Uma megaoperação das polícias Civil e Militar tenta prender os traficantes Bruno da Silva Loureiro, o Coronel, e José Rodrigo Gonçalves Silva, o Sabão da Vila Aliança. Durante a ação, houve intenso tiroteio, suspensão de linhas de ônibus e trens, além do bloqueio de vias como a Avenida de Santa Cruz e a Estrada do Taquaral. O 14º BPM (Bangu) confirmou oito mortos e dois suspeitos presos.
Coronel é apontado como responsável pela morte da jovem Sther Barroso dos Santos, espancada em um baile funk em Senador Camará. Já Sabão tem dois mandados de prisão em aberto e é considerado o principal chefe do tráfico nas comunidades da Vila Aliança e da Coreia. Ambos são ligados a facção criminosa Terceiro Comando Puro (TCP).
Quem é Sabão?
José Rodrigo Gonçalves Silva, conhecido como Sabão, é apontado pela polícia como chefe do tráfico de drogas das comunidades Vila Aliança e Coreia, em Senador Camará, Zona Oeste. Ligado ao TCP, o criminoso é considerado um dos principais nomes da facção na região e tem sido alvo constante de operações policiais nos últimos anos.
Em janeiro deste ano, Sabão conseguiu escapar de um cerco montado por agentes da Delegacia de Combate às Drogas (DCOD), na comunidade da Coreia. Na ocasião, seus comparsas abriram fogo contra os policiais e chegaram a lançar uma granada contra o blindado da Polícia Civil.
Para dificultar a perseguição, os criminosos espalharam “miguelitos” — pregos retorcidos usados para furar pneus. Três tabletes de maconha foram apreendidos no local.
Meses depois, em junho, informações de inteligência da polícia apontaram que o traficante teria sido baleado durante uma operação conjunta da Delegacia de Armas, Munições e Explosivos (Desarme), da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) e da Delegacia de Roubos e Furtos de Cargas (DRFC), também nas comunidades Coreia e Vila Aliança.
Fontes policiais divergiram sobre a gravidade dos ferimentos: enquanto algumas relataram que ele foi atingido na mão, outras afirmaram que os disparos acertaram o ombro e o cotovelo. Boatos de que ele havia morrido chegaram a circular, mas não foram confirmados. A ação terminou com três suspeitos feridos — dois deles não resistiram.
Sabão é conhecido pelo controle rígido das áreas que domina. Há relatos de que ele teria imposto toques de recolher a moradores, seja por operações policiais, ou por ameaças de invasões de facções rivais.
Em agosto de 2019, policiais da Delegacia de Roubos e Furtos de Automóveis (DRFA) prenderam seu principal aliado, Anderson Ferreira Cabral, o Gud, então com 24 anos.
Considerado braço direito de Sabão, ele foi capturado na Vila Aliança em uma operação com apoio do Batalhão de Operações Especiais (Bope). Na ocasião, foram apreendidos um fuzil, uma pistola Glock adaptada para disparos em rajada, munições e drogas.
De acordo com investigações da DRFA, a organização criminosa comandada por Sabão não atua apenas no tráfico de drogas, mas também está envolvida em roubos de veículos na região de Senador Camará.
Atualmente, contra Sabão existem dois mandados de prisão expedidos entre 2021 e 2023. Nesta quinta, a polícia informou que ele teria sido surpreendido pela ação conjunta, mas não confirmou se os principais alvos foram capturados.
Coronel
O traficante Bruno da Silva Loureiro, mais conhecido como Coronel, também é um dos principais nomes da facção. Ele está sendo investigado por envolvimento na morte de Sther Barroso dos Santos, de 22 anos.
A jovem foi espancada até a morte e teve o corpo abandonado na porta de casa, na Vila Aliança, após se recusar a acompanhar o traficante em um baile funk na comunidade da Coreia, em Senador Camará, Zona Oeste do Rio. Ele é apontado como o chefe do tráfico na comunidade do Muquiço, em Guadalupe, área dominada pelo TCP.
Foragido da Justiça, Coronel acumula uma longa ficha criminal, com pelo menos 12 mandados de prisão nos últimos cinco anos por crimes como homicídio, tráfico, roubo e porte ilegal de armas. Investigadores afirmam que ele circula entre a Maré e territórios dominados pelo TCP na Zona Oeste, onde costuma frequentar bailes.
Embora estivesse escondido no Complexo da Maré, a polícia apurou que o criminoso voltou a circular em territórios da facção, como Vila Aliança e Coreia. Esses locais estão sob domínio de Rafael Alves, o Peixe, outro integrante da mesma facção.
Coronel é conhecido por uma figura temida e de grande influência, que se vale da violência para impor respeito. A morte de Sther teria sido motivada unicamente pela negativa dela em acompanhá-lo durante o baile.
Série de crimes e mandados de prisão
O primeiro mandado de prisão preventiva contra Bruno foi expedido em 2019, quando o Ministério Público denunciou ele e outros dois homens — Samuel de Oliveira Gomes e Tauan Luiz dos Santos Ramos — por homicídio duplamente qualificado, associação para o tráfico e corrupção de menores. O caso estava ligado ao domínio do TCP no Muquiço, em Honório Gurgel.
