Quando o samba celebra seu mestre: A Viradouro na briga pelo título

Fazendo uma homenagem em vida e com o homenageado na avenida em exercício de seu ofício, a escola de Niterói emociona a Avenida, tem comissão de frente impressionante, alegorias encantadoras e entra na briga pelo título.

Guibsom Romão

A Viradouro surpreendeu a todos, inclusive o seu próprio enredo, quando anunciou a homenagem ao seu mestre de bateria para o Carnaval de 2026. Moacyr da Silva Pinto, o Ciça, é um sambista nato, nascido no berço do samba, no bairro do Estácio de Sá. O homenageado já foi mestre-sala, passista, ritmista e, por fim, mestre de bateria. 

Foi com o apito na boca que Ciça se consagrou na história do carnaval carioca, com passagens pela escola de seu bairro e do seu coração, Estácio de Sá, Unidos da Tijuca, Grande Rio, União da Ilha e Viradouro por dois momentos. O mestre foi campeão do Carnaval por três vezes, a primeira na Estácio de Sá em 1992, e as outras duas pela sua escola que o homenageia em 2020 e 2024. Dois dos três títulos da Viradouro foram com o Ciça no comando da bateria Furacão, por conta disso, é mais do que justa a gratidão por transformá-lo em enredo.

Com o enredo Pra Cima, Ciça, de autoria do carnavalesco Tarcísio Zanon, a  Viradouro celebrou, em vida, a trajetória de Mestre Ciça como símbolo maior da formação comunitária e transformadora do Carnaval carioca. A homenagem da escola  transformou o mestre de bateria em protagonista épico da própria festa, reconhecendo sua história iniciada na Estácio de Sá e consolidada em passagens marcantes por diversas agremiações.

Ao optar pela metalinguagem, o desfile falando de si por meio de um de seus personagens mais emblemáticos, a escola afirmou que celebrar Ciça era também exaltar todos os profissionais do samba, transformando a avenida em apoteose antecipada de um artista que revolucionou a batida e elevou a bateria ao centro do espetáculo.

A narrativa organizou-se em eixos biográficos e simbólicos: primeiro, a formação no ventre do Carnaval e a origem estaciana; depois, as inovações históricas e desfiles emblemáticos, como o título de 1992 e experiências ousadas em diferentes escolas; em seguida, a consolidação na Viradouro, com campeonatos e notas máximas que eternizaram sua assinatura percussiva; por fim, a consagração em vida, transformando o mestre em enredo e coroando-o como representante de toda a classe dos ritmistas e fazedores da festa, numa celebração coletiva do samba como estrela maior da cultura popular.

A comissão de frente, coreografada pelo casal segredo, Priscilla Mota e Rodrigo Negri,  chamada ‘Eu Vi… A Vida Pulsar Como Fosse Canção’, pulsou a emoção do público. Com tambores que andavam sozinhos, um garoto e um tripé que um apito virou o arco da Praça da Apoteose, a comissão encenou o menino Moacyr que descobre o samba e, entre mestres e batuques, transforma-se em Ciça: herdeiro direto da tradição que fez do ritmo uma revolução popular. Iniciado nos fundamentos da malandragem estaciana, ele recebe dos pioneiros a marcação que conduz não apenas desfiles, mas emoções. Do aprendiz nasce o Mestre; do Mestre, a lenda. Teve troca de roupa, tambor andando sozinho e, por fim, Ciça como o redentor da Sapucaí.

Até a primeira escola de samba da história, ‘Deixa Falar’, atravessa a vida de Ciça. Representada pelo casal de mestre-sala e porta-bandeira, Julinho Fonseca e Rute Alves, com a fantasia ‘Tributo à Deixa Falar’, o casal teve uma apresentação marcada pela leveza, sincronia e expressividade, aliada aos fundamentos das escolas de samba. Ao fim da apresentação, o casal enalteceu e reverenciou o enredo em vida, saudando-o com o símbolo maior da escola, o pavilhão.

O abre-alas ‘Forjado Nas Garras Do Velho Leão: O Rugir De Um Sonho’ foi arrebatador, trazendo à frente um leão, símbolo da Estácio de Sá, rugindo alto na Sapucaí e coroado com o símbolo da Viradouro, a coroa dourada. Na traseira do carro, veio deitado sobre um apito, um menino olhando para o alto como se estivesse sonhando com o futuro pelo olhar da percussão.

Outra alegoria que emocionou foi a terceira, intitulada “Lá Vem o Trem do Caipira”, em homenagem ao carnaval campeão de 1992 da Estácio de Sá, que celebrou os 70 anos da Semana de Arte Moderna de São Paulo. O carro reuniu componentes da escola do Leão e trouxe uma escultura do intérprete Dominguinhos sentado sobre o trem.

O grande destaque, porém, foi o casal de mestre-sala e porta-bandeira Claudinho e Selminha Sorriso, que, após cruzarem a Avenida pela Beija-Flor, retornaram ao desfile para relembrar o título de 1992, ano em que defendiam o pavilhão da Estácio.

No fim do desfile, fazendo referência ao desfile de 2007, ‘A Viradouro Vira o Jogo’, a bateria atravessou a avenida em cima de um carro alegórico, com  a mesma rainha de 19 anos atrás, Juliana Paes. Ciça foi personagem da comissão de frente e, de moto, voltou para conduzir a bateria e fechar o desfile.

Ao transformar Mestre Ciça em enredo e protagonista da própria história que ajudou a construir, a Viradouro realizou mais que uma homenagem: fez um manifesto em defesa dos fazedores do samba. Com uma comissão de frente arrebatadora, alegorias carregadas de memória afetiva e uma bateria conduzida pelo próprio homenageado, a escola uniu emoção, técnica e metalinguagem para reafirmar que o coração do Carnaval pulsa no ritmo de seus mestres.

Ao celebrar Ciça em vida, a agremiação não apenas reverenciou sua trajetória vitoriosa, mas também inscreveu na avenida a força coletiva da cultura popular, credenciando-se, com autoridade e brilho, na disputa pelo título.

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