas fiscais consideradas suspeitas, incluindo um documento de R$ 1,2 milhão emitido em nome do próprio Instituto Conhecer Brasil e outra nota de R$ 2 milhões que posteriormente foi cancelada.
A representante legal do ICB é Karina Ferreira da Gama, sócia da produtora Go Up Entertainment. No início de junho, tanto a ONG quanto a empresa foram alvo de operação da Polícia Civil.
Segundo o Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC), uma das linhas de investigação busca esclarecer se parte dos recursos públicos recebidos pela entidade foi utilizada para financiar a produção cinematográfica Dark Horse, que retrata a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Ao solicitar acesso aos relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) referentes a Karina Ferreira da Gama, a promotora Marina de Azevedo Pedersolli afirmou:
“Os fatos investigados envolvem, em tese, possíveis crimes licitatórios, lavagem de capitais, organização criminosa e eventual desvio de verbas públicas”.
Produtora nega uso de recursos públicos no filme
A Go Up Entertainment afirma que os recursos provenientes do contrato firmado entre a ONG e a Prefeitura de São Paulo não foram utilizados para financiar o longa-metragem Dark Horse.
Segundo a produtora, o filme teve custo total declarado de R$ 75 milhões, sendo R$ 54,2 milhões investidos nos Estados Unidos e R$ 20,9 milhões no Brasil.
Esses valores constam de uma perícia privada contratada pela própria empresa e anexada ao inquérito que investiga o suposto desvio de recursos públicos. O procedimento tramita sob segredo de Justiça.
O orçamento informado pela produtora é inferior ao valor mencionado em reportagens sobre negociações envolvendo o financiamento do filme. De acordo com informações divulgadas pelo site The Intercept Brasil, conversas atribuídas ao banqueiro Daniel Vorcaro indicariam uma proposta de aporte de US$ 24 milhões — cerca de R$ 134 milhões na cotação da época — para a produção.
As mensagens citadas descrevem uma estrutura de pagamentos dividida em 12 parcelas de US$ 1,6 milhão e outras duas de US$ 2 milhões.
Posteriormente, segundo a reportagem, o senador Flávio Bolsonaro encaminhou um áudio a Vorcaro manifestando preocupação com o atraso no pagamento das parcelas relacionadas ao patrocínio do Banco Master ao filme. A conversa teria ocorrido em 16 de novembro, um dia antes da primeira prisão de Vorcaro no âmbito da Operação Compliance Zero, investigação que apura supostas fraudes bilionárias envolvendo a instituição financeira.






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