Segundo a denúncia, em setembro de 2018, o grupo, junto de um adolescente, abriu fogo contra Douglas Luiz dos Santos Nascimento, que morreu no local. Laudos periciais confirmaram que os disparos foram a causa do óbito. O MP sustentou ainda que os três mantinham uma associação criminosa estável e recrutavam menores de idade para atividades do tráfico.
Outro mandado contra Coronel foi decretado em junho do ano passado. Ele e Luciano Matheus Silva Batista, o Esquerdinha, foram denunciados pelo MP-RJ por participação em uma chacina no Parque de Madureira, em março de 2021. Na ocasião, cinco pessoas foram atingidas por disparos durante uma partida de futebol. Três morreram: Juan José Telles de Souza, o Aleijado, Roni Carvalho Otoni, o Rozy, e Ygor Ney de Oliveira, o Nenzoca. Outras duas vítimas sobreviveram após atendimento médico.
De acordo com as investigações, o ataque teve motivação em disputas entre facções: as vítimas seriam ligadas ao Comando Vermelho, enquanto Coronel e Esquerdinha estariam a serviço do TCP. Testemunhas, incluindo um sobrevivente, reconheceram os criminosos como autores dos disparos. Para o MP, a chacina foi planejada tanto como vingança quanto para reafirmar o domínio territorial da facção.
A Justiça, ao decretar a prisão, destacou a gravidade dos crimes e o risco à ordem pública, ressaltando que o ataque ocorreu em uma área de lazer frequentada por moradores.
Sobre a operação
Os mortos, segundo os agentes, seriam suspeitos de tráfico que estavam em uma casa e faziam um pastor evangélico e uma criança reféns. Com os presos, os policiais recolheram dois fuzis e pistolas.
Bruno e José, segundo as investigações, se abrigaram na região, o que motivou operação emergencial das forças de segurança. Coronel é acusado de mandar espancar Sther até a morte após a vítima se recusar a ficar com ele durante um baile funk na comunidade da Coreia, na mesma região. Sabão comanda o tráfico da Vila Aliança e naquela favela, e também participou do crime.
Em vídeos publicados nas redes sociais, moradores filmaram dois helicópteros da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) — tropa de elite da Polícia Civil — trocando tiros com bandidos
Em represália, traficantes bloquearam vias importantes e atearam fogo em barricadas e em ao menos quatro ônibus, como na Avenida Santa Cruz, uma das principais de Senador Camará.
“Muito tiro aqui em Camará, atenção aí, morador”, publicou um perfil nas redes sociais. “Muito tiro uma hora dessa, as crianças na escola, meu Deus”, relata uma moradora nas imagens. Quem seguia de trem para Senador Camará, precisou se jogar no chão para se proteger dos disparos. As imagens mostram o desespero de usuários do transporte.
Também participam da ação a Subsecretaria de Inteligência da Polícia Civil (Ssinte), a Subsecretaria de Inteligência da Polícia Militar (SSI), a Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), além da Core e o Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope).
Impactos na rotina da população
A intensa troca de tiros interrompeu o funcionamento de unidades de saúde, transportes e a rotina de estudantes. Segundo o Rio Ônibus, seis veículos estão sendo utilizados como barricadas:
C30315 – 731 (Campo Grande x Marechal Hermes)
D13330 – 926 (Senador Camará x Penha)
D13149 – 926 (Senador Camará x Penha)
D13021 – 737 (Santissimo x Cascadura)
D86310 – 855 (Terminal Magarça x Terminal Deodoro via Bangu)
D86214 – LECD122 (Terminal Campo Grande x Bangu)
Ainda segundo o Rio Ônibus, outras seis linhas desviaram os itinerários desviados preventivamente. São elas:
- 731: Campo Grande – Marechal Hermes
- 737: Santíssimo – Cascadura
- 746: Jabour – Cascadura
- 803: Jabour – Taquara
- 926: Senador Camará – Penha
- SV790: Campo Grande – Cascadura
Por conta do tiroteio, a SuperVia informou que a circulação no ramal Santa Cruz opera da Central do Brasil até Bangu e de Campo Grande até Santa Cruz. O trecho entre as estações Senador Camará, Santíssimo e Augusto Vasconcelos foi suspenso.
O Centro de Operações e Resiliência da Prefeitura do Rio (COR-Rio) informou que motoristas devem evitar a região de Senador Camará, principalmente os acessos à Rua Coronel Tamarindo e Rua Doutor Augusto Figueiredo.
Agenda do Poder procurou as secretarias de Saúde e Educação do município e estado. Segundo a SMS, duas unidades de Atenção Primária precisaram suspender o funcionamento para segurança de pacientes e funcionários. Outras duas unidades mantêm o atendimento à população, mas tiveram de suspender as atividades externas, como visitas domiciliares.
Unidades de urgência e emergência não interrompem o funcionamento, conforme a pasta. Já a SES, disse que unidades estaduais de saúde estão funcionando normalmente.
A Secretaria Municipal de Educação (SME) informou que as escolas seguem atendendo presencialmente; imagens flagraram alunos do GET Mario Fernandes Ribeiro se abaixando para se proteger dos disparos. A Secretaria Estadual de Educação (Seeduc) ainda não retornou.






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